quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A tragédia das águas

André Henrique, que foi meu aluno na Unesp em Araraquara, faz um blog muito legal e dinâmico. Chama-se Via Política. Sua galera de amigos está sempre por lá, comentando e criticando as postagens.

Ontem, o André abriu um debate sobre as chuvas de verão. Ou melhor, sobre a tragédia das chuvas, em Angra dos Reis, em outras áreas da região e em muitas cidades do sul e sudeste. É um problema que se repete ano após ano, a um ponto que parece não ter mais solução. Desequilíbrio ambiental, aquecimento global e agressões à natureza se somam à ocupação irregular do solo, à voragem da especulação imobiliária, ao descaso governamental e às dificuldades reais que os gestores têm de lidar com a situação. O verão perde boa parte de seu encanto. Mortes, cidades submersas, patrimônios históricos e vidas destruídas, caos por todo lado.

As vítimas se acumulam, entristecem a todos, causam pasmo e horror. Quase sempre no silêncio de seu lamento pungente, impõem uma agenda para o país. Até quando teremos de conviver com isso?

Vale a pena visitar o blog do André.

3 comentários:

André Henrique disse...

Fiquei surpreso, não esperava que o professor fosse dar esse destaque generoso, obrigado!

Sobre o tema em questão, dado a complexidade e a falta de ação efetiva para dirimi-lo, resta-nos debatê-lo com vigor e rigor para buscar caminhos de amenizar essas tragédias no futuro.

E, como este blog, discuti as possibilidades da política - e foi a partir dele que mudei o nome do meu para Via política e comecei a tratá-lo mais seriamente - acredito que estes dilemas ambientais e urbanos, tão complexos, mais uma vez, exigem ação política: articulação da sociedade com o Estado. Por um lado, isso é positivo, pois mostra a necessidade de política na sociedade, por outro, é negativo, porque vemos que a dificuldade de se articular politicamente tem a ver com as fraquezas da democracia. A apatia política dos cidadãos e a falta de consciência cívica somada à atrofia das instituições são sintomas da miséria da democracia e atrapalham a articulação da sociedade com a política.

Neste debate muita coisa está em jogo: educação e justiça, por exemplo.

Qual o sentido da educação no Brasil? Será que ela deve apenas servir para inserir indivíduos numa ordem competitiva ou ensinar-lhes a viver em sociedade (tratando de temas comuns, como o meio-ambiente)? Uma educação que forme cidadão, aquele que luta pelos seus interesses, mas que pensa no próximo, que não deteriora o bem público e não encharca vias públicas de lixo.

No que tange a justiça, até onde ela resiste ao poder do dinheiro? Por que rico não vai preso no Brasil? Por que o poder público se rende a grana? As ações judiciais de organizações civis e cidadãos contra a voracidade das especulações ambientais nem sempre dão resultado, ainda mais quando certos governantes em conluio com estes setores atendem a seus interesses.

Estes são problemas fundamentais, estão na ordem do dia e devem ser debatidos. Isso é um exercício democrático, afinal, democracia não pode ser reduzida a um jogo competitivo de disputa eleitoral. Os blogs, o twitter são cenários importantes para criar interligações de idéias. No meu, tentamos, mesmo que de maneira tímida, exercer cidadania. Da minha parte, quase sempre escrevendo mal e nem sempre conseguindo debater devidamente (seja lá o que for isso), mas sempre trabalhando com paixão política.

Valeu professor, pelo destaque.

Gilson Caputi disse...

Olá Professor, bela indicação. Esse texto do André conciliou bem o ocorrido. Atingiu o centro do problema que é a tragédia política e demonstrou com clareza a causa desse desastre. O decreto (41.921/2009), que por sinal foi revogado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, que autorizava a construção nessas áreas de risco, era completamente equivocado. Aliás, foi votado sob pressão e visando atender interesses. A maneira pela qual ele foi aprovado só confirma esse ambiente relacional maluco vivido no RJ, descartando as etapas técnicas as quais aquele tipo de construção deveria estar atento, e só se concretizou por este Estado não possuir homens públicos sérios e instituições sólidas para cerceá-lo.

Cabe-nos agora uma pergunta. Será que alguém será responsabilizado por essa catástrofe, visto que, as chuvas não servem de justificativa. Segundo a Secretária do Meio Ambiente do Rio, Marilena Ramos, o volume de chuvas ainda está na média, ou seja, não foi o excesso da mesma que causou os soterramentos. Será que poderemos identificar todos aqueles que votaram a favor desse, agora famoso, decreto, para culpá-los. Aliás, onde estarão os engenheiros, geólogos e profissionais, se é que existiram, que autorizaram a construção na “Itaorna” (pedra podre) que é como conhecida a região, para explicar que aquele local era apto à construção. Aliás, onde está Sérgio Cabral para explicar isso? Precisamos perguntar a eles se casa em barranco tem validade!?

A pousada Sankay, em Angra dos Reis, cujos donos, Geraldo Faraci e Sônia Iamanishi, perderam a filha, Yumi Faraci, não tinha qualquer licença ambiental. Como é possível ter sido construído um prédio que recebia turistas com grande freqüência sem qualquer tipo de licença? Acredito que uma lei não é sólida, quando não atende vigorosamente todas as condições que compõem seu tema, e esse decreto não passou nem perto disso. Vamos aguardar o desfecho da história e ver o que acontece.

Que bom que o senhor levantou, no seu blog, esse assunto. Contribuirá muito para a discussão.

Marco Aurélio Nogueira disse...

É o tipo de assunto que precisa ser discutido mesmo. Não há um caminho único e categórico para resolver a questão, por mais que devamos responsabilizar o Estado e a política pelas omissões recorrentes. As águas não são responsáveis, claro, mas é inegável que a violência delas aumentou nos últimos anos. Não porque choveu mais que a média, mas porque há uma "desregulação" da natureza absurdamente forte. E os gestores, por melhores que sejam ou venham a ser, não têm munição suficiente para enfrentar o desafio. É preciso uma ação concertada, em âmbito ampliado.