quarta-feira, 17 de julho de 2013

O pacto pela Saúde como oportunidade



Pactos exigem generosidade e disposição para o diálogo. Os inflexíveis e os intolerantes, os que não cedem em seus privilégios ou no modo de pensar, os que não aceitem sair da zona de conforto, os que acham que crítica é má-vontade  –esses se auto-excluem de qualquer pacto, estejam eles no governo ou entre os médicos.

Aproveitei que ontem os médicos fizeram uma passeata de protesto em São Paulo e não me deixaram chegar cedo em casa para procurar alguns amigos e conversar sobre as propostas do governo para melhorar a saúde. São amigos médicos: dois sanitaristas e um cardiologista. Foi uma conversa de bar. O cardiologista estava na passeata e nos encontramos no Largo de S. Francisco, onde terminou o protesto da categoria e que fica ao lado do IPPRI, onde eu estava. Os sanitaristas estavam por lá e foi fácil nos reunirmos.
O papo me fez muito bem. Sai dela com mais elementos para pensar no assunto, ainda que continue confuso.
Acho que as propostas do governo têm mais virtudes que defeitos. Pecam por uma grave falha de procedimento e de comunicação, o que vem facilitando sua rejeição pelos médicos. Os que são contra estão traduzindo a proposta na chave imposição/obrigatoriedade. Fecham-se para o lado generoso das medidas, que visam disseminar o atendimento médico básico e fazer com que mais profissionais cheguem aos rincões do país. O governo, por sua vez, erra por não ter preparado o ambiente e por estar enfiando pela goela dos médicos algumas coisas que precisam ser bem explicadas. E que não podem ser nem explicadas e nem compreendidas em ritmo de passionalidade intensiva ou de busca da legitimidade perdida. Ambas essas atitudes menosprezam a gravidade da situação.
Não é toda hora que um governo é obrigado a dar prioridade para uma política estratégica como a Saúde. E se o governo atual está fazendo isso, o certo seria pegar carona na sua proposta e fazer de fato um pacto sanitário no país. Por favor, estou falando em “pegar carona”, não em aceitar o que o governo propõe. Trata-se de aproveitar a deixa para reformular as estruturas mentais que prevalecem entre os médicos, alterar procedimentos, mudar as regras do sistema, fazer com que a melhore a qualidade da gestão da saúde.
Tipo assim: juntar representantes de todos os interesses num amplo fórum de discussão para, no curto prazo, desenhar uma política de ataque emergencial ao problema.
A saúde da população merece. Um fórum é factível.
A substância da nova política que poderia nascer de um pacto nacional implica que os médicos admitam se sacrificar. É errado, feio, ética e politicamente desastroso que eles rejeitem o sacrifício – que, diga-se de passagem, nem será tão grande assim, pois receberão uma bolsa para trabalhar nos rincões e sairão de lá mais ricos em experiência e em formação humanista. Ao rejeitarem o sacrifício, agem como elitistas, imagem sedimentada na população e que eles parecem não fazer questão de desmentir. Os argumentos que têm sido apresentados para fuzilarem as propostas são ruins.  Não estão sendo bem formulados e surgem, aos borbotões, sem muita racionalidade.
É falsa, por exemplo, a tese de que médicos só podem funcionar bem se houver infraestrutura adequada. Na maior parte do país não há infraestrutura médico-hospitalar, mas não é por isso que se deixará a população sem atendimento, certo? A presença do médico num rincão qualquer é valiosa e o que se pode esperar dele é que seja o construtor da infraestrutura. Os cursos de medicina precisam pensar nisso, escapar da lógica atual do atendimento, baseada em exames e medicamentos. Estamos muito necessitados de uma medicina pé no chão. Essa é a perspectiva dos sanitaristas, que estão sempre na vanguarda da saúde pública e vêm muito mais longe, porque são treinados para isso e porque têm especial sensibilidade. Essa também é, ou foi, a filosofia do SUS.
O governo federal é o grande ator das políticas públicas postas em prática pelo Estado brasileiro. Tem poder para dar e vender. Tem poder de agenda e poder de atração. Tem recursos financeiros, quadros técnicos, capacidade de contratar gente e de mexer em fatores estruturais.
Mas não é porque tem todo esse poder que o governo pode tudo. Ele não pode, por exemplo, atropelar os interesses e oprimi-los com decisões despejadas de cima para baixo, porque isso não é democrático e porque não funciona. Sua agenda não pode ser eleitoral ou visar somente a produzir legitimidade. O governo deve ser um agente do confronto de ideias, um promotor de novas plataformas éticas. É confrontando ideias velhas ou equivocadas que ele pode fazer com que se esclareçam as coisas. E, assim, que se formem consensos para que se reforme a saúde, por exemplo.
Um pacto exige generosidade e disposição para o diálogo. Os inflexíveis e os intolerantes, os que não abrem mão de privilégios ou não cedem nada no modo de pensar, os que não se dispõem a sair da zona de conforto, os que acham que toda crítica é má-vontade ou agitação – bem, esses se auto-excluem de qualquer pacto, estejam eles no governo ou entre os médicos.
É uma boa hora para pensar o futuro e construir as bases de um efetivo pacto pela saúde. Os interessados – médicos, faculdades de medicina, estudantes e governo, profissionais da saúde – devem ter maturidade, espírito de sacrifício e disposição de luta para que não se perca uma oportunidade que caiu do céu. Que se atirem nessa direção, sem ideias preconcebidas e sem intransigência.

