sexta-feira, 24 de abril de 2015

Incandescência e desorientação


Femme assise accoudée, Pablo Picasso, 1939, óleo sobre tela

Não foram somente o 15 de março, a demissão do ministro Cid Gomes, a queda vertiginosa dos índices de popularidade da Presidente e o documento-bomba da Secretaria da Comunicação Social, mas estes acontecimentos e o cruzamento diabólico entre eles deram o tom da chamada conjuntura política das últimas semanas. Chacoalharam o governo Dilma, aumentaram os desencontros em seu interior e lançaram uma perturbadora interrogação sobre o que serão seus próximos quatro anos.
O governo Dilma, porém, não acabou e seria um erro dar como favas contadas que não terá como se recuperar. Ficou mais difícil, mas não impossível.
Se o 15 de março e a queda de popularidade mostraram que a resistência social ao governo está se convertendo em fato político, os outros dois acontecimentos revelaram um governo com demasiados problemas internos, desorientado e carente de articulação.
Um governo sem rumo e sem unidade torna-se produtor de problemas, não de soluções. Ter um governo assim logo no início de um período governamental é algo que excita seus adversários e alimenta a crise. Mostra, por exemplo, que não há plano de voo e que não se pode saber quem apoia a Presidente e quem lhe faz oposição. Turvam-se as águas, aumenta a confusão. As próprias forças tidas como sustentáculo governamental – o PT e o PMDB – se dessolidarizam e ficam, cada uma a seu modo, fazendo somente o próprio jogo, sem sincronia com o Palácio do Planalto. Fazem contas para saber como evitar os respingos da crise. Passam a olhar para as eleições municipais de 2016, ao passo que a Presidência precisa olhar para o dia-a-dia e para 2018.
PT e PMDB podem até fazer juras recíprocas de amor, falar bem de Dilma em público, mas por trás do pano agem de forma defensiva, terminando por produzir desgastes e contrapontos. Não é somente Eduardo Cunha, este presidente da Câmara que opera sem pudor em favor dos próprios interesses, age corporativamente e consegue se fortalecer mesmo cercado de suspeitas, mostrando ser um animal político difícil de enfrentar. É ele, com certeza, mas também é o PMDB como um todo e parte importante do Congresso Nacional.
O caso Cid Gomes chamou atenção pela incandescência e pelo baixo nível. O ex-ministro fez seus cálculos. Não queimou munição à toa, num ímpeto de descontrole emocional. Quis sair de dedo em riste, como aquele que confrontou os que “achacam” a República. Jogou para uma parte da plateia, que não suporta os políticos atuais. O episódio foi péssimo tanto para o Planalto quanto para a imagem do Parlamento e deixou patente que falta graxa nas relações entre os poderes da República, que não há qualidade no ministério, que o Legislativo é hoje uma bomba que explode a intervalos regulares, sem que haja quem a desarme. Os pedaços do Congresso que desafiam a Presidência deitam e rolam na mesma proporção que os demais pedaços não se movimentam.
