terça-feira, 25 de junho de 2013

Perguntas a partir do Roda Viva




Estive no programa Roda Viva da TV Cultura ontem dia 24. No centro do palco, José Serra. Fui um dos entrevistadores. Tentei propor um debate em torno de questões políticas mais gerais. Mas eu não era o único participante e um bom debate democrático deve garantir a pluralidade de visões e a participação de todos.
Anotei muita coisa, e concluí que aquilo que eu quis perguntar, que eu quis propor para a reflexão, pode ser apresentado no texto abaixo.
As vozes das ruas disseram muitas coisas e ainda precisaremos de um tempo para decifrá-las de forma plena. Algumas coisas, porém, foram ditas em alto e bom som. A principal delas foi: “queremos um futuro que vocês – políticos, partidos, governantes – estão nos impedindo de ter. Queremos participar da construção dele, e vocês estão atrapalhando”.
Nenhum partido ou político escapou da crítica das ruas. Isso indica que temos uma força social querendo mudar, querendo ter respostas mais competentes dos governos, querendo  melhorar a qualidade da democracia e do governo representativo entre nós.
Como os partidos devem reagir a isso? Ou será que eles não conseguem ouvir as ruas?
FHC disse numa entrevista a semana passada: “Há uma descrença nos caminhos políticos e por isso os partidos que quiserem se recompor com o povo têm que chegar mais perto do povo e sentir qual é a demanda”.  É uma boa frase, que sinaliza uma posição interessante, que convida os políticos a “terem a grandeza de dizer: estamos errados”.
Não estaria mais do que na hora dos partidos sacudirem a poeira que se acumulou neles, que fez com que envelhecessem de modo dramático? Os partidos deveriam se preocupar em saber como poderão voltar a ter vigor, agenda e discurso propositivo. Caso concluam que não é esse seu papel ou que não podem fazer isso, deveriam sair de cena. Por que o PSDB, que tanto se orgulha de seus quadros intelectuais e de seus feitos históricos, não aproveita o ruído democrático das ruas para se renovar, se reorganizar e rever algumas de suas opções? Também ele foi posto em xeque pela sociedade. Por que então o PSDB não sai do muro e abraça claramente a socialdemocracia (que está em seu programa e em sua simbologia, mas não é propriedade dele), propondo-se a articular outras propostas partidárias que pensam como ele?
A discussão sobre os partidos é importante porque talvez ajude a que a política brasileira se liberte dessa camisa-de-força que é a polarização PT vs. PSDB, que envenena a disputa democrática e trava a organização de governos capazes de reformar o país. Essa polarização não faz mais sentido, mas ela continua a ser insistentemente repetida, como um mantra, por muitíssimos políticos, ativistas e formadores de opinião.
Tudo isso poderia ser resumido numa questão: como fazer para que as vozes das ruas se encontrem com a voz do Estado, de modo a democratizá-la? Como fazer para que a política dos cidadãos – feita de questões existenciais fortes e desejo de comunidade – se articule com a política dos políticos, feita de cálculos frios e desejo de poder? Se essa articulação se der, a reforma da política se completará em sentido democrático.
Falando à nação na noite de 24/6, a presidente propôs um pacto nacional em torno de 5 pontos, entre os quais um debate amplo sobre a possibilidade de se ter um plebiscito para se organizar uma Constituinte específica para a reforma política. Isso pode ser interpretado como um recuo do governo e a abertura de outro padrão de diálogo entre ele e as oposições? As oposições estão abertas para esse diálogo?
O discurso presidencial de ontem tem falhas e, se visto no varejo – quer dizer, por suas propostas em detalhe –, suscita muitas dúvida sobre sua viabilidade. Dependendo de como for encaminhado, pode até mesmo forçar o aprofundamento das polarizações e atiçar ainda mais as ruas. É falsa a ideia de que há um embate entre esquerda e direita no país. É má política supor que as forças do conservadorismo estão querendo cercar o governo federal. Não dá para ver vantagens numa eventual bolivarianização do país, e nem sei se isso seria possível.
Mas a proposta presidencial tem um lado simbólico que vale a pena ser preservado e valorizado. A própria ideia de um plebiscito constituinte só pode ser lida pelo lado simbólico, pois é inviável e atabalhoada. Reflete a dificuldade que o governo está tendo para escapar do cerco a que foi submetido. Simbolicamente, pode significar muita coisa: o PT finalmente aceitando a tese de uma unidade democrática maior que os partidos. Deveria ser posta à prova.


3 comentários:

Paola Bruno Arab disse...

Fantástico seu blog, professor! Eu, como leiga em ciências políticas, geóloga doutoranda em meio a "muitas exatas" e, arrisco a dizer, com uma postura apolítica no sentido de não idolatrar nenhum extremo direita/esquerda, me senti órfã - por duas semanas - por não encontrar um autor, um texto sequer que abordasse as manifestações com uma linguagem clara e sem o fervor que acaba gerando opiniões agressivas e nada construtivas para o momento em que vivemos. Fico eternamente agradecida por um amigo, ex-aluno seu, ter me apresentado seu blog!

Pereira, Marcelo M disse...

A mobilização que ocorre no país pós redução nas tarifas é decorrente do descontentamento com a representatividade atual da Democracia. Temos o governo federal em DF mas o foco das discussões, tanto as bases nacionais dos partidos como a grande mídia estão concentradas no eixo Rio-Sao Paulo. Há um distanciamento muito grande da política que é articulada nesse eixo, com o que acontece em DF e ainda um distanciamento ainda maior nas regiões Norte, Sul e Nordeste. Essa análise coloca um foco de que barrar a participação popular no processo político é item fundamental para a permanência do Governo Populista e Ditatorial Civil do PT, mas também revela um distanciamento da direita, que não se deixa representar pelas camadas mais inferiores da sociedade. A política se tornou um negócio e governo nenhum é Robin Hood, para tirar dos ricos e dar para os pobres, mas curiosamente, a Classe Média tomou para sí a conta que está sendo paga há mais de 10 anos. http://paralaxecerebral.blogspot.com

Redator-chefe disse...

Muito obrigado, Paola. Fico super contente com o que vc disse. Espero que possamos seguir em contato e trocando ideias. Abraço