sexta-feira, 12 de julho de 2013

Protestos para o resto de nossas vidas


Os protestos de junho pediram reconhecimento e políticas públicas; os de julho falaram pelo trabalho. Em junho, escutaram-se os gemidos de um mundo que desponta; em julho, o grito rouco e cansado de um mundo que resiste para não acabar.

Não é justo, nem muito menos correto, dizer que o Dia Nacional de Lutas, realizado ontem, foi um fracasso quando comparado com as manifestações de junho. Dizer que os sindicalistas levaram 100 mil às ruas ao passo que os manifestantes que protestaram em junho chegaram à casa dos milhões, é constatar o óbvio: a explosão inesperada de uma bomba reprimida sempre causará mais efeito do que o estampido de outra, já conhecida.
Se junho foi de massas, julho foi de classe, o que faz toda a diferença. Os protestos juninos foram polissêmicos e horizontas; o de ontem foi uníssono, ainda que nem tanto. Os de junho pediram reconhecimento, direitos, participação e políticas públicas; as vozes sindicais falaram pelo trabalho. Em junho, houve festa, militância cívica, política de novo tipo e pouca organização. O Dia Nacional foi organizado, e à moda antiga. O som de junho foi da opinião e do sentimento; em julho ouviu-se a voz do interesse.
Em junho, escutaram-se os gemidos de um mundo que desponta; em julho, o grito rouco e cansado de um mundo que resiste para não acabar.
Faz pouco sentido, portanto, a declaração da Mayara, coordenadora e porta-voz do Movimento Passe Livre, que acredita – arrogante e antipaticamente – que “o povo não precisa de nenhuma cartilha, de ninguém falando alto no microfone para dizer o que ele tem de fazer ou não”. Só daria para aceitar a declaração se se destacasse ao extremo a juventude, e por extensão, a impetuosidade e a petulância, daquela liderança. Mas isso, a juventude, não é defeito em política, mas virtude. Desde que, claro, turbinada pela inteligência.
A garota do MPL – que é uma liderança, mesmo que não queira ou diga não querer ser – pode ter sido revanchista e desejado se vingar dos sindicalistas que, em junho – de forma igualmente arrogante –, debocharam dos manifestantes que foram às ruas. Se foi isso, ela perdeu pontos.
O bate-boca entre “jovens horizontais” e “sindicalistas verticais” somente revela as dificuldades que ambos têm de encontrar um foco comum que encaminhe a voz das ruas para agosto, para 2014 e para o resto de nossas vidas. Quer dizer, para o futuro.
No fundo, tudo é política. E por isso mesmo deve ser tratado com razão crítica e não com o fígado ou a tireoide. Protestos horizontais e verticais são formas democráticas de participação e quanto mais confluírem e se articularem, melhor para todos. Afinal, seus efeitos e virtudes não estão pré-determinados, não são propriedade de ninguém e aparecerão no processo, conforme escolhas, circunstâncias, cálculos e decisões.

4 comentários:

Anônimo disse...

Belo artigo, Professor Marco Aurélio!
Foi muito bom ter cursado suas disciplinas na UNESP, aprendi demais.
Profa. Janice

Redator-chefe disse...

Oi, Janice,

muito obrigado pela referência. Quando vc cursou disciplinas comigo na Unesp? Em Araraquara ou São Paulo?
Espero que fiquemos em contato. Abraço

Janice disse...

Olá Professor,
Cursei em Araraquara, no final da década de 80. Fui docente da UFAL e lá cheguei a lecionar disciplinas de Ciência Política e sempre me recordava de suas aulas, das aulas da Profa. Maria Teresa e do Prof. José Ênio, também (soube há pouco tempo que ele faleceu. Fiquei bem triste. Excelente professor).
Agora, sou docente da UFSCar, Campus de Araras.
Agora que estou de volta ao SE e descobri seu blog, vamos nos falando. Inseri artigos seus na bibliografia da ementa de uma das raras disciplinas de Humanas do curso de Engenharia Agronômica e está sendo gratificante "abrir os olhos" desses graduandos. Abraço

Redator-chefe disse...

Legal isso, Janice. Fiquemos sim em contato. Se vc for usuária, tenho também um perfil no Facebook. Imagino como é dar aulas de Humanas para Engenharia Agronômica. Mas sempre há de aparecer brechas para diversificar a agenda da moçada, e tenho certeza de que vc está conseguindo descobri-las. Abraço