domingo, 28 de abril de 2013

Partidos para dar e vender


É compreensível, ainda que não cabalmente justificável, o alvoroço provocado pela aprovação na Câmara dos Deputados do projeto de lei que limita o acesso de novos partidos ao fundo partidário e ao tempo de propaganda na TV. Houve tanta falta de tato e habilidade que se abriu uma pequena crise política no país.
Sempre que se mexe com os partidos, tudo sai do lugar, a começar dos interesses e planos forjados nas instâncias políticas e governamentais. Como há um calendário eleitoral e o governo se atirou de corpo e alma na batalha pela aprovação do projeto, o ambiente político ficou nervoso.
A relação entre qualidade da representação, número de partidos e mecanismos de criação de novas siglas merece ser sempre bem analisada. As distintas situações nacionais concretas ensejam múltiplos sistemas partidários, seja no que diz respeito às suas regras, seja quanto à maior ou menor facilidade para que se criem partidos.
Não há de antemão um número ótimo de partidos e nem critérios pétreos que fundamentem uma regra para sua multiplicação. A questão de saber quantos partidos suporta uma boa representação democrática é retórica: não dá para ser respondida. Democracias de boa qualidade sobrevivem mesmo que tenham sistemas partidários fragmentados; basta que algumas grandes forças partidárias organizem a competição política.
Partidos surgem conforme cálculos e desejos que não estão em manuais. A busca de regulação do processo reflete o desejo das cúpulas de impedir que a representação se despedace e atrapalhe a governabilidade. Especialmente hoje, época de muitas postulações de identidade e múltiplas agendas, o pluralismo não cabe numa divisão simples entre direita, centro e esquerda, por exemplo. A imposição de camisas-de-força não funciona e pode até mesmo afastar do jogo político as minorias não partidarizadas e sem chances de criar seus partidos.
Isso também ocorre nos países em que as tradições históricas, a cultura política e o processo de organização do Estado estabeleceram regimes fortemente polarizados entre duas forças gigantes, como nos Estados Unidos (democratas vs. republicanos) e na Inglaterra (conservadores vs. trabalhistas). Neles, ou as minorias se compõem e se diluem nos grandes partidos, ou vegetam na margem do sistema, dele se excluindo. Seja como for, sistemas partidários desse tipo são produtos da realidade, não o resultado de imposições legais.
Exceção feita aos períodos ditatoriais, o Brasil sempre foi “multipartidário”, sempre conviveu com a proliferação de legendas e com a dança dos parlamentares entre elas. Criar novos partidos tem sido uma preferência nacional, um traço de nossa vida política. Seja para acomodar novos interesses, resolver pendências ou dar vazão a apetites eleitorais.
O problema se agravou a partir dos anos 1980, quando a sociedade ficou mais complexa e se desfez a unidade democrática contra a ditadura. Dezenas de siglas se esparramaram então pela vida política nacional, a maioria delas com existência fugaz e perfunctória. O mecanismo de criação de partidos ficou desregulado. Tornou-se mais fácil fundar uma legenda do que abrir uma conta bancária. Migrações sem critério entre os partidos tornaram-se usuais.
Fatores tópicos ajudaram a que isso acontecesse. Os partidos principais, PMDB, PT, PSDB, estruturadores do sistema, foram perdendo magnetismo e condicionando sua capacidade de atração ao uso dos recursos de poder, ampliados na medida em que conquistavam governos. Desfizeram-se as identidades tradicionais e o surgimento de novas identidades fez com que aumentasse o empenho por novos partidos. A dinâmica democrática geral foi-se mostrando mais forte do que os partidos e esses, ao chegarem aos governos, mal conseguem se distinguir uns dos outros, fato que passou a ser percebido pela opinião pública, contagiada ela própria por uma visão antipolítica que vitima antes de tudo os partidos e os parlamentares. Abandonados pelos cidadãos, os partidos foram se concentrando em seus próprios negócios internos, burocratizando-se. Parlamentares mais coerentes passaram a cogitar da criação de legendas mais “autênticas” para compensar a indigência partidária prevalecente. Ao mesmo tempo, políticos fisiológicos, sem espaços nos partidos existentes, sentiram-se incentivados a criar legendas à sua imagem e semelhança para assim construir bases com que viabilizar suas pretensões eleitorais. Por fim, a legislação eleitoral, ao vetar as candidaturas independentes, empurrou os políticos para a multiplicação artificial de legendas. Com a valorização do tempo de propaganda na TV e sua distribuição conforme a votação obtida, o círculo se fechou.
A discussão atual tem um quê de bizarrice. Caso um parlamentar abandone seu partido por outro, ele leva ou não consigo a representatividade obtida nas urnas? Seus votos lhe pertencem ou são do partido? A questão é bizarra, mas faz sentido: afeta diretamente os jogos de poder. Segundo as regras vigentes (que não autorizam os partidos a apresentarem listas fechadas aos eleitores), o mais lógico é que os votos fiquem com os parlamentares que os receberam. Mas os partidos os patrocinaram e podem arguir que também são donos dos votos.
O projeto aprovado na Câmara não proíbe a criação de partidos. Seus promotores alegaram que desejam impedir que se repitam artimanhas como a da criação do PSD, que nasceu rico graças ao “roubo” de deputados de várias siglas. Escolheram, no entanto, um péssimo momento para fazer isso. Deram a impressão de querer atrapalhar as propostas ora em gestação, mexendo nas regras com o jogo em curso. Ninguém foi excluído, mas a medida prejudica os que desejam crescer mediante a captura de descontentes e reduz o potencial imediato de qualquer nova sigla que venha a surgir. Tem cara de armação, mesmo que em médio e longo prazo sobrevivam todos os partidos, e mais alguns. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/04/2013, p. A2].

