quinta-feira, 18 de julho de 2013

Minorias do mal



As maiorias avançam, se internacionalizam e se democratizam. Mas o que fazer com as minorias?

Elas são de muitos tipos. Na maioria, são merecedoras de toda a justiça social possível. Muitos estão somente lutando por identidade e reconhecimento. Outros querem mais espaço e mais oxigênio para respirar.
Desse ponto de vista, as minorias são como o sal da terra: estão aí para que as maiorias lembrem que desigualdades e diferenças existem, e existirão sempre.
Mas o que fazer com as minorias do mal?
Com aqueles, por exemplo, que deformam a política do confronto de ideias para, em nome da intransigência, difamar os que pensam diferentemente deles, jogar grupos contra grupos, taxando uns de “conservadores e elitistas” e outros de “amigos do povo”? Essas minorias vivem da estigmatização alheia e não é por acaso que seu vocabulário, seu discurso, seu texto, são invariavelmente hiperbólicos, adjetivados, raivosos e ressentidos. Não falam “discordo de você”; preferem dizer: “não aceito essa tua deslavada e sórdida mentira, seu reacionário vulgar”. Acham que isso é fazer crítica.
Entre as minorias do mal, uma categoria pior é a dos que se agrupam para prejudicar, quebrar, pressionar e humilhar as maiorias, ou pessoas que integram as maiorias. Orgulham-se de ser assim porque acham que assim é que “a história avança”. Não querem confluir para nenhuma maioria, porque acham que as maiorias são passivas e “dóceis”.
Os black-blocks, por exemplo: o que fazer com eles? Não são de esquerda, agem com táticas fascistas, infiltram-se sibilinamente no meio das multidões para desmoralizá-las. Dizem-se libertários, anarquistas, mas nada conhecem da gloriosa história do anarquismo. Ressignificam seus símbolos e seu discurso porque precisam de uma identidade, com a qual paradoxalmente não se identificam de verdade.
E quanto aos mascarados que, como meliantes comuns, invadem reitorias (a da Unesp, por exemplo, em São Paulo) para pressionar os funcionários, agindo como se fossem patrões sem alma ou investigadores fascistas? O que fazer com eles?
É patético quando se ouve dizer que esses mascarados são de esquerda, ou progressistas, ou democratas radicais. Não são. Porque pessoas de esquerda e democratas radicais não agem às escondidas, na calada da noite. Não humilham e nem coagem trabalhadores. Não usam da violência, nem sequer da verbal. Não usam máscaras, nem vivem clandestinas de si próprias.
Não dá para dizer que manifestantes assim precisam ser tolerados porque são jovens estudantes que "não sabem bem o que fazem" pois estão movidos a hormônios. Até porque, por trás das máscaras, não dá para saber o que de fato se oculta.
Não acho que tenham de ser tratados com cassetetes, balas de borracha ou prisões. De modo algum. Entre eles há o que antes se costumava chamar de “inocentes úteis”, que precisam ser respeitados. Repressão não ajuda em nada.
Eles barbarizam com sua estética copiada de filmes norte-americanos e sua agenda maximalista mal ajambrada e insensata. Mas o único jeito de confrontá-los é com a palavra, com mais democracia e com um gestual dialógico. Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás!”.
Nos anos 60, os hippies falavam em "fazer amor, não a guerra". E, durante todas as últimas décadas, rebeldes de tipo variado estenderam flores aos soldados e policiais mobilizados para confrontá-los.
Hoje é tempo de estender flores a esses que se apresentam como exterminadores vindos do futuro, mas cujas raízes estão nas terras ancestrais da humanidade mais primitiva e atrasada. Isolá-los com flores e política democrática.

4 comentários:

Janice disse...

Belíssimo ... disse tudo e sem agredir com palavras. Realmente, palavras tem poder.
Havia acabado de ler um artigo em outro blog - artigo "pesado" com duras críticas e denúncias, como o autor faz quase que diariamente, a um certo partido e pessoas a ele ligadas - quando iniciei a leitura do seu. Ao final, percebi que, assim como essas "minorias do mal", temos também formadores de opinião, saídos do meio acadêmico, que agem, com palavras, de forma semelhante.As pessoas que escrevem comentários sobre os artigos dele, em geral,só usam termos chulos ao reforçarem as críticas expostas ao longo do texto.
Você escreve de forma elegante. Recordo-me que como Professor sempre o foi.

Andreia Almeida disse...

Ótima reflexão, temos que oferecer flores em vez de mais violência,que aumenta cada vez mais a agressão entre os homens... Como sempre vc é referência em meus estudos.

Nelson Viana disse...

Marco, belo texto. Contundente, forte, com adjetivos também, mas necessários. Vemos com tristeza o que vem ocorrendo no Rio, no quebra-quebra da madrugada de 17 para 18/07. Uma lástima que os infiltrados façam aquilo, subvertam a ordem e deixem nossas autoridades embasbacadas. A polícia então, perdeu completamente a sua identidade por não saber lidar com a violência em tempos democráticos. Por isso seu texto, nos interessa.
Abraço cuiabano...

Redator-chefe disse...

Obrigado, Andreia e Nelson Viana. Abaixo a agressão!