6 comentários:

Janice disse...

Caro Prof. Marco Aurélio, alguns pontos de seu artigo me provocaram (e muito). Explico. Vivi alguns anos nos chamados rincões do país: primeiramente, por mais de 4 anos, numa das portas de entrada para Pantanal, num lugar chamado Barão de Melgaço, localizado no sub-pantanal do Itiquira- Cuiabá-São Lourenço, e após, 5 anos entre o agreste e o sertão nordestino (alagoano, sergipano e baiano). Dessa forma, para além de ser pesquisadora ou pós-doutora em Medicina Preventiva, na área de atenção básica à saúde, fui também usuária do SUS, nesses confins das entranhas do país. Posso afirmar (tenho dezenas de histórias, para deixar qualquer médico, "de gabinete" ou médicos pesquisadores das grandes universidades do país, que saem do conforto de suas universidades, para passar uns dias ou semanas, nos rincões e depois retornarem cheios de ideias e soluções, muitas até românticas, sobre como um médico deve agir, fugindo, assim, do rótulo de elitista. Falar do "pacto" é uma coisa, colocá-lo em prática é outra. Creio que todos nós devamos, no mínimo, ficar bem preocupados e participarmos e acompanharmos bem de perto o que foi "jogado" e o que se proporá daqui para frente.
Meu caro, por experiência própria, como paciente e pesquisadora, sei que não é falsa a tese de que médicos só podem funcionar (excluo a palavra bem)se houver infraestrutura adequada, sei que não é por isso que se deixará de atender a população. Contudo, qual a qualidade desse atendimento? Vi em Santana do Ipanema, sertão alagoano, no Hospital Clodoaldo Rodrigues - diga-se de passagem que foi inaugurado e reinaugurado, de acordo com os interesses eleitoreiros, levando 5 anos para entrar em funcionamento - , pessoas sendo "atendidas" (sim, atendidas), mas saindo de lá sem diagnóstico, sem um tratamento inicial/emergencial se quer. Sim, porque sem diagnóstico quem será louco de medicar, internar, entre outros procedimentos. Pergunto: é isso que queremos? Pessoas sendo somente atendidas? Tive colegas de trabalho sendo atendidos em emergência (alguns até eu que levei)e ficou nisso, porque os médicos não podiam fazer um diagnóstico mais preciso sem um aparelho de Raio X ou um exame de sangue, para ver a quantidade de enzimas no mesmo, para saber se a pessoa infartou ou não. Em outra ocasião e local, assisti no sertão baiano, de camarote, um monitor ser retirado de um paciente e ligado em outro emergencial, que também necessitava de monitoramento. Continuo ....