domingo, 7 de abril de 2013

Guadalajara, México, pensamento latino-americano



Conheço Jaime Preciado Coronado há alguns anos. Primeiro por escrito, lendo seus textos. Depois, ao vivo, quando minha universidade materializou um convênio de cooperação com a Universidade de Guadalajara (México), em cujo Departamento de Estudios Políticos y de Gobierno (parte do Departamento de Estudios Ibéricos y Latinoamericanos /DEILA), ele trabalha como professor e investigador. 

Não mantenho com ele tantos contatos quando gostaria, mas sempre acompanho o que faz e escreve. Invariavelmente com prazer. Jaime é um intelectual de seu tempo, atento aos problemas do mundo, da América Latina e do México. Juntamente com Alberto Rocha Valencia e outros grandes amigos que trabalham na mesma universidade de Guadalajara, integra um coletivo que expressa a força do pensamento latino-americano. 

Lembrei-me agora do excelente blog que Jaime mantem no ar desde 2009, no qual ele reproduz os artigos semanais que escreve para o diario Público-Milenio, de Guadalajara, todas as sextas-feiras. O blog pode ser acessado aqui
Vale a pena visitá-lo. E explorar o que traz de reflexão sobre a vida glocal, como fala Jaime.

sábado, 23 de março de 2013

Desejo de poder




A decisão foi tomada com a costumeira sagacidade, um dos atributos mais incensados do ex-presidente Lula. Mas não faz jus à importância política que ele tem na história recente do país.
Quando, a dois anos do fim do mandato da presidente Dilma Rousseff e dos governadores estaduais, a população e o sistema político são instados a derivar para a dinâmica da sucessão, todos perdem alguma coisa.
Perdem antes de tudo os governos, que trocam suas agendas executivas e seus planos de obras, investimentos e repasses, por afagos em aliados, reprimendas em adversários e trancos em inimigos. Atos que deveriam ser corriqueiros convertem-se em factoides, decisões são antecipadas ou postergadas com o propósito de chamar atenção e dramatizar a relação com a sociedade. Tudo sai do eixo, da dimensão do que é razoável, escorre pelo ralo das maldades e bondades de que é feita a face escura da política – uma face que se suporta bem quando a outra face exibe vigor e determinação, coisa que está bem longe de acontecer. E assim, como que de repente, jogam-se todos num frenesi para acumular trunfos, “adensar o entorno”, compor base política e atrapalhar os adversários. Prova disso é a reforma ministerial promovida pela presidente na semana passada, em meio ao anúncio de novos benefícios à população e a uma nova onda de aprovação popular a seu governo. A troca de ministros não seguiu qualquer lógica gerencial, foi pura fisiologia e ajuste para acomodar parceiros e manter intacta a base governista. Como disse o deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ), “alguns ministros insignificantes saíram e outros ministros insignificantes entraram”. Abriram-se assim mais espaços para a ação predatória dos partidos aliados, sem qualquer critério ou justificativa séria.
O governar, nesse quadro, torna-se exibicionismo, marketing e construção de imagem. Governos e governantes ganham em protagonismo e visibilidade, mas perdem em planejamento e eficácia, agindo na contramão do que deles se espera. Assume o primeiro plano, sem qualquer dissimulação, aquele “perpétuo e irrequieto desejo de poder” que Thomas Hobbes (1651) considerava tendência geral dos homens.