O documento da Secom – divulgado pelo O Estado de S. Paulo dias atrás – foi sintomático. Podemos deixar de lado suas impropriedades (a confusão entre governo e partido, por exemplo) e ficar somente com o que disse a respeito do “caos político” que estaria a ser fomentado pela inação governamental. Segundo o texto, “o governo e o PT passaram a só falar para si mesmos”. Foi um diagnóstico duro, incômodo, chega a ser surpreendente que tenha chegado ao grande público. O ministro responsável pelo texto se demitiu, mas o estrago se espalhou. O presidente do PT, Rui Falcão, fez crescer o vespeiro, ao propor que o governo corte a verba de publicidade destinada a veículos de comunicação que “apoiaram e convocaram” as manifestações.
O 15 de março ajudou, de forma ruidosa e polifônica, a descortinar a desconexão entre o Palácio e as ruas. Diante dele, o governo falhou duplamente. Errou ao responder por dois porta-vozes que não conseguiram expressar a gravidade do momento, como se ao governo fosse indiferente o protesto, e errou na análise do fato.
Nem ele, nem seus apoiadores, parecem entender o que está acontecendo com as ruas do País de 2013 para cá. Não decodificaram as vozes que se manifestaram ostensivamente contra a Presidente agora em 2015. Optaram por tentar deslegitimar a manifestação, convertendo as pessoas em massa de manobra da “elite branca” e da “mídia golpista”. Pior que isso, não conseguem explicar porque a “direita” mostra hoje tanto vigor, a ponto de fazer inveja à “esquerda”. Aceitam com incrível facilidade a tese de que os “ricos” têm “ódio” de Dilma e do PT. Estão congelados na mesmice adjetivada, repetindo que a parte (as faixas pedindo intervenção militar) explica o todo, que o 15 de março fez lembrar a Marcha com Deus pela Liberdade de 1964. Querem banalizar a multidão, mas só fazem irritá-la.
As ruas não se movem por utopias substantivas, não têm um programa com que lutar. São contra Dilma, políticos e partidos. Não são a favor de nada. Exprimem uma gigantesca insatisfação social com a política, processo em que se misturam indignação, ressentimentos e frustração.
Mas pau que bate em Chico também bate em Francisco. Não é só o governo que está à deriva, mas o País todo, o sistema político tal como em funcionamento. Hoje, o que prejudica o governo não beneficia a oposição a ele. Não há partidos, núcleos democráticos articuladores ou dirigentes políticos a lucrar com a crise, fato que faz o quadro ficar ainda pior. Quem fala pela oposição? O que faz ela, qual seu programa de ação? Se há bons nomes para liderar os que se opõem ao governo, por que não assumem o primeiro plano e se apresentam para “salvar” a República?
A resposta provável talvez nos ajude a relativizar a situação. Os lideres oposicionistas não se projetam pelas mesmas razões que fazem a Presidência sangrar a céu aberto: porque não dispõem de nexos com as correntes vivas da sociedade. É aí, nesta praga maior do capitalismo líquido e globalizado, que reside o maior desafio. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/03/2015, p. A2].

