quinta-feira, 17 de julho de 2008

Conhecimento, Informação, Perspectiva Crítica - 1



· “É preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional -- isto é, ‘participar’ de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente --, ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?”. [Antonio Gramsci, “Apontamentos para uma introdução e um encaminhamento ao estudo da filosofia e da história da cultura”. Cadernos do cárcere, Caderno 11, § 12, Edição brasileira, vol. 1, pp. 93-94].

· "Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça cheia". [Montaigne]

· "Onde está o conhecimento que perdemos na informação? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?" [T. S. Eliot]



10 comentários:

aLiNe disse...

Pensar, pensar, pensar... Às vezes, fico me perguntando se temos autonomia intelectual...
Mas, essa idéia de pensar "sem disto ter consciência crítica" me agrada. Isso é necessário: o "penso, logo existo" de Descartes... O que me preocupa são as categorias que usamos para tal ato...
Mas, bom post. Legal ver um professor renomado postando num "ambiente" menos acadêmico, além do Lattes.
Parabéns!

André Henrique disse...

Olá professor, parece que vou ser seu aluno de novo. Vou fazer método em ciência política, certamente o senhor que irá ministrar essa matéria. Bom, espero que sim. Até aqui, o senhor foi o melhor professor que já tive, o que mais contribuiu intelectualmente, apesar do corinthians.
Sobre o Gramsci - estou começando a entrar no universo do autor agora, estou lendo o livro que o professor me indicou, "Gramsci - um estudo sobre seu pensamento político, Carlos Nelson Coutinho.
Gostaria que o professor explorasse no blog: as contribuições do pensamento gramsciano na educação. Apesar do professor explorar o lado político, acredito que a educação não esteja tão descolada do espectro analisado pelo professor em Gramsci.
Abraços

Marco Aurélio Nogueira disse...

Aline e André:
a idéia do "pensar sem disto ter consciência crítica" foi uma frase que Gramsci empregou para defender a necessidade de se pensar com autonomia, ou seja, de "elaborar a própria concepção do mundo de maneira crítica". A Aline ficou somente com a primeira parte, talvez saturada da oferta acadêmica de tanto "pensamento crítico". É prá se pensar.
Quanto ao Gramsci e a educação, é um oceano. Uma hora dessas vou postar o prefácio que escrevi para um livro sobre a relação Gramsci e escola. Há muita coisa escrita, pois os pedagogos são ativos na interação com Gramsci. Mas novas pesquisas serão sempre bem-vindas.
Abraço

Beto Durán disse...

Prezado Professor,

Acompanho a pouco tempo seu blog, mas visto a "carapaça" sempre que leio seus posts. Parecem chamados à reflexão, um eco que escuto cada vez menos em meu espaço.
Quando li este post saí correndo em busca de dois autores, Macciocchi que escreveu "A Favor de Gramsci" e Edgar Morin. A idéia da crítica, de ouvir o conflito e se posicionar, refletir a prática... Gadotti e Freire me ensinaram o valor do conflito para a reflexão e para a construção de novos conhecimentos. Estou lendo Schopenhauer - A arte de escrever. Um trecho dele deixou-me muito intrigado. "Ler significa pensar com uma cabeça alheia, em vez de pensar com a própria." Fico pensando se isso não é um pouco limitador. Eu posso ler e a partir do que li, refletir, criticar e incorporar tudo, parcialmente ou refutar o conhecimento apresentado.
Será que o pensador não pode ter referenciais, avançar um conhecimento já construído?
Já que o texto ficou longo, vou acrescentar algo mais. Um trecho do Gramsci que acho simples e sensacional. "Que cada pessoa se esforce para convencer os outros de suas verdades ... Só podemos ser intransigentes na ação se tivermos sido tolerantes na discussão, se os que estavam melhor preparados tiverem ajudado os menos preparados a compreender a verdade... Não se deve nunca apresentar a verdade sob uma forma dogmática e absoluta, como algo já maduro e perfeito." Gramsci.
Desculpe o longo relato, mas suas "provocações", no bom sentido, aqui fazem eco!
Parabéns.

Anônimo disse...

Caro Marco,

Dentro do contexto gramsciano, gostaria de sugerir um filme biográfico de Gramsci muito interesante.