Mesmo no universo imediatamente político, quer dizer, no mundo dos políticos e dos partidos, não há somente ganhadores. Os que se posicionam na situação, estejam em Brasília ou nos estados, ganham certamente alguma coisa. Foi pensando neles que Lula decidiu lançar Dilma à reeleição. Com sua argúcia autorreferenciada, imaginou criar um fato que ajudasse o governo a visualizar amigos e inimigos, tanto dentro quanto fora da coalizão governante. O sinal de largada significou que a partir de agora políticos e partidos situacionistas devem maximizar o uso de seus recursos de poder para infernizar a vida dos adversários e tentar cristalizar suas marcas e identidades. Devem por em movimento uma enxurrada de obras, promessas e realizações. Devem rever e ajustar cronogramas anteriores ou simplesmente inventar outros às pressas. Menos discussão, crítica e reflexão, mais movimento e divulgação.
No campo das oposições, o estrago é ainda maior, pois elas são forçadas a acelerar a resolução de seus próprios dilemas e dificuldades. Ao fazerem isso, abrem mão de um trabalho mais cuidadoso, mais denso, mais afinado com suas tradições e mais atento aos problemas nacionais. Tendo de interagir com um futuro artificialmente antecipado, não conseguem resolver nem acomodar suas contradições e tensões, perdendo força antes mesmo de irem à luta. Os ruídos e arestas entre Serra, Alckmin e Aécio Neves no interior do PSDB, assim como os improvisos que o PSB é obrigado a fazer para dar corpo e envergadura a Eduardo Campos, são a ponta mais visível desse iceberg.
Isso não quer dizer que as oposições terminem por ver aumentar sua letargia. Elas até poderão chegar em condições razoáveis à disputa eleitoral de 2014. Mas dificilmente farão isso sem um esforço desproporcional, sangrando bastante e varrendo a sujeira para debaixo do tapete. Terão menos tempo para reunir seus pedaços, elaborar um programa consistente que parta de um diagnóstico profundo da realidade nacional e tenha engenho e arte suficientes para  seduzir os eleitores. Em vez de candidatos oposicionistas fortes, sustentados por proposições substantivas e coerentes, sintonizados com correntes de opinião e interesses conscientes de si, surgem candidaturas alternativas impulsionadas por apetites pessoais e regionais. Dar-se-á o mesmo no campo situacionista, já que seus candidatos serão levados a requentar o conhecido em vez de tentar dar um passo à frente e inovar. A pressa é inimiga jurada da perfeição. 
A antecipação casuística do calendário eleitoral é ruim para a democracia e para a massa de eleitores, em especial aqueles setores sociais (os pobres, os excluídos, os discriminados) que mais teriam a ganhar com a existência de um debate democrático de qualidade, pedagógico e incorporador. A partir de agora, tal debate tornou-se hipótese remota.
A manobra de Lula – como, aliás, qualquer manobra em política – traz consigo alguma dose de risco. Ela submete Dilma a um teste de resistência. A candidata situacionista, que hoje é a maior beneficiária da antecipação, terá de caminhar daqui para frente com um pé em cada canoa, apresentar-se ora como gestora e governante do presente, ora como fiadora de um futuro que parece distante demais. Poderá chegar inteira e fortalecida às urnas de 2014, mas poderá também acumular algum desgaste por excesso de exposição. Se a calmaria se instalar no país, se apresentará como sua criadora e tenderá a magnetizar de forma invencível todo o campo político. Se, porém, a vida não lhe fornecer somente temperaturas amenas, brisa e água fresca, chegará extenuada ao momento eleitoral, será responsabilizada por erros e fracassos e terá poucos ombros amigos em que se apoiar. [Originalmente em O Estado de S. Paulo, 23/03/2013, p. A2].

quarta-feira, 6 de março de 2013

Homenagem a Carlos Nelson Coutinho

Com Carlos Nelson Coutinho. Nápoles, 1997.