segunda-feira, 2 de março de 2015

O centenário de Artigas, arquiteto militante


Num momento em que aumenta a perplexidade diante das cidades modernas e, em São Paulo, cresce a discussão sobre habitação popular e mobilidade, vale a pena retornar aos arquitetos e urbanistas que marcaram época com seu trabalho e suas criações. João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) é certamente um deles.
Um dos mais importantes arquitetos brasileiros do século XX, Artigas merece atenção técnica, política e cultural. Em 2015, diversas iniciativas registrarão o centenário de seu nascimento, ajudando-nos a compreender o papel emblemático que desempenhou entre nós.
Paranaense de Curitiba, Artigas formou-se na Escola Politécnica da USP (1937) e radicou-se em São Paulo. Foi fundador (1948) e professor universitário da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, cujo prédio na Cidade Universitária ele mesmo projetaria. A partir de então, desempenhou papel-chave na prática e no ensino da arquitetura. No início dos anos 1960, coordenou a reestruturação curricular do curso, contribuindo para fazer com que a arquitetura brasileira passasse a considerar a generalidade dos problemas da criatividade espacial numa sociedade que se urbanizava aceleradamente, trazendo consigo a expansão imobiliária e o desafio da habitação popular. A reforma foi implementada em 1962 mas terminou por ser paulatinamente desfigurada. O golpe de 1964 caiu pesado sobre Artigas e a intelectualidade. Ele foi preso, enfrentou um inquérito policial-militar, exilou-se por um tempo no Uruguai. Voltou à FAU em 1965, mas pouco depois, em 1969, foi cassado e afastado compulsoriamente da USP, junto com vários outros colegas.
Artigas era comunista assumido, condição que naquela época servia de pretexto para tudo.
Somente reassumiu suas aulas na FAU em 1980, com a anistia. Ao retornar, o ambiente era outro, ele parecia um estranho no ninho, foi considerado sem um currículo acadêmico compatível com sua condição formal anterior. Por quatro anos, amargou a condição de auxiliar de ensino e a protelação injustificada de sua demanda pela abertura de um concurso que lhe devolvesse a cátedra que lhe tinha sido usurpada. O clima ideológico que se seguiu a 64 combinou-se com a escalada da burocratização nos ambientes acadêmicos, que teimaram em negar a Artigas o reconhecimento que já havia obtido ao longo de sua trajetória profissional e intelectual. Em junho de 1984, finalmente, realizou as provas do concurso para professor titular do Departamento de Projetos.
Artigas desenvolveu intenso trabalho arquitetônico entre 1940 e 1980. Entre as centenas de projetos e grandes obras, destacam-se o Estádio do Morumbi (1953), as estações rodoviárias de Londrina (PR, 1950) e Jaú (SP, 1970), o Anhembi Tênis Clube (1961), o Edifício Louveira no bairro de Higienópolis em São Paulo (1946), residências particulares, escolas e centros sindicais. Em 1968, juntamente com os arquitetos Paulo Mendes da Rocha e Fábio Penteado, concebeu e supervisionou a construção do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap), um dos marcos da política habitacional e das relações entre arquitetura e poder público. A Union Internationale des Architectes (UIA) lhe atribuiu os prêmios Jean Tschumi, 1972, por sua contribuição ao ensino de arquitetura, e Auguste Perret, 1985, pelas pesquisas de tecnologia aplicada à arquitetura.
Sua opera magna, o prédio da FAU (1961), se destaca como materialização arquitetônica de um conceito de escola. O prédio não tem portas e se espalha sob uma cobertura única, como que para indicar que o aprendizado é um processo aberto e criativo, onde todos ensinam e aprendem, uma praça pública, uma ágora, um espaço democrático, urbano e político, maior e mais importante do que o recinto fechado de uma sala de aula.


