quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Torcida na reta final


 
Monet. Impressão, nascer do sol. 1872

Chego ao final do processo eleitoral na torcida.
Torço para que haja segundo turno: será uma nova chance de que tenhamos um debate político de qualidade, que faltou durante o primeiro.
Torço para que o ódio, a grosseria, a homofobia e o medo sejam substituídos pela esperança, pela sensatez, pela generosidade, pelo respeito mútuo e pelo uso da razão, sobretudo em público.
Torço para que as redes sociais evoluam e agreguem frequentadores com menos bílis, menos ânimo publicitário, mais honestidade intelectual e mais disposição para o diálogo.
Torço para que Marina Silva consiga desarmar as bombas de efeito prolongado que lhe armaram o PT e o PSDB. Política inclui algum jogo sujo, não há porque ser moralista. Mas devem haver limites, especialmente entre os progressistas. Eleições não podem ser vividas no estilo do bruxo-mor João Santana: “um combate quase sangrento", onde não haveria lugar para escrúpulos éticos e no qual o melhor adversário é o adversário morto e esquartejado em praça pública. As campanhas principais, neste ano, desrespeitaram estes limites, trabalharam no terreno da baixaria explícita, sustentada por mentiras e difamações de grosso calibre e ainda por cima disseminadas em nome da "esquerda". Além de ter levado a um rebaixamento deplorável do nível do debate, tais procedimentos abriram feridas entre forças e pessoas que deveriam estar juntas, ou ao menos cooperar entre si.
Torço para que fique claro que a importância de Marina não está em ganhar as eleições, mas em mostrar as implicações funestas da polarização entre petistas e tucanos, um sistema de vetos cruzados que há duas décadas paralisa o País e o submete aos caprichos e interesses de dois partidos que perderam o contato com as ondas do futuro. A importância de Marina está em explicitar a dissonância que hoje existe entre a política e a vida, que é o que afasta as pessoas da política e ao mesmo tempo converte os políticos em ventríloquos de si próprios, sem incidência cultural e sem respaldo ativo da população.
Torço para que o desempenho empolgante de Marina reforce a oportunidade que temos de melhorar nossa compreensão deste quadro e arejar a política brasileira. Não foi por acaso que algumas pessoas que se julgam radicais tenham feito eco ao esquerdismo bobo e passado a estigmatizar Marina como a “nova cara da direita” e representante do neoliberalismo. É que ela desafia o coro dos contentes, desequilibra o jogo, agrega uma moçada com outra postura e outras ideias, movimenta a roda da política, que anda enferrujada. Ela mostrou ser uma ameaça real a um modo de fazer política que ancorou no passado e se sustenta hoje graças aos recursos de poder que acumulou.
Por isso, torço para que Marina vá ao segundo turno e, dispondo de melhores condições de campanha, possa contribuir para reorganizar a cultura e a agenda da democracia, da esquerda democrática e da política brasileira.
Em termos gerais, torço para que a esquerda democrática – que nestas eleições, mais uma vez, se distribuiu por vários partidos – extraia das urnas o combustível necessário para dar curso a uma nova articulação política, que unifique a diversidade progressista e fixe uma plataforma larga e consistente para que se faça política com os olhos em um futuro mais justo e igualitário.
Torço, por isso, para que se valorize cada vez mais o fato de que o poder é algo que se distribui socialmente. Somos cidadãos sempre mais “empoderados”. Em circunstâncias de globalização capitalista e financeirização, os governos podem pouco: a força deles se deslocou. Não podemos dispensar governos, mas não devemos jogar todas as fichas neles: precisamos dar mais valor às instâncias parlamentares e às interações Estado-sociedade. Ter um corpo qualificado de deputados e senadores é mais importante para a democracia do que um bom governante ou uma boa estrutura de poder executivo.
Torço, assim, para que consigamos fazer com que o poder desça do “poder”, deixe de ser uma via para distribuir cargos, decidir sobre a vida de milhares de trabalhadores, os funcionários públicos, flutuar como um deus onipotente sobre o conjunto da sociedade, imune a controles e críticas. Não deveríamos mais pensar e atuar como se o poder estivesse ali, pronto para ser “tomado”.
Torço para que o PSDB perceba que já não goza do reconhecimento pleno da população. Isto ficou flagrante em vários estados onde o partido tem presença histórica. Em São Paulo, deverá vencer mais uma vez as eleições, mas não ampliará seu poder de persuasão: vencerá mais pela fraqueza de seus adversários do que pela força de uma proposta. Terá de se reinventar para permanecer pesando na política nacional e estadual.
Algo bem parecido pode ser dito do PT, em São Paulo e no País. O partido mostrou que ainda tem gordura e lenha para queimar, mas demonstrou ter perdido a capacidade de fascinar a sociedade. Mesmo que vença as eleições presidenciais, fará isso sob pressão e debaixo de uma chuva inédita de críticas, repúdios, animosidades e contraposições. Sua opção preferencial por alianças fisiológicas que lhe deem sustentação no Executivo federal reflete uma convicção superada pelos tempos: a de que reformas estruturais podem ser impostas por decreto, de cima para baixo, mediante bases parlamentares obedientes, oposições fragilizadas e mecanismos de cooptação social e política, e não mediante o debate democrático com a sociedade e a construção consistente de espaços de hegemonia.
Torço, também, para que o Partido Verde, de Eduardo Jorge e Gilberto Natalini, avance eleitoralmente e se consolide como força qualificada para ajudar a que se polarize de modo diferente o campo político, abrindo espaço para novas composições e novas agendas, com as quais ganhem projeção partidos interessados mais em influenciar a modelagem e a execução de políticas públicas do que a conquista e o manuseio de estruturas de poder.
Torço para que o poder econômico possa ser politicamente regulado e deixe de determinar os resultados eleitorais. Que as estruturas partidárias sejam fortes por si mesmas e não necessitem de injeções financeiras espúrias, que as corrompem. Que os governos possam governar com base em suas propostas e sem o concurso de acordos e coalizões oportunistas, que os paralisam e os empurram para baixo.
E torço também, por fim, para que haja muito mais qualidade na seleção dos candidatos a todos os cargos. É para isso que existem partidos: para selecionar pessoas e dar sentido coletivo e educação cívica aos quadros e lideranças da sociedade. Quando surgem candidatos como Levy Fidelix, com sua homofobia e sua impostura política e moral, ou como Tiririca, com seu deboche político boçalizado, a democracia toda é emporcalhada. Candidatos assim não deveriam poder expor suas figuras patéticas e suas mensagens esdrúxulas e protofascistas à população.
Que entre mortos e feridos sobrevivam todos. Ou quase.

