terça-feira, 29 de abril de 2014

Seria o PSDB um partido de direita?




Se há algo que sempre surpreende quando se escreve sobre PT e PSDB é o fervor com que parcela da esquerda se manifesta. É um fervor particularmente forte entre os que se consideram “revolucionários”. Experimentei isso intensamente nos últimos dias, graças às reações provocadas pelo artigo “Farol alto”, publicado no Estadão de sábado passado e reproduzido em outra parte do blog.
Este ramo meio perdido da esquerda – que se move em parte por nobres ideais e em parte por interesses de tipo mais fisiológico – não admite, “por princípio”, qualquer tipo de reflexão que valorize o que há de comum naquelas duas expressões partidárias do reformismo brasileiro. Seu suposto recorrente é que os tucanos se converteram, ao longo do tempo, em agente do conservadorismo no Brasil, via abertura do país ao neoliberalismo e à consolidação de uma dominação “oligárquico-burguesa”.
Teria sido uma espécie de traição aos ideais reformistas e liberal-democráticos com os quais o PSDB veio à luz. Com o tempo, o partido se transformou numa versão moderna da direita, preocupada com a classe média urbana e abertamente pró-imperialista, ou entreguista, como reza o jargão. Copiou, assim, o que a social-democracia sempre fez na história: o trabalho sujo de impulsionar a “contrarrevolução”.
Com esta inflexão, trombou com o PT, que cresceu buscando vocalizar e organizar um projeto alternativo ao dos tucanos e se converteu, com o tempo, no polo reformista por excelência. O choque PT vs PSDB, assim, teria sido inevitável e expressaria o antagonismo entre dois projetos de sociedade e duas visões do mundo. Como o PSDB seria a voz mais forte da articulação reacionária, ele precisaria ser combatido a ferro e fogo pelo campo popular e pelos trabalhadores, ou seja, pelo PT.
Por falta de opções, a esquerda que se autodefine “revolucionária” está hoje no barco do PT. Defende com ardor o que fazem os governos petistas, que não cometeriam erros e seriam vítimas permanentes da “mídia burguesa”. Briga contra tudo o que respira fora da seara petista: bate no PSOL, no PSTU, no PPS, no PCO e evidentemente no PSDB. Na visão dela, todas estas agremiações estão a serviço do “imperialismo”, da direita e da “reação burguesa”.
Os efeitos perniciosos desta jactância são enormes. A história do século XX inteiro é um excelente mostruário das bobagens e dos retrocessos que se seguiram à visão do progressismo autossuficiente, que basta a si próprio. Ora como tragédia, ora como farsa, a repetição só fez piorar as coisas.
Ela contém um erro de análise e um erro de encaminhamento político.
Falha na análise porque não consegue distinguir direita de esquerda e porque não encontra as determinações estruturais do processo que tenta interpretar. A operação é eminentemente fraseológica, sem programa de pesquisa ou reflexão crítica. Nada teria mudado no mundo ou na vida, o capitalismo é o mesmo de sempre, assim com os grupos, as classes, o modo de vida, as reivindicações, os alinhamentos políticos. Há o capitalismo central e seus asseclas, há o imperialismo de sempre, com seus sabujos, há a direita, o centro e a esquerda, que seria um monolito. Não há esquerda moderada, por exemplo, e a extrema-esquerda deve ser desprezada. Direita e esquerda, nesta visão, não são termos relacionais, mas estruturas fixas. Por isso, não compreende que o PT, na última década e meia, saiu da esquerda para o centro e deslocou, com esse movimento, o PSDB do centro para a direita. Ambos os partidos, porém, não têm em seu DNA nem o moderantismo do centro, que o PT passou a exibir, nem o reacionarismo da direita, que nunca progrediu no PSDB.
A visão pretensamente “revolucionária” enche a boca para proferir discursos classistas, mas não vai além disso: as classes não aparecem em suas análises, não são atores, funcionam somente como recurso retórico. Há exclusivamente a classe operária, viçosa, sofrida e combativa, quem sabe de braços dados com o campesinato. Se ela não se revolta ou se apoia governos que falam em seu nome sem fazerem coisas de seu interesse, pouco importa. A questão é que ela é a referência. As demais classes não são bem-vindas.
A análise também tropeça em algo ainda mais importante: não mostra de forma convincente em que parte da história o PT praticou uma política antagônica ao PSDB e não consegue admitir que o PSDB não governou praticando políticas hostis ao PT, mas sim buscando “globalizar” o país e ajustá-lo ao ritmo do mundo (o que, na minha opinião, não foi algo positivo, mas facilitou a que o PT passasse a falar em “desenvolvimentismo” uma década depois). A política econômica dos anos petistas seguiu basicamente a mesma orientação tucana e sua modulação “desenvolvimentista” se deveu muito mais a circunstâncias do que a decisões “revolucionárias”. A própria “burguesia oligárquica” que os “revolucionários” julgam existir no país apoia o PT do mesmo modo que apoiou o PSDB: é a favor de tudo o que não contraria seus interesses. E foi, em certa medida, com o apoio dela que o PT monopolizou a agenda nacional, a ponto de praticamente fechar os espaços para formulações oposicionistas. Em decorrência, o PSDB, que nunca atingiu o melhor de sua forma como partido, terminou por se agarrar a propostas oportunistas e secundárias para não desaparecer por completo.
PT e PSDB não são de modo algum uma única e mesma coisa. Deveria ser óbvio constatar isto. Mas não configuraram antagonismos, e sim diferenças no âmbito de um mesmo bloco histórico (Gramsci), que cumpriram nas duas últimas décadas funções e programas convergentes. Têm sido traduções políticas e partidárias da revolução passiva do nosso tempo.
O erro de encaminhamento é mais simples. Se o campo progressista está hegemonizado por uma só força, então não há qualquer perspectiva de aliança substantiva, e a força progressista ou fica estagnada e não reforma nada, ou termina por se aliar “taticamente” com forças que não são progressistas.
Algo assim pode ser visto no Brasil das últimas décadas. O PSDB, quando foi governo federal, se considerou a única força capaz de reformar o Estado brasileiro. Olhou para sua esquerda e viu somente adversários, a começar do PT. Necessitado de condições de governabilidade, acabou aliado ao DEM, que travou o reformismo inicial. Quando Lula se tornou presidente, em 2003, algo parecido ocorreu: ele olhou para a esquerda e só enxergou protagonistas a serem subordinados ou ignorados; olhou para o centro, encontrou o PSDB e o empurrou para a direita; terminou com o PMDB, que está à direita do PSDB mas que, na coalizão governista, posa de centro-esquerda. O PMDB é o DEM do PT: ajuda o PT a refrear suas intenções reformadoras. E o PT, interessado em firmar seu predomínio político e a acumular sempre mais recursos de poder, passou a vetar qualquer tipo de unidade ou articulação democrática e reformista. Caminha abraçado a seus aliados da hora, concentrado no plano imediatamente político e eleitoral.
Tenho defendido, como no artigo mencionado, que a vida política brasileira seria melhor se convergências explícitas e programáticas tivessem havido entre o PT e o PSDB, esses irmãos-inimigos da política brasileira. Um partido teria ajudado o outro a evitar certos “desvios” e a se autocriticar. Ambos teriam crescido. Haveria um bloco reformador no país, ao qual se vinculariam o PSB e os demais partidos democráticos. Sua força magnética tenderia a isolar os setores efetivamente retrógrados e a empurrar o PMDB de volta às origens.
Como não houve isso e nem haverá no curto prazo, estamos condenados a girar em círculos. Nossa coreografia política ficou pobre, aprisionada a disputas por recursos de poder e ao calendário eleitoral. Sem novas ideias e novas articulações políticas, não sairemos do lugar, por mais que possamos vir a ter a sensação de que nos movimentaremos sem cessar.
Penso que esse quadro deveria nos convidar a aprofundar a discussão que está no título deste post: seria o PSDB um partido de direita? E a esquerda, quem a representaria? Seria o PT um partido de esquerda? E, para finalizar, haveria ganhos reais numa batalha pela formação de um bloco político democrático e reformador no Brasil?