Em dezembro de 2012, na Universidade Federal da Bahia, tive a oportunidade, a emoção e o prazer de fazer uma conferência em homenagem a Carlos Nelson Coutinho. Foi no encerramento do III Encontro de São Lázaro, tradicional promoção da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. A conferência se chamou "Democracia e socialismo".  O vídeo pode ser assistido aqui
A primeira vez que ouvi o nome de Carlos Nelson Coutinho foi, creio, em 1974, quando Gildo Marçal Brandão me apresentou aos ensaios reunidos em Realismo e Anti-realismo na literatura brasileira, livro de um grupo de ensaístas que tinham o filósofo húngaro marxista Gyorgy Lukács como referência. O livro acabara de ser publicado pela Paz e Terra. Lukács era, naqueles anos, para o grupo de estudantes e professores que eu integrava, a máxima expressão do marxismo que pretendia reivindicar, ao mesmo tempo, renovação e rigor. Fazíamos uma espécie de “marxismo acadêmico”, concentrado no plano do estudo, obrigados a isso pela dura repressão política que praticamente extinguira os partidos de esquerda do cenário nacional. Havia um clima de “intelectualismo” meio que refratário à ação política, mas as condições objetivas eram brabas, e justificavam a cautela. Vivíamos à espera do retorno do príncipe moderno, ou seja, de um partido político revolucionário.
Eu lera Gramsci alguns anos antes, incentivado por Lúcio Flávio Pinto na Escola de Sociologia e Política. Na época, fazíamos a revista Di...fusão, de que participavam também Reginaldo Forti e Claudio Kahns. Era uma revista de centro acadêmico, na qual publiquei minhas primeiras resenhas. Lúcio sugeriu que lêssemos as notas de Gramsci sobre jornalismo para ganharmos base teórica. Li-as e me entusiasmei muito, mas a leitura não teve sequência. Mas o modo gramsciano de fazer marxismo, expresso naquelas notas, me influenciou sem que eu me desse conta, suavizando a assimilação que fazia do lukacsianismo de meus colegas. Lukács me dava alguns bons esquemas e boas categorias com que fazer luta ideológica, mas não resolvia satisfatoriamente a questão da política, eu perceberia mais tarde, quando o troquei por Gramsci. Conversei centenas de vezes sobre isso com meu grande amigo Gildo Marçal Brandão ao longo daqueles anos. Até sua morte prematura, em 2010, o tema nunca saiu da conversa.
Mas ali, em 1974-1975, éramos todos lukácsianos e o livro em que estava o artigo de Carlos Nelson foi como que a abertura de uma porta para a reflexão crítica. Fui atrás de outras coisas dele, e descobri, com surpresa, que aquele cara que tinha tanto a dizer era pouco mais velho do que eu e tinha muita coisa na bagagem. No livro sobre o antirrealismo, ele dialogava com Lima Barreto, ampliando o dialogo que havia feito com Graciliano Ramos e outros em Literatura e Humanismo (1967), livro que li com enorme interesse. Maravilhavam-me o estilo fluente, a escrita sedutora e a agenda teórica de Carlos Nelson. Ainda se ouviam os ecos do marxismo althusseriano quando devorei O Estruturalismo e a Miséria da Razão, que ele publicara em 1972 também pela Paz e Terra. Um cara que publicara dois livros como aqueles antes dos 30 anos de idade, pensei, merecia respeito! Ainda mais sendo marxista, luckasiano e comunista... e no Brasil.