Artigas sempre se debateu com uma espécie de abismo que se abria entre a função do arquiteto e sua capacidade real de questionar a estrutura capitalista de desigualdades e tensões. Sua militância ardorosa e polêmica foi em boa medida o reflexo disto. Sentiu na pele as contradições e os choques técnicos, formais, políticos e ideológicos que emergiam de uma sociedade que se modernizava sem deixar de ser “subdesenvolvida”. Para ele, o arquiteto não era um prisioneiro de suas circunstâncias e podia se erguer mais alto, valendo-se da capacidade de “elaborar propostas de futuro em termos utópicos” e de “pôr a imaginação a serviço da felicidade humana”.
Apostou enfaticamente na dimensão civilizatória da industrialização, a partir da qual seria possível “fazer casa para todos” mediante, por exemplo, a disseminação de componentes pré-fabricados. Não se cansou de denunciar as misérias da especulação imobiliária e da dinâmica mercadológica que plasmava e elitizava tudo. Foi um doublé de técnico e artista humanista: apaixonado, indignado com as injustiças do mundo, zeloso do “direito de manter suas utopias”.
Um modernista recomposto em tom nacional-popular. Jamais abriu mão da concepção da arquitetura como “uma espécie de direito à beleza”, uma atividade que deveria ter uma poesia no centro: que dignifica a pessoa e o cidadão, trata todos como iguais, se desdobrando numa cidade pensada como polis.
Vilanova Artigas morreu angustiado com o legado dramático do aggionarmento capitalista e do golpe de 1964, que “nos entregaram um país onde os problemas sociais que o arquiteto teria de assimilar, em face, digamos, da cidade de São Paulo, são de tal ordem que apavoram qualquer cidadão”.
A arquitetura e o urbanismo tinham uma dura e nobre missão a cumprir, que ele definiu de maneira pungente: “A felicidade de um povo se mede pela beleza de sua cidade”. Ao nos lembrar disso agora, seu legado mostra-se com o viço da juventude. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/2/2015, p. A2].

