domingo, 8 de junho de 2008

Poder, tema de novo livro




A Editora Unesp acabou de publicar um novo livro de minha autoria: Potência, limites e seduções do poder. O livro integra a Coleção Paradidáticos da editora, que visa a colocar ao alcance de um público amplo textos sobre ciência e cultura que ajudem a que se entenda o mundo contemporâneo.

O livro é, portanto, obra de divulgação. Esforcei-me para oferecer ao leitor um material de reflexão redigido em estilo agradável e direto. Para seguir o padrão da coleção, o livro contém também um glossário, um elenco de questões para debate e algumas sugestões de leitura. De qualquer modo, espero ter conseguido produzir um texto que não peque pela simplificação excessiva do argumento ou pela leviandade no tratamento dos complicados temas do poder.

Eventuais interessados poderão adquirir o livro diretamente na Editora Unesp ou nas livrarias existentes. Nos sites tipo Fnac, Submarino, Cultura e Saraiva, sempre se encontram descontos.

Para dar uma idéia do que nele se encontrará, reproduzo abaixo a sua Introdução.


O tema não aceita indiferença. Sempre houve e sempre haverá quem receie o poder ou se incomode com o poder. De uma ou outra forma, todos são magnetizados por ele. O poder seduz. A própria sedução é um de seus principais recursos. Sempre há quem sofra com o poder e quem cobice o poder.

É um assunto universal, de todos os tempos, presente em todas as culturas, objeto de conversas de bar e de tratados refinados escritos por pensadores dos mais diferentes estilos e das mais díspares orientações ideológicas. É daqueles temas que costumamos chamar de clássicos, que nunca saem de cena e que se tornam sempre mais fascinantes a cada nova abordagem, ainda que não fiquem necessariamente mais bem compreendidos. Podemos partir dos antigos filósofos gregos, passar pelas reflexões teológicas da Idade Média, freqüentar os clássicos modernos (Maquiavel, Hobbes, Kant, Rousseau, Hegel, Marx) e chegar aos contemporâneos, e iremos nos deparar com a mesma inquietação, com o mesmo interesse em entender as armadilhas, as sinuosidades, as misérias e a potência do poder.

Por que alguns mandam e outros obedecem? De que métodos e recursos se valem os que mandam? Como conseguem obter apoio e consentimento? Como justificam e como é recepcionado este poder? Em seu famoso Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1762), Jean-Jacques Rousseau propôs-se claramente a explicar por qual “encadeamento de prodígios” o forte – isto é, a maioria -- pôde resolver-se a servir ao fraco, aceitando uma dominação que, em nome de uma “felicidade real”, deu-lhe apenas uma “tranqüilidade imaginária“. Não foi o primeiro a se dedicar ao problema, mas seu texto marcou época na história do pensamento político.

Amado e odiado indistintamente, o poder perturba, leva pessoas à loucura, corrompe e alucina, mas também serve para que se movam montanhas e para que multidões dispersas se organizem. O poder reprime e prejudica, mas também acalenta, protege, incentiva e beneficia. Costuma ser utilizado tanto para conservar quanto para revolucionar, tanto para promover mudanças quanto para preservar o status quo. É visto como instrumento e como fim último, como recurso e como meio de vida.

Diante do poder, não há como simplesmente darmos de ombros e acharmos que não tem nada a ver. Podemos não gostar dele, mas não temos como evitá-lo nem como subestimá-lo. Podemos pensar que ele não é um tema atraente, que há coisas melhores para se estudar, mas não compreenderemos os horrores e as maravilhas do mundo se não incluirmos o poder e não tentarmos decifrar o poder.

O anedotário sobre o poder é ilimitado. Todo povo cria fantasias sobre o poder e o explica de algum modo. Não há quem não ache, ao menos por uma vez, que os governos são sempre arrogantes com os cidadãos mais fracos e rastejam diante dos poderosos. Todos crêem que os políticos são simpáticos quando precisam pedir votos aos eleitores e se convertem na encarnação mesma da empáfia e da soberba quando chegam ao poder. A vida está cheia de pequenos tiranetes que se incham quando põem a mão em alguma nesga de poder. Servidores públicos, policiais, gerentes de banco, empresários, chefes de seção, jornalistas, técnicos de futebol, professores, top-models e artistas famosos sempre têm seu instante de poder e arrogância. Nestas ocasiões, pisoteiam e maltratam quem lhes aparecer pela frente, abusando de todos os recursos de que dispõem para humilhar o próximo ou para dele se distanciar. São momentos parecidos com os quinze minutos de fama que Andy Warhol atribuiu como “direito” para cada um dos habitantes das sociedades dotadas de um forte sistema de mídia. A fama e o poder muitas vezes andam juntos, mas são coisas bem diferentes.