"ANTONIO GRAMSCI. I GIORNI DEL CARCERE"

Direção: Lino del Fra. Ano: 1977. Duração: 127 minutos/P&B. País: Italia. Idioma: italiano, legendas em espanhol.

Ele está disponível no Google Video para ser baixado no computador.

Depois converti para o formato em DVD. Perde um pouco a qualidade da imagem, mas o que importa mais é uma visão geral da vida de Gramsci.

Abraços,
Luiz Guilherme Paschoalini

Marco Aurélio Nogueira disse...

Muito obrigado, Beto e Luiz Guilherme, pelos comentários e sugestões. O filme vou procurar correndo, ou seja, assim que der. Não conheço e certamente merece ser visto.
Quanto ao Schopenhauer, que só conheço de passagem, a frase citada é no mínimo enigmática. Concordo com vc, Beto. Todo grande pensador lê e tem suas referências, "pensa com a cabeça alheia" e não só com a sua. Fora disso, não é pensamento capaz de produzir "escolas" e, digamos, influenciar multidões.
Gramsci pensava muito com a cabeça dos outros e nem por isso deixou de pensar com a própria, e deixou uma obra poderosa.
Abraços,

aLiNe disse...

" [...]Gramsci empregou para defender a necessidade de se pensar com autonomia, ou seja, de "elaborar a própria concepção do mundo de maneira crítica". A Aline ficou somente com a primeira parte, talvez saturada da oferta acadêmica de tanto "pensamento crítico". É prá se pensar".
É... essa coisa de pensar criticamente, às vezes, me enche o saco mesmo. Boralá pensar! Elaborar nossa própria concepção de mundo...
Gramsci é bem legal. Pena que eu tenha lido pouco. Em uma disciplina apenas. Mas, foi com a Vera Cepêda (minha orientadora), o que já ajuda muito... =D

Sizenando disse...

Todos precisamos de referências para organizar as idéias e circular na vida real. Vivemos de cabeça cheia sim e ter a cabeça bem feita é sempre uma opção nossa. Daí estarmos sempre no comando, isto é, sempre estamos fazendo opções, escolhas. Nos envolvemos com idéias já estruturadas e organizadas, às vezes sem pestanejar, simplesmente para nos sentirmos agregados a alguma coisa: um grupo, uma seita, um modo de ver o mundo, e isso tudo para nos sentirmos vivos. Ou então mantemos nossa bateria crítica sempre em alerta, apontando esta ou aquela incongruência ou defeito para justificarmos nossa exclusão de qualquer grupo, organização ou tendência espiritual ou filosófica – para permanecermos isolados, donos da verdade.
A sabedoria definha quando valoriza-se em excesso a quantidade de informação disponível hoje em dia. Esse conjunto de informações - especialmente via internet e notavelmente confundido com a ”sabedoria disponível” - é, todo ele, em geral considerado como prova de que o acesso à informação está cada dia mais democrático.
Não aceitar a influência exterior sobre nosso pensamento pode ser um crime – mentir sobre nós mesmos e nossa formação em nome da independência intelectual. A pressão do meio sobre o indivíduo é inevitável, interferindo e influenciando sua conformação cultural.
Voltando à citação de Gramsci: acredito que buscar a própria personalidade normalmente significa nadar contra a correnteza e, para não nos afogarmos, devemos ter clareza que é impossível escolher com precisão qual é o rio mais seguro para nos lançarmos.
Um abraço, Marco.

Marco Aurélio Nogueira disse...

Ótimo comentário, Sizenando! Vc foi no ponto, ao olhar a vida atual como equilibrada sobre o dilema informação / conhecimento. Creio que Gramsci não discordaria de vc. Também para ele, "pensar" era receber influências do mundo exterior, algumas das quais fortíssimas, dar sequencia ao que descobriram antes dele, etc. O mais importante seria, creio, saber o que fazer com estas influências, ser "dono" das próprias idéias, agregar valor e originalidade aos patrimônios ou influências disponíveis.
É uma bela discussão!
Abraço

Marisa Bittar disse...

Marco,
Faz tempo que eu desejava expressar nossa gratidão por disponibilizar o filme. Com certeza é uma contribuição a mais para o debate, intenção sempre sua. Um beijo,
Marisa Bittar