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A cidade inimiga

461 anos depois de sua fundação, a cidade de São Paulo é uma das maiores metrópoles do mundo, mas não conseguiu se tornar mais amigável para seus moradores.
É uma terra de encontros e desencontros, sonhos e fantasias, onde o plural se impõe, as culturas se interpenetram e as experiências se multiplicam. Lócus de chegadas e partidas, de vidas que se cruzam e se prolongam no tempo, gerações após gerações, misturadas com existências fugazes, impermanências e deslocamentos incessantes. São Paulo é amada e odiada, vivida como objeto de desejo e temor, um circuito de anonimatos repleto de sucessos surpreendentes e celebridades instantâneas, que vão e vêm.
Tem tudo para dar certo, a começar da pujança econômica, do dinamismo cultural e da centralidade que ocupa no mapa político do país. É uma cidade continental, referência internacional. Mas segue à deriva, imune a tentativas de planejamento, submetida a caprichos políticos e gerenciais, a arranjos inconsistentes e à falta escandalosa de políticas públicas, como um gigante que todos temem e não se dispõem a enfrentar. Com o passar do tempo e a cristalização de suas lacunas, a cidade foi-se tornando inimiga de si mesma.
Tudo nela é difícil, caro e cansativo, a começar do lazer e do “bem viver”. O paulistano é um forte, vive num vácuo de solidariedade sustentável. Não faltam espaços para a convivência, mas eles são disputados palmo a palmo: primeiro com a especulação e os negócios, depois com o privatismo elitista e os automóveis, e por fim os cidadãos disputam-nos entre si. Filas, congestionamentos, esperas intermináveis, mau atendimento, amontoados, desgastes, custo. E o barulho permanente, sempre e em todos os lugares, a roubar o sossego, como se o silêncio estivesse proibido ou tivesse perdido “valor de mercado”.
Cidades costumam ser comparadas, determinismos históricos à parte. O preço de um ingresso de cinema, de uma refeição, de um bilhete de metrô, o tempo que se gasta em deslocamentos, a oferta cultural, o desenho urbano, a postura dos policiais, a linguagem dos moradores, o modo como lidam com o estrangeiro e o turista -- tudo serve para que se perceba a qualidade de vida em cidades diferentes.
São Paulo não sai bem neste tipo de fotografia. Ganha somente de cidades particularmente problemáticas. Perde de goleada quando comparada com municipalidades de ponta em termos de vida urbana: Paris, Berlim, Barcelona, Amsterdam, Nova Iorque, mas também Buenos Aires, Bogotá e Montevideo, bem consideradas as diferenças de escala.Há cidades mais amigáveis, outras menos. O que as distingue é o modo como a vida nelas transcorre. As mais amigáveis são as que se abrem para as comunidades e as pessoas, que as convidam para uma celebração coletiva na qual cada um possa circular, usufruir, contemplar, aprender e crescer, ser o que deseja ser, sem muitos custos adicionais. São cidades eminentemente pedestres, com calçadas seguras, automóveis submetidos ao fluxo e ao ritmo das pessoas e do transporte coletivo, que funciona sem muita reclamação. Cidades em que se pode circular sem medo, ainda que com a devida precaução. Cidades plurais, nas quais a tolerância, o reconhecimento da diversidade dos outros e a valorização do que há de comum nas experiências socioculturais andam de mãos dadas.
Cidades não nascem amigáveis: precisam lutar para ficarem assim. Podem se beneficiar de tradições comunitárias seculares, mas não se consolidam sem empenho coletivo e intervenção pública democrática, política cultural e educacional. Não são cidades sem problemas, desigualdades, tensões ou segregações. No mundo do risco, do capitalismo intensivo e do mal-estar em que se vive hoje isso, aliás, seria impossível. Elas também têm suas negatividades, seus defeitos de origem, suas periferias injustas e humilhantes. A diferença é que contam com uma corrente sanguínea de onde emanam vida cívica e parâmetros para o conjunto.
Já as cidades inimigas primam pela hostilidade e pelo alto custo existencial. Também elas não nascem assim: tornam-se. Por carência de políticas e movimentos comunitários sistemáticos, por estragos derivados de guerras atrozes, pela perda de oportunidades, pela falta de lideranças democráticas, pelos azares históricos, por excesso de mentalidade especulativa.
Cidades são filhas da História. Nas metrópoles atuais, o tempo livre encurtou, o lazer virou espetáculo, o mercado e o consumo ganharam força descomunal, tudo passou a ser agendado. Seria estranho se isto não se refletisse nas ruas. Os jovens têm menos autonomia, os encontros se dão mais em shoppings que nas praças, já não se brinca fora de casa, da escola ou de espaços controlados. A espontaneidade e a convivência aberta, geradoras de surpresas e encontros inesperados, praticamente desapareceram. Há conflitos disseminados e violência em excesso.
Por isto mesmo, todas as cidades passaram a ficar dependentes de políticas que promovam a vida urbana – urbe: civitas: polis – e a reinventem de modo continuado. Aquelas que sabem forjá-las e adotá-las, adquirem outra qualidade.
São Paulo não é seguramente um caso perdido. Há muito nela que aponta para o futuro e é disto que a cidade extrai boa parte de seu magnetismo. Mas uma cidade que olha para o futuro sem mapear adequadamente o presente em que pisa e sem valorizar de onde veio, arrisca-se a ter um futuro vazio, interposto como uma órtese às suas realidades urbanísticas e existenciais excruciantes.
Aos 461 anos de vida, São Paulo está carregada de trunfos e coisas positivas. O que falta nela são políticas continuadas, uma ideia urbana que sirva de matriz geradora e produza adesão popular, servindo assim de parâmetro para a conquista da cidade pela população. Não é somente um problema de bons ou maus governos. Mas sim de arte política superior: construção de uma cidade como pacto de convivência. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 24/01/2015, p. A2]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