Mas seria somente em 1976 que eu e Gildo tomaríamos a iniciativa de tentar entrar em contato com Carlos Nelson. Faríamos isso valendo-nos de Nelson Werneck Sodré, com quem conversávamos para organizar a revista Temas, que viria à luz em 1977. Sodré nos informou que Carlos Nelson estava em Paris e eu me propus a escrever para ele. A intenção era convidá-lo para escrever em Temas e na revista Escrita Ensaio, que eu e Gildo editávamos para a Editora Escrita, de Wladir Nader.  Em seu primeiro número, dedicado à cultura brasileira, a revista da Escrita traria um texto de Carlos Nelson.
Começaria ali, naquela primeira de incontáveis cartas, uma amizade que durou até o dia 20 de setembro de 2012, quando Carlos Nelson morreu aos 69 anos.
Trocamos muitas cartas e posso dizer que nossa amizade nasceu pelo correio. Somente nos conhecemos em 1978, quando ele voltou ao Brasil. Mas antes disso já havíamos conversado sobre praticamente tudo, e eu já havia imaginado como é que seria a figura daquele baiano tão simpático, erudito e bem-humorado nas cartas. Quando fui a seu encontro, num pequeno apartamento da Rua Barata Ribeiro, no Rio, era como se já o conhecesse há décadas. Dar-se-ia o mesmo, aliás, com Leandro Konder.
Guardo essas cartas como se fosse um tesouro particular. Elas dizem muito a meu respeito, me ajudam a entender quem me tornei, as opções que fiz, as relações que estabeleci.
Na época em que a correspondência cresceu, havia nos ambientes de esquerda a questão do eurocomunismo. O Partido Italiano e o Partido Português punham-se em lados distintos na Europa, e me lembro da dedicação com que Carlos Nelson me convenceu do avanço que representavam as ideias italianas, que no início eu via com suspeita. Usávamos metáforas para evitar falar em partido comunista e comitê central, pois achávamos que a censura poderia se interessar por nossa correspondência. A ideia era que “as roupas do príncipe moderno” haviam ficado pequenas demais e necessitavam de reforma urgente. Aos poucos, tornei-me tão “eurocomunista” quanto ele. Tornei-me, também, um consumidor voraz dos textos democráticos que o Comitê Central do PCB fazia chegar ao Brasil (via Voz Operária), e que eu sabia contavam com a ajuda de Carlos Nelson, que integrava na Europa o grupo de assessores que Armênio Guedes organizara para modernizar o partido no plano da formulação política. Quando saiu na revista Encontros com a Civilização Brasileira (nº 9, 1979) o artigo de Carlos Nelson sobre a democracia como valor universal, eu já lhe conhecia o eixo e as conclusões, mas nem por isso pude deixar de ver ali um elemento que ajudava demais ao que se fazia no Brasil naqueles anos em termos de luta contra a ditadura. Além do mais, era um texto que atualizava o marxismo político, e o convertia numa ferramenta em condições de dialogar com a ciência política acadêmica, que começava então a se firmar. Pouco depois, ajudei a Editora Ciências Humanas a publicar o volume de Carlos Nelson A democracia como valor universal, que trazia aquele texto seminal e mais alguns outros. Participei ativamente da redação da “orelha” feita por Armênio Guedes, sugerindo acréscimos ou cortes como se fosse um texto meu. Fizemos isso na redação do jornal Voz da Unidade, em São Paulo, que então começava a circular.
Tudo isso é história, mas é sobretudo história de uma amizade.
De final dos anos 80 para frente, mantive intensos contatos com Carlito. Ficava em sua casa quando ia ao Rio. Quando fui para Roma (1984-1985), ele me visitou uma vez e ficou alguns dias em casa, depois de termos participado de um seminário em Ferrara. Passamos a trocar milhares de e-mails assim que nos informatizamos, mais pro fim da década. Conversamos mais e melhor por escrito do que por telefone.