O texto que se segue pode ser entendido como um convite para que nos interessemos pelo tema. Seguindo a sugestão feita décadas atrás por um pequeno livro do filósofo Gérard Lebrun (1981), tentaremos seduzir o leitor a olhar o poder como assunto digno, crucial, estratégico, se possível desfazendo-se de alguns preconceitos e indo além de algumas “evidências”. O plano não é convencer ninguém nem da “bondade” nem da “maldade” intrínsecas ao poder, mas sim abrir algumas clareiras para que se possa pensar o poder como um fato integrado à vida, que se insinua em nossos discursos, em nossos relacionamentos amorosos, em nossa atividade produtiva, nas lutas que travamos para ser felizes ou simplesmente para defender nossos interesses.

O poder está em toda parte. Tem muitas faces, múltiplas dimensões e inúmeras falas. Exibe-se e se oculta com igual dedicação. Ama a exposição e não vive sem o segredo. Podemos odiá-lo, cobiçá-lo, combatê-lo ou apenas temê-lo. Justamente por isso, não temos o direito de ignorá-lo e de não tentarmos compreendê-lo. Se assim procedermos, acabaremos por não saber bem o que fazer com o poder que temos e com todos os pequenos e grandes poderes com que interagimos.

11 comentários:

Anônimo disse...

Meu querido,
a Edunesp prevê um lançamento digno do Autor ou ficaremos limitados a uma "noite de autógrafos + coquitéu via rede..."? Com ou sem, m'inclua entre os que seguem lendo com carinho tuas reflexões inteligentes e instigantes sobre as idas e vindas de nossa mal-ajambrada vida democrática!
Forte abraço.
Erreefê

Marco Aurélio Nogueira disse...

Não haverá nem lançamento digno nem noite de autógrafos. Tudo será feito na maior discrição, ou, como seria mais correto dizer, às custas do autor.
Que os amigos e amigas queridos, como vc, compreendam o fato e apóiem...
Marco

Anônimo disse...

Caro Marco,

Como havia lhe dito, já li grande parte de seu novo livro. Tal como o "Em defesa da politica" e "Um Estado para a sociedade civil", seu novo livro nos traz uma seleção de texto, articulados entre si, com a preocupação de discutir o poder em suas várias facetas frente os nossos desafios atuais, como o "centralismo burocratico e o centralismo democrático" e "autoridade e liderança", em meio ao processo de globalização e "informacionalizaçao", por exemplo.

Em especial, quanto aos capítulos 3, 4 e 5 certamente incluirei no rol dos textos que utilizarei em minhas aulas na faculdade, pois eles trazem, ao mesmo tempo, um estudo criterioso e um texto didático, sobretudo quando se busca lecionar tais assuntos em cursos de graduação em áreas não ligadas diretamente à ciências sociais, politicas etc.

Um forte abraço,
Luiz Guilherme Paschoalini

astrolabioatelie.blogspot.com disse...

O Astrolábio Ateliê oferece gratuitamente o espaço para um lançamento digno do autor e próprio ao tema.
Quem sabe com desenho mesa-redonda/coquetel.
www.astrolabioatelie.blogspot.com
Rua Livi, 139 - Travessa da Rua Nazaré Paulista.

Marco Aurélio Nogueira disse...

Bom saber. Neste caso, seria bom ver com a editora. Obrigado.

Dora Kaufman disse...

Mesmo assim lamento não ter uma celebração do novo livro! é sempre um momento a ser celebrado com os amigos.
beijo,

Marco Aurélio Nogueira disse...

Concordo, Dora. Mas uma celebração precisa ter um objeto a celebrar que esteja à altura e que incendeie as pessoas, as mobilize. Não sei sinceramente se é o caso. Mas, quem sabe?

Olga disse...

Dois títulos...

Possibilidades,limites e seduções do poder e Potência, limites ...

A potência do poder está em suas possibilidades de concretizar-se... talvez?

Marco Aurélio Nogueira disse...

Olga:
puxa, vc percebeu uma falha gritante! O título do livro é o título do livro, o que eu escrevi foi um erro. Obrigado por me chamar atenção. A idéia de potência é mesmo a de possibilidade de se concretizar, daí provavelmente a confusão. Além do mais, tenho um outro livro, mais antigo, que se chama "As possibilidades da política". Perdi a potência diante de tantas possibilidades...
Abraço,Marco

André Henrique disse...

Professor, citei trechos do livro do professor no meu blog, espero que não tenha problema, aliás, muito bom o livro. O professor discutiu o poder em diversas modalidades, sendo fiel ao novo modelo de vida o qual estamos vivendo.
Estou pensando em criar uma seção nova no meu blog, fazer resenhas de livros e expor no blog em forma de links. O que o professor acha?
Já comecei pelo livro do professor, um do Bobbio sobre direita e esquerda e outra sobre globalização do Bauman!

Marco Aurélio Nogueira disse...

Salve, André! Vi teu blog, legal o comentário e as citações que vc fez do livro. Nenhum problema, claro!
Acho excelente a idéia de criar uma seção de resenhas. Será um trabalho muito útil e, quem sabe, vc poderá com ele incentivar alguns colegas a fazerem o mesmo, talvez abrindo espaço prá eles no próprio blog.
Abraço