De crias e feridas


Ilustração de Américo Gobbo

"Não perdi a eleição para um partido político, mas para uma organização criminosa que se instalou no seio de algumas empresas brasileiras, patrocinada por esse grupo político que aí está."
A declaração de Aécio Neves ao jornalista Roberto D’Ávila repercutiu amplamente, como seria de esperar, feita que foi para isto mesmo.
O senador pode ter tido motivos para dizer o que disse. Acha que se manifestou de acordo, ao lembrar que a expressão “organização criminosa” foi a mesma usada pela Polícia Federal para classificar a “quadrilha que atuou durante 12 anos na Petrobras”. Mas a frase forte, solta no ar, jogou mais lenha numa fogueira que queima há tempo sem produzir efeito positivo. Lançou um factoide, num momento em que o País clama por gestos emblemáticos.
É verdade que o aparelhamento da Petrobrás atingiu, nos últimos anos, a dimensão de um verdadeiro assalto, combinado por partidos políticos e empreendedores vários. Mas também é verdade, como disse o delator premiado Paulo Roberto Costa, que operações deste tipo têm sido rotineiras no País, não se limitando nem à Petrobrás, nem a um ou outro ciclo governamental. “Não se iludam. O que acontece na Petrobras acontece no Brasil inteiro. Em ferrovias, portos, aeroportos. Tudo.” O apoio político a diretores encarregados de fazer as intermediações corruptoras não teria faltado ao longo das últimas décadas. Foi assim que se viabilizou a sistemática formação de cartéis especializados em tirar dinheiro extra de atividades econômicas que dependem de recursos estatais.
Haveria, pois, que se qualificar a acusação, pô-la além da criminalização localizada. Virar a página não seria “inocentar” o PT ou aliviá-lo de responsabilidade, mas abrir o leque, expor as raízes profundas da corrupção e educar a cidadania.
Do outro lado da cerca, o PT tem motivos para reagir com irritação à declaração de Aécio. Afinal, ela mantem o partido numa posição incômoda, estigmatizando-o como se fosse o único a ter as mãos sujas. Judicializar a questão, porém, mediante a interpelação de Aécio na Justiça, não é caminho virtuoso. Responde a um factoide com outro factoide. Não tira o partido da vitrine, nem dá ao fato inconteste da “corrupção” qualquer tratamento consistente. O partido continua enfeitiçado pelo espelho mágico, crente de que não há na Terra ninguém menos corrupto do que ele. E faz questão de dizer que “não leva recado para casa".
A frase de Aécio veio em má hora, mas não configura um “golpe” ou a manutenção em aberto de um interminável “terceiro turno”, como disseram próceres petistas. Foi inadequada porque deu combustível para os que desejam acirrar ânimos, propõem intervenções militares e pedem impeachments. Não extravasou um “sentimento de indignação” que possa impulsionar uma oposição democrática consciente de seu papel.
A reação petista manteve o tom e engrossou o caldo. Faz tempo que o PT chama de golpista toda crítica ou acusação que lhe é endereçada. Fala que é tudo coisa feita para prejudicá-lo. Não se dá conta de que, ao agir assim, passa recibo aos acusadores e insufla seus próprios defensores. Enforca-se com a própria corda.
O País permanece em clima eleitoral. Os protagonistas das urnas de 2014 não retocaram a maquiagem. Continuam lambendo as próprias crias e as próprias feridas, a mastigar a mesma ração insossa que ofereceram aos eleitores. Nenhuma manobra diferente, nenhuma análise prospectiva, nenhum realinhamento de forças, nenhuma atitude de grandeza. O diálogo anunciado pela presidente ficou no terreno protocolar, as oposições sequer estão pagando para influenciar o que virá pela frente. Todos parecem encantados, à espera dos frutos que virão do escândalo da Petrobrás.
A manutenção sem novidades da polarização PT x PSDB não traz ganhos ou vantagens para ninguém, nem para os próprios contendores, muito menos para a população, o Estado democrático ou a agenda pública. O parafuso espanou e quanto mais petistas e tucanos insistirem em forçar a chave de fenda maior será o estrago.
O melhor para todos seria que o novo governo começasse com o pé direito. Quem sabe assim a política aprumasse e as coisas ficassem mais claras. Não é esta oposição – verborrágica, exagerada, midiática – que se espera do PSDB. Não será deste modo que o PT crescerá como força política capacitada para disputar espaço em um governo que somente em parte pode ser apresentado como seu e que viverá na turbulência.
O cenário lembra o abraço de dois afogados que, ao submergirem, levam consigo as energias e as expectativas de uma multidão de espectadores. No horizonte, não há boias nem salva-vidas.
Sem metáforas: faltam lideranças políticas, bons articuladores, estadistas, e na falta deles o País gira em círculos, cambaleante, aprisionado por suas limitações. Estamos carecendo de “ideais morais” que fixem uma imagem de cidadania que possa servir de parâmetro para a sociedade. O nível da “moralidade pública”, entendida em sentido rigoroso, não moralista, está baixo demais e os desafios do País são enormes. O ceticismo social e as paixões reprimidas que nascem desta discrepância não ajudam a ninguém. [Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno Aliás, 07/12/2014, p. E9]