Janice disse...

Continuando ...
E acompanhei médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem se desdobrarem - podemos dizer que esses sim são mais ricos em experiência e formação humanística - o problema é que todos estão sujeitos a sofrerem processos na justiça (um dos sacrifícios! Pobres profissionais da saúde, ainda mais dos rincões,também conhecidos como médicos do interior, tão cheios de espírito de luta ...). O lado bonito, generoso,da coisa toda, começa a ficar com cara do "coisa ruim", como dizem no sertão - qualquer médico sanitarista, que atua tanto na região urbana como na rural, pois os rincões também estão nas grandes capitais ou em suas grandes regiões. Existe um outro problema: os médicos com mal formação, que não sabem diferenciar um apêndice supurado de uma cólica intestinal. Vi o caso de uma criança infestada por piolhos. A menina tinha tantas picadas na cabeça, que começou a pele começou a reagir, formando inchaços/calombos. O médico pediu um Raio X da cabeça da criança, porém, aparelho de Raio X somente a muitos quilômetros dali. Até eu que não sou médica percebi que se tratava de reação alérgica.
Enfim,creio que a reação dos médicos e entidades, não se relaciona a falta de generosidade e de disposição para o diálogo. Mas, vamos dialogar lá nos rincões (sem ar condicionado, sem cadeiras confortáveis, sem hotéis à beira mar ou hotéis fazenda, com escassez de água, sem saneamento)e se alguém passar mal, aviso, na maioria dos confins não há heliporto ou aeroporto, para levar políticos, gestores da saúde, renomados pesquisadores e sanitaristas, para o melhor hospital paulista - como muitos estão acostumados. Se tiverem sorte, receberão tratamento pelo SUS GOLD, em qualquer UBS mais próxima! As pessoas estão falando de uma realidade da qual desconhecem.

Redator-chefe disse...

Janine, o diagnóstico da Saúde mostra um cenário quase desesperador. A questão é justamente essa: se não houver um mínimo de convergência, não se sairá do lugar. Como, aliás, vem ocorrendo há tempo. Hoje, até mesmo o SUS andou para trás. Se os médicos têm como demonstrar que a infraestrutura precária é um impedimento, devem dizer isso e lutar para que as coisas melhorem. Dizer não para tudo que é proposto é uma atitude que bloqueia. Da mesma maneira que as simplificações voluntaristas do governo.

Janice disse...

Concordo com você. Mas, os profissionais da saúde vem , há muito, ressaltando as condições precárias em que trabalham e, muitas vezes,contam com o auxílio da mídia, para atingir um público maior e não ficar discutindo somente entre os membros da categoria. A ABRASCO, vem denunciando há muito tempo tudo isso que já estamos cansados de ver e saber. Creio que decisões de cima para baixo é que causam a polêmica. As entidades ligadas à saúde, sempre estiveram abertas à luta e ao diálogo e não disseram não - apesar de toda estranheza. Temos sanitaristas renomados,ligados a ABRASCO, tolhidos das mais variadas formas, por denunciarem as precariedades e atos corruptos de gestores do SUS- alguns até já foram ameaçados de morte. Contudo, no caso do Pacto, as entidades não foram consultadas e estão passando por elitistas.
Bom, como disse, se todos os envolvidos tiverem boa vontade, a oportunidade é ímpar, para trazer mudanças e transformações. Abraço

Redator-chefe disse...

É isso mesmo, Janice. Os sanitaristas são analistas rigorosos da situação. Tenho muitos amigos entre eles, que longe estão de serem elitistas, como vc bem observou. A questão é sistêmica: tudo precisa ser equacionado de forma integrada. Medidas pontuais, desligadas de uma visão de conjunto, podem agravar ainda mais a situação.

Janice disse...

Concordo, é sistêmica e tem que ser tratada como tal.22