quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A decadência ética e as novas regras do jogo



Arianna Favaro. Le città invisibili 1

Prestes a terminar a batalha campal que, ao longo das últimas semanas, jogou o país numa tosca e virulenta discussão eleitoral, ponho-me a pensar retrospectivamente.
Fui insistentemente monitorado. Talvez por não ter temido a exposição pública, talvez por ter muitos conhecidos, talvez porque me atribuam algum poder de influenciar pessoas e formar opiniões. Também há muita inveja e mesquinharia entre as pessoas, mesmo entre as que se julgam mais lúcidas e clarividentes. Algo disso sempre respinga nos relacionamentos e contatos, ou no julgamento que uns fazem dos outros.
Não me senti de modo algum “perseguido” ou “patrulhado”. Várias outras pessoas, pertencentes aos dois lados da pendenga, registraram a mesma situação. Além do mais, comunistas têm grande capacidade de resistir a este tipo de cerco. Cresci nele, vivi boa parte da vida como minoria dentro da esquerda. Nunca me atrapalhou em nada. Longe de mim, portanto, posar de vítima.
O ocorrido foi somente parte de um jogo que abandonou regras procedimentais básicas, fixadas pela ética pública, em troca de ganhos marginais de visibilidade e, quem sabe, de alguns votos. Não frequento o “coitadismo”. Para mim, coitados são sempre os que batem e atacam.
Agora, quando o rescaldo da batalha começa a ser contabilizado, penso que os registros devem ser feitos, ao menos para que se conheçam os novos termos do jogo político e cultural que ameaçam passar a prevalecer entre nós. A decadência ética e política a que assistimos na campanha eleitoral de 2014 não deveria ser confundida com a choradeira lamurienta dos que não têm firmeza suficiente para suportar as “verdades” da luta política. É um tema que teremos de discutir daqui para frente. Ele não poderá ser largado no escaninho das reclamações, terá de ser procurado no setor de achados e perdidos.
Duas manifestações foram particularmente agressivas e antidemocráticas. Uma pessoa me fez saber que está com “vergonha de ter sido sua aluna”, ao passo que outro ameaçou queimar todos os meus livros. Ambos deixaram transparecer uma fúria assustadora, com a qual nunca tive de lidar, nem sequer durante a ditadura militar. Houve quem prometeu “reler meus livros” para descobrir em que degrau da escada eu tropecei de modo tão vergonhoso. Arrogantemente, outros “lamentaram” minha posição, que teria sido, para eles, uma “revelação” associada a uma espécie de troca de pele, a uma metamorfose provocada por excessiva exposição aos raios e eflúvios do grande capital. Uma alma caridosa disse ter pena de mim, um inflexível revolucionário disse que eu não passava de um “intelectual de aluguel”, outro lembrou que sempre tive uma “alma tucana” que finalmente teria vindo a público. E não faltou quem sugerisse que, por nunca ter falado em gênero e sexualidade, eu certamente seria um macho-alfa a serviço da submissão da mulher.
Foi cansativo, mas valeu a pena. Passei a limpar minha rede de contatos, que estava artificialmente inchada. Comecei a afastar e a bloquear quem não interage comigo, quem agride terceiros só pelo prazer de me agredir, quem aparece para ironizar, zoar ou debochar, quem ofende, mente ou planta boatos, os exibicionistas, os grosseiros e os chatos, os torquemadas que se limitam a julgar e a vomitar sentenças. Não perdi “amigos”, longe disto. Se algum saldo positivo vier a sair destas eleições ele incluirá, em lugar de destaque, a oportunidade que todos tivemos de aclarar os campos em que nos encontramos, os limites que estamos dispostos a suportar, as maneiras que escolhemos para discutir política e ideias, os valores que pretendemos cultivar, o quanto achamos que gentileza, respeito e bons modos devem integrar o relacionamento entre humanos.
Deveríamos todos – cidadãos, militantes, apoiadores, analistas, jornalistas, políticos, intelectuais – começar a fazer uma reflexão. A quem pode interessar esta inflamação irracional que inundou as redes e está chegando às ruas? Os que se batem entre si são democratas de diferentes colorações, com algumas ideias distintas e igualmente preocupados com os destinos do país. Têm tradições que devem ser respeitadas e que podem fornecer larga base comum para cooperações e trabalhos conjuntos. Integram partidos diferentes, que ao lutarem pelo poder estão a extrapolar, impulsionados por campanhas que perderam o senso das medidas, das proporções, do razoável.
O confronto hoje não é entre "nós" e "eles", mas entre "nós" e "nós". O prosseguimento deste clima de sectarismo e intolerância não pode ajudar à democracia, nem emprestar qualidade a ela. Um presidente será eleito no domingo, mas segunda-feira a vida continuará. Quem vencer governará um país bastante dividido e temos de torcer para que ele, seu governo, os partidos e o Congresso se esforcem no sentido de promover uma recomposição. Quando mais deixarmos que a irascibilidade, a violência verbal, a acusação gratuita e a agressão tomem conta de tudo, mais difícil será para quem vier a sair vitorioso das urnas. E pior será para todos nós.