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

No fio da navalha



Paul Klee, Red Balloon.1922

Há uma dissonância querendo crescer no Planalto. Ela dá o ar da graça mediante uma velha conhecida das esquerdas no mundo todo.
Pode ser assim apresentada: quanto mais complexas parecem ser as tarefas do governo reeleito, mais deveriam as forças que o apoiam pressioná-lo a ir para a esquerda, ou seja, a radicalizar suas posições, seu discurso, suas políticas e suas alianças. Se o raio de manobra diminuiu, a melhor saída seria “empoderar” o governo pela via do movimento social, libertando-o dos gargalos que lhe impõem o sistema político e a estrutura econômica.
Todos reconhecem, sem exceção, que ficou mais difícil a situação do governo, em que pese Dilma ter vencido as eleições. Há o megaevento da Petrobrás, cujos desdobramentos não se consegue prever, há o rombo nas contas públicas, a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, o crescimento econômico que não desponta e a inflação que persiste, a educação e a saúde a latejar, tudo isto combinado com a presença de uma oposição mais forte e a necessidade que o governo terá de formar nova maioria no Congresso sem se deixar levar pela chantagem excessiva do PMDB e de seus aliados.
O governo estará obrigado a dedicar tempo e atenção à política, negociar mais e melhor, dialogar de verdade, buscar novas fontes de legitimação e recuperar o tempo perdido, fazendo tudo isso com uma marca clara de inovação. Não poderá simplesmente reproduzir o toma-lá-dá-cá que tem prevalecido nas relações entre o Executivo e o Legislativo ou a rotina das políticas assistencialistas dos últimos anos, que deverão ser sustentadas e consolidadas sem que sejam tidas como a única marca registrada da ação governamental. Se o governo forçar a mão, poderá perder parte de seus apoios e comprar briga com o mercado; sua base parlamentar, aliás, que operou em regime de engorda crescente ano após ano, bateu no teto. Se mantiver tudo como está, poderá terminar engessado e frustrar os eleitores que viram na reeleição da presidente a possibilidade de “mudar mais”. Caminhará portanto no fio da navalha.
Um ministério “mais qualificado” é esperado tanto pelo mercado quanto pelo PT, mas por motivos distintos. Ao passo que os operadores econômicos querem uma equipe que estabilize e promova crescimento, o partido quer nomes que agreguem suas correntes e seus militantes, ajudando-os a permanecer no campo da mudança e do reformismo social. O País, por sua vez, espera que a presidente lhe apresente uma agenda para o futuro.
A “reforma política”, que está na ordem do dia, não poderá ser o principal recurso para que se enfrente o furacão que se anuncia. Corrupção casa com financiamento eleitoral, mas tem mil tentáculos. Governos podem funcionar seja qual for o sistema de voto. E uma reforma política, por mais bem sucedida que venha a ser, não produzirá efeitos imediatos nem sobre a dinâmica política, nem sobre a governabilidade, pouco servindo, portanto, para melhorar o desempenho governamental.
O momento indica que o PT deve se reposicionar. Sua direção nacional fala em “construir hegemonia na sociedade”. Se a expressão for bem traduzida, poderá significar que o partido dará maior atenção à elaboração de uma cultura que sirva de parâmetro para a educação política dos brasileiros, podendo até mesmo implicar maior questionamento das ações governamentais. Isto jogaria o PT mais no longo que no curto prazo, mais na guerra de posição que na guerra de movimento. O partido, porém, deseja atuar, “em conjunto com partidos de esquerda”, para desencadear um amplo processo de mobilização social.
Como disse o governador Tarso Genro (RS) – defensor de uma reestruturação profunda do PT –, o partido “deve deixar de ser mero apoiador-espectador, excessivamente preocupado com cargos e espaços na máquina pública, para se tornar um partido apoiador-proponente, disputando os rumos do Governo”. Sua proposta põe em xeque o sistema de alianças em vigor, o que significaria aumentar a distância do PMDB: “O governo da presidenta Dilma deve não só ser defendido da direita tradicional dos tucanos, mas também da direita que integra sua própria base parlamentar”. Cabe ao PT ser “o núcleo de sustentação mais coerente das medidas progressistas e democráticas do segundo governo Dilma”.
Uma “frente de esquerda” voltou assim a frequentar os discursos petistas.
O contraponto tem sido feito pelo ministro Gilberto Carvalho, um dos mais próximos do ex-presidente Lula. Para ele, o momento é de valorizar o diálogo tanto para “reunificar o país” quanto para sanar deficiências que se acumularam. Imprimir outro curso ao governo, corrigir falhas e erros, mas sem implodir a base parlamentar duramente construída, mantendo próximos e unidos todos os partidos que apoiam o governo, sem vetos.
O PT da “frente de esquerda” se distingue do PT do “diálogo” à direita, mas ambos se compõem: o governo governaria com a aliança à direita e o partido o pressionaria pela esquerda, ativando os movimentos sociais, numa espécie de “duplo poder”, o do governo e o do partido.
Diante disso, três questões ficam em aberto.
A primeira é se o diagnóstico acerta ao constatar a existência de forças e movimentos de esquerda para integrar uma frente como a pretendida. Mesmo que existam, elas podem não ter disposição para atuar de modo unitário.
A segunda é se a união destas correntes encontraria respaldo efetivo no PT e ajudaria o governo.
E a terceira tem a ver com o que a “frente de esquerda” fará com os democratas liberais e a esquerda democrática não petista. Se empurrá-los em bloco para a “direita”, estará praticando uma infâmia e turbinando as oposições. O mais razoável seria agregá-los ao “novo ciclo reformista” que se deseja inaugurar em 2015. Para isto, porém, a “frente de esquerda” precisaria ser convertida numa “frente democrática”, proposta para a qual a cultura petista majoritária não se mostra suficientemente preparada.[Publicado em O Estado de S. Paulo, 22/11/2014, p. A2]

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Leandro Konder, meu amigo desenhista


