quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Tendências e alternativas




O PSDB parece estar deixando de ser uma alternativa efetiva na política brasileira, seja em termos de poder e disputa eleitoral, seja em termos de projeto. Vem perdendo força e vigor já faz tempo. Pode ser recriado? Pode, mas não será fácil, pois a dinâmica eleitoral e as disputas que ela criará não favorecerão isso no curto prazo. Há muita espuma dentro do partido, muitos atritos e desentendimentos, que travam uma retomada vencedora e a recuperação ou incorporação de ideário mais progressista, mais afinado com a socialdemocracia.
Um segundo mandato de Dilma, por sua vez, tenderá a abrir em Brasília uma estrada de acomodação em direção ao centro, seja porque o arsenal de ideias do PT parece enfraquecido e sem novidades consistentes, seja porque o preço que terá de ser pago para garantir Dilma II travará qualquer reformismo que eventualmente vier a ser cogitado.
Eduardo/Marina pode ser uma alternativa? Pode, mas terá de mostrar isso nos próximos meses. Terá de por para fora o que tem de ideias, propostas e projeto. E, sobretudo, terá de demonstrar que um novo modo de fazer política e governar é de fato possível, mantidas as atuais regras do jogo.  
Os últimos 25-30 anos foram de bonança e renovação no Brasil. Nossas três décadas gloriosas, como diz meu amigo William Sodré, com uma pitada de ironia mas com o foco preciso. Avançamos, seja porque pudemos contar com governos melhores do que o padrão (FHC, Lula, Dilma), seja porque esses governos – sem nenhum consciência de que faziam isso e sem nenhuma articulação entre eles – cumpriram um roteiro de realizações que acabaram por se compor e modelar outra sociedade. A economia internacional também ajudou, diga-se de passagem. Assim como a força que o capitalismo ganhou no país, por mais paradoxal que isso possa ser.
O problema é que, apesar de todos esses avanços, a política ficou travada, em boa medida controlada pelo baronato tradicional (Sarney, ACM, Collor, PMDB) e pela indigência política e intelectual  da classe política, a velha e a nova. As regras do sistema refletiram isso, mantidas que vem sendo sem maior oxigenação. Mas as regras não mudam a qualidade da política: ela foi piorando porque os políticos e os partidos pioraram, e muito. Foram abandonados pelos cidadãos, e com isso passaram a se reportar e a se medir por seus próprios interesses como partidos e não pelos interesses de seus representados, ou da sociedade. Essa, por sua vez, se afastou da política porque a “vida líquida” criou novas dinâmicas, novas atrações e novas demandas, que o sistema não consegue decifrar.
De qualquer modo, o deslocamento do eixo para uma maior polarização entre Dilma e Eduardo/Marina poderá significar três coisas: (1) um debate mais qualificado e sereno entre duas vertentes de esquerda moderada, cada uma das quais com sua marca, suas virtudes, seus pecados e seus compromissos. (2) o encerramento de um ciclo em que o neoliberalismo funcionava como o bicho-papão da competição democrática, o parâmetro empregado ou para justificar opções  “modernas” favoráveis ao mercado, ou para atacar os adversários de uma esquerda autoconcebida como imune ao mercado. (3) a projeção para outro patamar (superação) das conquistas do período Lula e FHC.
Resta saber se haverá gás e discernimento para que o sistema assimile e aproveite essa oportunidade.

2 comentários:

Viva todos os desejos e sonhe todos os seus sonhos disse...

Excelente análise prof Marcos, ainda não havia pensando nas esquerdas em "confronto democrático". Se como o Sr. afirmou soubermos aproveitar esse momento só teremos a ganhar. E deixar pra trás alguns fantasmas.

Redator-chefe disse...

É o que me parece mais razoável.