Fizemos muitas coisas juntos. A edição dos Cadernos do Cárcere de Gramsci foi a mais empolgante e importante delas. Toda a ideia da edição, sua concepção, o plano editorial, o estudo que deu origem a ele, tudo isso foi obra de Carlos Nelson. O trabalho braçal, sobretudo de tradução, foi especialmente dele e de Luiz Sergio Henriques. Fiquei com o nome ali por generosidade dos dois, e talvez por um reconhecimento dos largos anos em que trocamos ideias sobre o assunto.
Saímos do PCB quase ao mesmo tempo, ainda que não de modo articulado, por volta de 1983. A motivação teórica e ética era a mesma, os motivos operacionais algo distintos. Em São Paulo, eu estava profundamente entranhado na vida do partido, participava da direção estadual, entrara em choque frontal com o Comitê Central. O grupo carioca em que estava Carlito estava mais no plano intelectual, cultural. A linha geral, porém, era a mesma: o partido bloqueava o esforço de renovação política e teórica de que os comunistas necessitavam. Não dava para ser coerentemente marxista sem uma ruptura.
Nem sempre estivemos do mesmo lado depois que saímos do PCB. Ele, que sempre dizia não saber viver sem um partido, passou pelo PSB, foi para o PT e depois para o Psol, ao passo que eu fiquei fora de partidos. Cheguei a lhe dizer, em tom de brincadeira, que ele trocava demais de sigla partidária porque sempre exigia demais de cada uma delas. A resposta, repetida várias vezes, seria sempre que “eu não mudo de lado, nem de posição, os partidos é que fazem isso”. Eu também gostava de provocá-lo dizendo que o Carlito da democracia como valor universal era muito melhor que o Carlito que teorizava sobre a “contrarreforma” empreendida por FHC e Lula. Vi-me várias vezes defendendo o governo Lula contra ele, que criticava com veemência o PT por ter abandonado a fronteira das reformas sociais e se entregado ao “eleitoralismo”. Divertíamo-nos (a sério) com essas sinuosidades e com o transformismo que parecia afetar os governos de esquerda. Nunca chegamos a conversar a fundo sobre isso, ainda que tenhamos planejado fazê-lo. Nossas diferenças ficaram em estado latente, mais que manifesto. Jamais atrapalharam nossa amizade.
A vida, os compromissos profissionais e as distintas opções políticas ajudaram a fazer com que os contatos diminuíssem entre nós. Inconscientemente, fomos reduzindo as conversações, deixando que elas aflorassem somente quando possível, quase ao acaso. Quando conversávamos, lamentávamos o fato, mas não conseguimos acumular forças para reverter a situação.
Esquecer as diferenças e divergências que tivemos seria desrespeitar sua memória, seria uma ofensa a alguém que sempre valorizou a crítica e a discussão de ideias. Os mais próximos o recordarão como uma personalidade exuberante, dotado de uma humanidade excepcional e sempre disposto a rir de si próprio e das bobagens humanas. Um amigo fraterno. Carlos Nelson Coutinho foi durante mais de 50 anos um comunista e sempre se definiu desse modo. Considerava ter mudado de siglas, mas não de lado. Em um país no qual virar-a-casaca é um fenômeno político de massas, poucos poderão ao final de suas vidas dizer a mesma coisa.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Redes, partidos e política