Desenho de Leandro Konder, RJ, junho 1984

Como aconteceu com outros amigos, conheci Leandro Konder primeiro no papel e depois ao vivo.
Estudante, lia seus livros e me maravilhava com o fato de que eles pareciam ter sido escritos “para mim”, quer dizer, podiam ser compreendidos até por quem estava em formação ou sabia muito pouco, como era meu caso. Por volta de 1972, me interessei muito pelo marxismo de Georg Lukács, e Leandro era seu maior intérprete no Brasil. Lembro-me bem do entusiasmo com que li Realismo e antirrealismo na literatura brasileira (1974), volume coletivo com ensaios assinados por intelectuais de quem alguns anos depois eu me tornaria amigo. Leandro era o principal deles.
Mais tarde, no segundo semestre de 1976, quando participei da direção da revista Temas de Ciências Humanas, que tinha nítida influência marxista (Lukacs, Gramsci e PCI), procurei entrar em contato com Leandro, que na época morava entre Bonn e Paris. Pedi ajuda a Nelson Werneck Sodré e em pouco tempo estava escrevendo para Leandro. Trocamos muitas cartas. As que me chegavam, eram invariavelmente preciosas, escritas quase sempre à máquina e em papel de seda, um A4 cortado ao meio. Houve também alguns bilhetes escritos à mão com letra miúda e harmoniosa. Falávamos de tudo um pouco, mas sobretudo de projetos editoriais, marxismo, eurocomunismo e política brasileira.
Somente fui conhecer Leandro no início de 1979, quando ele voltou ao Brasil. Depois de tantas cartas, a expectativa era tamanha que ao encontrá-lo parecia que o conhecia há décadas.
De lá para frente, tivemos muitos encontros e participamos de inúmeras reuniões políticas.
Leandro tinha um mantra pessoal: era preciso não se levar jamais exageradamente a sério. Ou seja, rir da própria desgraça, não perder a capacidade de perceber o que há de patético e inesperado nas atitudes humanas, a natureza contraditória das pessoas. Havia nele, em doses fartas, um delicioso senso de humor que suavizava a firmeza da crítica e humanizava a exposição, recheando-as de detalhes e boutades que funcionavam como travas de sustentação da narrativa e sempre revelavam algo mais do personagem ou do assunto em foco. A verve e a leveza de Leandro certamente o ajudaram a deixar claro e demonstrar que um marxista não é necessariamente um chato. “Importante mesmo - reconheceu certa vez - é ser intelectual marxista e preservar o senso de humor”.
Tendo participado, com ele, de várias reuniões políticas, adorava vê-lo desenhar, fazer caricaturas e cartuns enquanto a discussão pegava fogo. Invariavelmente retratava os próprios amigos presentes ou personagens mencionados nas reuniões. Os desenhos funcionavam como um balãozinho de oxigênio: modulavam a chatice das discussões e nos traziam de volta à dimensão cômica da vida. Em suma, à vida.
Ganhei alguns daqueles desenhos de recordação. Perdi quase todos, infelizmente. Um deles consegui guardar, trancado a sete chaves. Feito em 1984, ilustra esta postagem.
Leo escreveu a quarta capa do meu livro Um Estado para a sociedade civil, em 2004. Foi um acontecimento para mim.
Escrevi sobre o marxismo de Leo no blog que mantenho no Estadão (o artigo pode ser encontrado aqui). 
Agora que ele morreu, no último dia 12 de novembro, aos 78 anos, deixando um enorme buraco em todos os que o conheciam, penso que posso homenageá-lo reproduzindo aqui a íntegra daquele pequeno texto, que mostra Leandro Konder por inteiro: um intelectual gentil e generoso, amigo de seus amigos.
“A política se faz com as mãos mergulhadas no sangue e na merda”, dizia brutalmente o velho Sartre. A reflexão sobre a política, entretanto, na medida em que pretende contribuir para a construção do conhecimento de uma atividade humana peculiar, deve procurar evitar a intimidade e o convívio duradouro com porcarias. Deve pensar grande.
Meu amigo Marco Aurélio Nogueira, leitor atento de Gramsci e de Bobbio, aberto tanto a sugestões de Giddens, de Bauman e de Beck quanto a ideias de Freud e de Habermas, vem repensando há vários anos os complexos problemas da relação entre o Estado e a sociedade. O Estado, atualmente, está em crise: tem desafetos à direita e à esquerda. Marco Aurélio, porém, adverte contra os riscos de um “Estado sem sociedade civil” e também contra os riscos de uma “sociedade civil sem Estado”.
Nas condições em que nos encontramos, arrastados num processo de mundialização que não corresponde às nossas aspirações, temos, entretanto, a chance de aproveitar importantíssimos avanços técnico-científicos, de promover uma desprovincianização.
Por tudo isso, mesmo em plena globalização neoliberal, Marco Aurélio Nogueira recusa a sedução de uma perspectiva catastrofista ou apocalíptica e busca delinear um reformismo democrático radical, para que possamos vir a ter acesso a formas de vida mais justas e mais inteligentes.  Leandro Konder