segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A hipotese socialdemocrática


Ilustração de Américo Gobbo

Muitas pessoas como eu – ativistas sociais, intelectuais, profissionais, cidadãos que se enxergam como integrantes, por ideias, ideais e conduta, da esquerda democrática –, que nunca de empolgaram com a dicotomia PT vs. PSDB, devem estar hoje fazendo a mesma reflexão: a política apodreceu e precisamos começar a reconstruí-la e a requalificá-la pela raiz, ao mesmo tempo em que uma importante disputa política e eleitoral parece grávida de futuro.
Não se trata somente de eleições, candidatos e debates, mas de tudo: há falcatruas e corrupção demais, o discurso político é indigente, os partidos estão exauridos, já não há mais regras claras e limites éticos para a competição política, candidatos se anunciam em nome de feitos do passado e sem dizer à população o que pretendem de fato fazer, promessas e demagogia saem de todas as bocas com enorme facilidade, o marketing modela e pasteuriza tudo, os políticos parecem retidos numa órbita estranha à Terra... É um cenário desolador. Para contrabalançá-lo, há as pessoas, os cidadãos, a cada dia mais bem informados e dinâmicos, postos na vida como fatores de pressão e de exigência constante de inovação.
Muitos destes cidadãos, eu incluído, pensamos numa terceira via como meio de injetar seiva nova no processo e despolarizar a política mediante um movimento de superação que ultrapasse o monopólio exercido por PT e PSDB. Não deu certo, por vários motivos. A opção, agora, é ajudar a que um destes dois polos se desfaça e agir para que o polo vencedor se recomponha e altere seu perfil, tendo a grandeza e a visão estratégica de se despolarizar a si mesmo, articular uma aliança de novo tipo e agregar novas forças e novas ideias.
O PSDB reúne mais chances para ser este polo vencedor hoje, concretamente. Não tanto por méritos seus, mas muito por demérito do polo adversário. Aécio Neves e os peessedebistas têm quadros e ideias, mas também integram o sistema e o mesmo ambiente de deterioração e exaustão política. Tiveram a sorte de frequentá-lo como oposição e de estarem fora do governo federal há 12 anos, fato que os preservaram de certos custos operacionais pesados, que caíram todos nas costas do PT e de suas administrações. E o PT, por sua vez, não soube lidar bem com isto: se descaracterizou como partido de esquerda, saiu das ruas, deixou-se levar pela lógica do acúmulo incessante de poder, em nome da qual fez alianças demais com o diabo e perdeu a cultura política que havia acumulado em sua primeira e heroica fase de vida.
Hoje, pelos caminhos tortuosos e imprevisíveis da política, a socialdemocracia à brasileira depende da capacidade que tiver o PSDB de sair de si, sacudir seus andrajos e agregar, em torno de seu vitorioso candidato no primeiro turno, as forças, ideias e pessoas que poderão ajudá-lo a recuperar a intenção socialdemocrata original, que esmaeceu e perdeu a cor ao longo do tempo.
A socialdemocracia que se pode ter hoje, no Brasil, passa pelo PSDB, mas não avançará nem ganhará corpo se não for além dele: se ele não se abrir e não ampliar seu repertório. Se uma articulação socialdemocrática se afirmar no curtíssimo prazo, terá boas chances de vencer as eleições. Se somente o fizer no médio prazo, estará tinindo nas eleições de 2018.
Digo sem dificuldade: este é um prognóstico analítico, uma tentativa de análise prospectiva de conjuntura. Mas é também um desejo, uma torcida. Feita em nome da convicção de que a esquerda democrática pode ser uma efetiva força de transformação social no Brasil desde que se recrie e se unifique.