Compreensível o interesse despertado pelo lançamento da Rede Sustentabilidade, o novo partido articulado pela ex-senadora Marina Silva, entre outros políticos e ativistas. Se o quadro partidário brasileiro provoca tédio e desesperança, nada como uma proposta recheada de boas intenções para que se espalhe a sensação de que algo pode ser feito para que se melhore a política hoje prevalecente.
O novo partido surge propondo-se a ser diferente na estrutura (uma rede), nos procedimentos e nas ideias. Não partiu da arregimentação de lideranças expressivas ou bancadas parlamentares preexistentes. E não está poupando energia para convencer a opinião pública de que veio para valer, não é mero capricho de seus idealizadores. Lançou-se, porém, com uma meta clara: dar abrigo e sustentação à futura candidatura presidencial de Marina Silva, principal justificativa para que a operação fundacional fosse desencadeada agora, quando já é nítido o rufar dos tambores das eleições de 2014, um frenesi eleitoral aparentemente intempestivo e prematuro mas que tem sua razão de ser, como observou nessa página o cientista político  Luiz Werneck Vianna (Estado, 16/02/2013).
Tal justaposição de objetivos – criar um novo modo de fazer política e viabilizar uma candidatura – fará, portanto, com que os articuladores da proposta tenham de agir para demonstrar que terão disposição para amassar o barro da política dura, que não se sujeita nem obedece a princípios vagos, chefes supremos ou calendários eleitorais. Não à toa o discurso de Marina insiste em enfatizar que o novo partido existirá “para questionar a si, não para disputar uma eleição” – não terá “espírito de manada”.
Cercada de expectativa, a Rede chamou atenção pelo inusitado de algumas de suas ideias. Não aceitará, por exemplo, contribuições financeiras que provenham de negócios que agridam ou prejudiquem a saúde e o meio ambiente (bebidas alcoólicas, cigarro, armas, agrotóxicos), o que mostra uma face simpática e sensível mas pouco clara quanto a seus efeitos efetivos. A hipótese certamente é que o partido consiga sobreviver eleitoralmente graças à contribuição expressiva de seus militantes e simpatizantes, o que parece romântico demais. Vale o mesmo para a pretensão de limitar a reeleição de seus futuros parlamentares (uma em cada casa parlamentar) e de organizar um conselho de cidadãos que monitore com independência a sigla e seus dirigentes. São ideias interessantes mas de efeito impreciso, com o agravante de que podem sugerir que o partido pretende estacionar fora da política institucionalizada, feita e vivida pelos brasileiros. Tanto a questão é delicada que alguns de seus propositores, a começar da própria ex-senadora, têm procurado deixar claro que o novo partido não fugirá das alianças (desde que sejam “pontuais e em torno de ideias”) e que trabalhará para criar novas correlações de forças no país, em vez de deixar tudo como está.
O mais importante, porém, é a proposta abrangente da nova legenda, antes de tudo sua disposição de funcionar como uma rede que promova a articulação entre políticos de diferentes orientações partidárias e, ao mesmo tempo, impeça que o partido concentre todas as decisões políticas e fique engessado em torno de seus próprios interesses. A perspectiva tem potência, especialmente porque proclama que é mais importante privilegiar aquilo que une e é comum do que aquilo que distingue e opõe. Se a questão é agir “pelo bem do país” ou por uma causa magna que esteja acima de partidos e facções, a estruturação em rede faz total sentido. Foi mais ou menos assim que Joaquim Nabuco definiu a estratégia do abolicionismo nos anos 1880: ativar um movimento, uma opinião, uma agitação para “desagregar fortemente os partidos existentes, até certo ponto constituindo uma igreja à parte composta dos cismáticos de todas as outras”.
Em seu discurso no ato de lançamento do partido, Marina Silva pareceu emular essa posição de Nabuco: “Não seremos nem oposição nem situação ao governo de Dilma Rousseff. Se a presidente estiver fazendo algo bom para o Brasil, nossa posição será favorável”. A Rede pretende "quebrar de fato o monopólio dos partidos na política”, substituindo-o pela ação da cidadania. É um palavrório vago. A questão é saber se esse caminhar no fio da navalha será viável diante da natureza “partidária” da política, de sua essência agonística de luta pelo poder, da falta de gente que trabalhe desinteressadamente por uma causa maior.
Apresentar-se como novidade é fácil. Difícil é dar corpo e vida à nova proposta, traduzi-la em termos políticos, intelectuais e organizacionais. Não será simples criar um partido numa época de homens partidos e pobres de ideias políticas. Parece faltar espaço e oxigênio para que se agregue a essa criação um projeto de sociedade, sustentado por uma análise criteriosa do mundo e do país, que não só revele a estrutura dos problemas como os acomode em uma agenda articulada. Em política, não é novo o que se proclama como tal, mas o que produz coisas novas a partir da transformação daquilo que existe. Será preciso propor soluções positivas a partir de uma análise concreta do existente. Sem isso, a Rede irá girar em círculos. 
Mas é ainda mais fácil falar mal daquilo que se propõe como novidade. De um modo ou de outro, querendo ou não, o novo incomoda o que está estabelecido e desafia hábitos mentais, rotinas e posições consolidadas. Difícil mesmo é submeter o novo à crítica ponderada e criteriosa, ver se o que se propõe algo de aproveitável, concedendo-lhe algum crédito de confiança para mostrar a que veio. Se isso não é feito, tudo se resume a bate-boca, a torcida contra ou a favor. E não se avança em direção nenhuma, ficando todos recolhidos ao mesmo ramerrame de sempre. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 23/02/2013, p. A2].