10 comentários:

ebilac disse...

Marco, sábias palavras! Me sinto exatamente assim - entre a descrença e a necessidade de fazer escolhas! Acho que você continua sendo o único para mim, que pondera questões extremamente importantes e questiona o nosso julgamento! Obrigada, beijo grande, Marquito!

ebilac disse...

Já falei tudo o que eu tinha que falar no meu comentário!

ebilac disse...

OI Marco, faço este comentário pela segunda vez, visto que os mecanismos do blog enviaram meu comentário para o espaço...
Não me lembro do que escrevi...Mas acho que o sentimento é o mesmo - algo entre a descrença e o vazio...E você põe as coisas em perspectiva para todos...Sábias palavras, falou e disse! O importante é que haja segundo turno... Para permitir um debate real, entre perspectivas supostamente distinta...Vamos ver!

marco a nogueira disse...

Beth querida, vc não pode imaginar como fico feliz de ler estas tuas palavras. Beijo grande também prá vc!

Marcia Regina Victoriano disse...

Parabéns pelo artigo. Também me sinto contemplada em suas palavras e me coloco na mesma torcida pela democratização da nossa democracia!!! Será um sonho????

marco a nogueira disse...

Valeu, Marcia! Muito obrigado. Sonhos são parte da vida e precisariam sempre ocupar o centro da política. Muitos não se realizam, mas servem de guia para novos investimentos. Abraço

Eduardo Magrone disse...

Prezado Marco,

Acho que você está torcendo por uma reforma política ampla e profunda. Estou errado?
Abs,
Eduardo Magrone

marco a nogueira disse...

Está certíssimo, Eduardo! É o caminho mais produtivo e o mais democrático que consigo visualizar. Abraço

Gianni disse...

Adorei o texto!

Independente de partido político no poder, é necessário uma mudança concreta e imediata nos pilares de nossa politica, senão nós brasileiros é quem sofreremos ainda mais as consequências.

Tendo em vista a atual situação politica, econômica e social do Brasil, que está sem credibilidade alguma, não consigo acreditar que o PT se empenhe por mudanças e melhoras.

O discurso do PT tornou-se claro em pró ao assistencialismo em troca de poder. Nada contra o Bolsa Família, que inclusive acredito ser uma das politicas sociais mais relevantes e marcantes na história de nosso país, mas que de fato precisa ser aperfeiçoada, melhor fiscalizada.

Acredito que um programa assistencial é bom quando pode deixar de ser usufruído. Que não caso deste programa.

Ou seja, seria integramente responsável se fosse mais que apenas um programa de distribuição de renda, e sim um esquema programático de capacitação profissional e geração de renda entre os cidadãos que o utilizam. Mas este é um discurso longo, que daria 'pano pra muita manga'.

Apesar de muitos anos eu não ter sito partidário pró PSBD, hoje eu credito no PSDB uma possível solução para que tais mudanças sejam efetivas e tenhamos mais credibilidade interna e extenamente.

Parabéns pelo blog e estou adorando a cada postagem nova!

Abraço

marco a nogueira disse...

Obrigado pelo comentário, Gianni. Penso como vc, precisamos de um esforço coletivo para superar o quadro atual e enveredarmos por um caminho mais produtivo no Brasil. ABraço