Recriar, aqui, não significa de modo algum começar do zero ou fazer terra arrasada daquilo que existe. Ao contrário. O reformismo democrático tem história e tradições entre nós, que são referências seja no que têm de capacidade de identificação, seja no que têm de capilarização, ou seja, de difusão e enraizamento sociocultural. Os partidos que hoje se coligam – o PSDB, o PSB, o PPS, o PV – têm sido, todos eles, protagonistas desta história. Dela faz parte, também, e em lugar de destaque, o próprio PT, o PDT e o trabalhismo histórico, o comunismo, a esquerda católica, o liberalsocialismo, além de outros inúmeros atores não propriamente partidários: o universo da sociedade civil.
Partidos importantes, mas pequenos, como o PSB, o PPS e o PV, ou correntes históricas como o trabalhismo e o comunismo, que estão hoje dispersos e sem identidade clara, ganham força para viabilizar suas propostas quando se articulam entre si e operam como cunhas progressistas. Em vez de se combaterem uns aos outros, buscam o que os aproxima. Largam pela estrada alguns de seus vícios e ideias fixas, abrindo-se para uma agenda mais atualizada. Aumentam assim sua contribuição ao reformismo e à democracia.
Partidos de centro-esquerda, como o PSDB, ganham em coerência e em pujança reformadora quando se abrem para alianças substantivas com partidos e tradições que estão mais à sua esquerda e que podem auxiliá-lo a evitar acomodações improdutivas.  União, aproximações e entendimentos, aqui, se feitos em nome de itens programáticos densos e não de uma somatória de interesses imediatos, têm a vantagem de facilitar a formação de articulações unitárias que forjem governos progressistas. No caso concreto, podem auxiliar o PSDB a extrair, de dentro de si mesmo, o melhor da ideia socialdemocrática que nele repousa.
O mesmo pode ser dito do PT e dos pequenos partidos que estão à sua esquerda e o orbitam. Articulações entre eles ajudariam sobremaneira a dar melhor perfil e poder de fogo aos que se sentem como integrando uma corrente política “não-reformista”.
Em suma, parece ser razoável afirmar que a recriação da ideia socialdemocrática ganhará sentido e musculatura se souber se abrir, com generosidade e inteligência estratégica, para um conjunto de forças, ideias e atores que nem sempre atuam em conjunto, ou de modo articulado.
Há um quê de wishfull thinking nesta argumentação. Mas o que seria da política sem um toque de sonho, desejo e fantasia, ou sem utopias?
A construção de alternativas políticas é sempre um conjunto de operações complicadas. Precisa passar por disponibilidades pessoais e coletivas, por estoques de ideias, por recursos e ferramentas de atuação política. Hoje, tal construção é um desafio. Em boa medida, porque a sociedade atual tem demandas plurais e crescentes, e elas nem sempre se acomodam em nichos políticos claros. Isto explica o fato de os partidos políticos terem se tornado tão genéricos e enfrentarem tantas dificuldades de afirmação. E sem partidos bem posicionados, qualquer operação de unidade política torna-se problemática.
A principal voz da política está agora ainda mais claramente posta na sociedade civil. Os cidadãos precisam se organizar mais para aparecerem como protagonistas coletivos de proposições políticas. Este é o norte. Não dispensa os partidos, muito ao contrário. Funciona, na verdade, como um vetor de reorganização partidária, algo que retira os partidos do terreno exclusivo do sistema político e os faz retornarem ao chão social de onde nasceram e encontram sua razão de ser. A época exige, pois, que se recupere a política como atividade coletiva. A sociedade civil (onde também moram os partidos, diga-se de passagem) pode ser o fator que fará a reforma da política e pressionará para que os que nos representam honrem seus mandatos. Para isto, ela precisa ser mais do que “terceiro setor”, ou seja, pôr-se claramente no terreno do Estado.