6 comentários:

Henrique Cabral disse...

Professor, excelente texto, parabéns! Realmente o isolamento governamental a que se propuseram os partidos que venceram o pleito federal jamais promoverá as reformas necessárias ao país, muito em face das alianças feitas em prol da governabilidade necessária. Entretanto, discordo quanto a proximidade econômica em que colocou PT e PSDB; a baixa dos juros, os constantes aumentos do salário mínimo (proporcionando maior acesso aos bens de consumo às classes mais baixas), a utilização de empresas estatais para controle da economia (bancos e Petrobrás), os aumentos consideráveis nos investimentos em saúde e educação, são exemplos. Penso que o PSDB se esqueceu de inserir, ainda que minimamente os menos abastados, em suas políticas; não fez quando governou o país e não o faz nos estados. Sou de Minas Gerais, a educação pública foi sucateada nesses últimos anos, a CEMIG atua visando unicamente os investidores, assim como a COPASA, a dívida do pública aumentou consideravelmente, muito em prol da especulação imobiliária com a empreitada da Cidade Administrativa, as PPP´s são terríveis, e vantajosas apenas para o setor privado (Mineirão e MG-050). Verdade que o PT se aliou às oligarquias, que tanto criticava, mas não a todas, as Oligarquias detentoras da mídia continuam ao lado do PSDB, vide as coberturas feitas a ambos os mensalões, que buscaram apenas atacar o partido, não debater sobre a causa do problema. Acredito que o PT abandonou a esquerda sobre a qual se fundou, talvez para o bem, mas não vejo, diante das políticas pregadas pelo PSDB, a possibilidade de colocá-los à esquerda ou ao centro; não existe esquerda sem o povo.

Nelson Viana disse...

Lí e gostei Marco Aurélio. Análise, firme e ponderada sobre essas duas forças políticas que disputam o poder, produzindo, no entanto, um enorme déficit/atraso para o país e a sociedade em geral.

marco aurélio nogueira disse...

Concordo com tuas ponderações, Henrique. A questão, para mim, não é minimizar as diferenças entre PT e PSDB, mas discutir se há pontos comuns entre eles, que poderiam servir de base para uma convergência política. Diferenças são a base da luta política, mas levadas ao extremo funcionam como veneno paralisante.

marco aurélio nogueira disse...

O melhor que teríamos a fazer, Nelson, seria ver se há alguma tendência a que algo deste deficit seja superado.

Erica Silva Teixeira disse...

Excelente !

Alexandre T disse...

Se o PSDB e Aécio Neves receberam apoio no segundo turno das eleições por parte dos socialistas(PPS e PSB), do PV e da Marina Silva, não podem ser de "direita", como dizem, por exemplo, os petistas...