6 comentários:

Marisa Bittar disse...

Prezado Marco Aurélio,

A reflexão é necessária e urgente. A vida é mais rica e complexa do que uma eleição. Ela é feita de contradições, mas também de mediações, como você escreve. Estou chocada com as posturas reacionárias relatadas em seu artigo, algumas delas beirando ao fascismo. Isso mostra o quanto o autoritarismo está entranhado entre nós e como é difícil, nesse ambiente de agressões baixas e desqualificadas, praticarmos as novas regras do jogo. Pois elas exigem respeito à pluralidade de idéias e convivência democrática. Mas como você mesmo disse: é preciso ter firmeza de propósitos e disposição. A vida continua e pulsa depois de domingo qualquer que seja o resultado eleitoral. Parabéns pelas suas sempre brilhantes contribuições ao debate!

Marisa Bittar

Marisa Bittar disse...

Prezado Marco Aurélio,

A reflexão é necessária e urgente. A vida é mais rica e complexa do que uma eleição. Ela é feita de contradições, mas também de mediações, como você escreve. Estou chocada com as posturas reacionárias relatadas em seu artigo, algumas delas beirando ao fascismo. Isso mostra o quanto o autoritarismo está entranhado entre nós e como é difícil, nesse ambiente de agressões baixas e desqualificadas, praticarmos as novas regras do jogo. Pois elas exigem respeito à pluralidade de idéias e convivência democrática. Mas como você mesmo disse: é preciso ter firmeza de propósitos e disposição. A vida continua e pulsa depois de domingo qualquer que seja o resultado eleitoral. Parabéns pelas suas sempre brilhantes contribuições ao debate!

Marisa Bittar

marco a nogueira disse...

Obrigado pelo comentário e pelas palavras encorajadoras, Marisa. A vida seguirá mesma, pulsando mais forte que este debate doentio a que assistimos.Abraço!

V. Silva disse...

Caro Professor:

Minha solidariedade às suas corretas reflexões e honestidade intelectual.

Continuaremos acompanhando os ensinamentos de quem mantém coerência entre ações e discurso sem se deixar embaçar por infantilidades de velhos e senilidades de jovens levados apenas pelo messianismo ingênuo.

De qualquer forma o senhor dá-nos a melhor lição que qualquer mestre pode passar para seus alunos: compromisso com a sua verdade e respeito pelo contraditório.

Saudações Democráticas!

marco a nogueira disse...

Obrigado pelo comentário, V. Silva. Abraço

César Hernandes - PPS disse...

Professor, realmente vivemos um período difícil, de manifestações fascistas, violentas. Também senti na pele e perdi "amigos". Mas sigamos em frente. Parabéns pelas suas sempre brilhantes análises.
Abraços
César - SP