7 comentários:

isabel carballo disse...

é Marco, não esta fácil!!!! sem duvida o desejo de mudança MARCA a escolha eleitoral. Mas mudar de partido no poder não é suficiente! E a sociedade civil marcando o passo, vai demorar. Ate que o tempo mostre os acertos e erros de quem seja escolhidp, as ruas estarão vacias de opinião.
abraço Isabel

marco a nogueira disse...

querida Isabel, muito obrigado pelo comentário. Tentei falar exatamente isso no texto: não basta mudar o partido no poder, é preciso fazer com quem os partidos se abram para outras forças e para a sociedade. Somente assim ele poderá ser renovador e fazer algo de positivo. E somente com uma perspectiva deste tipo é que as ruas poderão deixar de ser vazias de opinião. O desejo de mudança ajuda a que se tenha uma opção eleitoral, mas não é suficiente para que esta opção produza resultados. Acho que estamos falando a mesma coisa, talvez com ênfases diferentes. Abraço

Remy JF disse...

Querido Marco.
Nas condições capitalistas, sejam as estruturais ou as conjunturais, em que os interesses substantivos, sem querer ser reducionista, se contrapõem mais como dualidades que pluralidades, a busca de uma terceira via na representação política tem se revelado uma quimera (ex. recentes, Ross Perot USA 1992 e 1996; A. Giddins, via Blair UK anos 90 e 2000, Marina, BR 2014,...). O que me impressiona é tua alta lucidez analítica e enorme capacidade argumentativa serem como que anuladas diante de uma realidade política que passa, segundo vejo, bem longe de tuas projeções, expectativas e wishful thinking. Apostar numa renovação democrática, socialdemocrata, vá lá, e progressista via PSDB, está mais para um oximoro do que para uma virtualidade política plausível.
Saudações fraternas e democráticas,
Remy JF

Remy JF disse...

Querido Marco.
Nas condições capitalistas, sejam as estruturais ou as conjunturais, em que os interesses substantivos, sem querer ser reducionista, se contrapõem mais como dualidades que pluralidades, a busca de uma terceira via na representação política tem se revelado uma quimera (ex. recentes, Ross Perot USA 1992 e 1996; A. Giddins, via Blair UK anos 90 e 2000, Marina, BR 2014,...). O que me impressiona é tua alta lucidez analítica e enorme capacidade argumentativa serem como que anuladas diante de uma realidade política que passa, segundo vejo, bem longe de tuas projeções, expectativas e wishful thinking. Apostar numa renovação democrática, socialdemocrata, vá lá, e progressista via PSDB, está mais para um oximoro do que para uma virtualidade política plausível.
Saudações fraternas e democráticas,
Remy JF

marco a nogueira disse...

Obrigado pelo comentário, Remy. Há muita divergência nele em relação ao texto, o que é uma indicação de que, em princípio teremos muito material para debater. Como vc não apresentou argumentos para sustentar a tua tese de que a realidade política atual "passa bem longe" das minhas projeções, fico sem ter como contra-argumentar. Toda a minha "aposta" de renovação democrática sempre esteve apoiada na ideia de que as vertentes socialdemocráticas precisam se articular melhor no Brasil. O texto reitera isso, agregando a esta "aposta" a expectativa de que esta articulação está se dando, sem clara intenção dos atores, em torno do PSDB, dada a inoperância unitária do PT. O argumento é este, e não o que vc enfatizou, qual seja, o de que a renovação democrática (deixo só assim, pois vc parece não gostar nem de socialdemocrática, nem de progressista) será feita pelo PSDB. A "virtualidade política plausivel" está, para nossa sorte, sendo alcançada independentemente da vontade dos partidos. Felizmente, eu acrescentaria. Abraço

Mário Sérgio Pini disse...

Caríssimo Marco Aurélio, mais um texto oportuno, brilhante !!! Sempre que posso acompanho seus trabalhos pelo ESTADÃO. O nosso caro Reginaldo Forti me chamou a atenção para o seu blog. Fico gratificado com a "hipótese socialdemocrata", porque, sendo possível uma divisão, entre o esforço intelectual, para a descrição, o estudo ou a crítica de uma determinada problemática social, e a formulação de alternativas ou soluções, a "hipótese" poderia figurar na linha dos trabalhos que se preocupam em fornecer os fundamentos incentivadores de novas propostas, do próprio futuro que sonhamos. Como sou um otimista incorrigível, a "hipótese" invade as minhas perspectivas, por apostar nas conquistas de nossa Sociedade, como um "taylor made". Muito bom, absolutamente oportuno. Abração. Mário S. Pini

marco a nogueira disse...

Carissimo Mario, vindo de vc, o comentário só pode me deixar muito orgulhoso e feliz. Estamos em sintonia no que se refere a otimismo progressista. O País tem ótimas condições de dar um salto à frente no próximo ciclo. Grande abraço