sábado, 7 de junho de 2008

Para pensar


“A tendência predominante de nossa sociedade mostra a vingança histórica do espaço, estruturando a temporalidade em lógicas diferentes e até contraditórias de acordo com a dinâmica espacial. O espaço de fluxos dissolve o tempo desordenando a seqüência dos eventos e tornando-os simultâneos, dessa forma instalando a sociedade na efemeridade eterna. O espaço de lugares múltiplos, espalhados, fragmentados e desconectados exibe temporalidades diversas, desde o domínio mais primitivo dos ritmos naturais até a estrita tirania do tempo cronológico. Funções e indivíduos selecionados transcendem o tempo, ao passo que atividades depreciadas e pessoas subordinadas suportam a vida enquanto o tempo passa. Embora a lógica emergente da nova estrutura social vise à contínua suplantação do tempo como uma seqüência ordenada de eventos, a maioria da sociedade em um sistema global interdependente permanece à margem do novo universo. A intemporalidade navega em um oceano cercado por praias ligas ao tempo, de onde ainda se podem ouvir os lamentos de criaturas a ele acorrentadas”. [Manuel Castells, A sociedade em rede, p. 490].


“Graças a sua flexibilidade e expansividade recentemente adquiridas, o tempo moderno se tornou, antes e acima de tudo, a arma na conquista do espaço. Na moderna luta entre tempo e espaço, o espaço era o lado sólido e impassível, pesado e inerte, capaz apenas de uma guerra defensiva, de trincheiras – um obstáculo aos avanços do tempo. O tempo era o lado dinâmico e ativo na batalha, o lado sempre na ofensiva: a força invasora, conquistadora e colonizadora. A velocidade do movimento e o acesso a meios mais rápidos de mobilidade chegaram nos tempos modernos à posição de principal ferramenta do poder e da dominação. (...) [Nas condições sociais da modernidade líquida] o poder pode se mover com a velocidade do sinal eletrônico – e assim o tempo requerido para o movimento de seus ingredientes essenciais se reduziu à instantaneidade. Em termos práticos, o poder se tornou verdadeiramente extraterritorial, não mais limitado, nem mesmo desacelerado, pela resistência do espaço (...). O que quer que a história da modernidade seja no estágio presente, ela é também, e talvez acima de tudo, pós-panóptica. O que importava no Panóptico era que os encarregados ‘estivessem lá’, próximos, na torre de controle. O que importa, nas relações de poder pós-panópticas é que as pessoas que operam as alavancas do poder de que depende o destino dos parceiros menos voláteis na relação podem fugir do alcance a qualquer momento – para a pura inacessibilidade”. (Bauman, Modernidade líquida, p. 16-18).

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro Marco,

Este texto me fez lembrar a relação desenhada por Bauman entre o Panóptico e o Sinóptico. Se me permitr, trago o texto aos colegas do blog:

"Panoptico, o grande instrumento para manter as pessoas juntas no veio a ser conhecido como "sociedade' foi gradualmente substituido pelo Siniptico: em vez de poucos vigiarem muitos, agora são muitos que vigiam poucos. (...)O Panoptico representou a guerra de atrito contra o privado, o esforço de dissolver o rpivado no público, (...) O Sinoptico reflete o ato de desaparecimento do público, a invasão da esfera pública pela privada, sua conquista, ocupaçaõ e paulatina mas inexoravel colonizaçao. Invertem-se as pressões sobre a linha de divisão/conexão entre público e o privado." (Bauman, Em busca da política, p.77).

Abraços,
Luiz Guilherme Paschoalini

Marco Aurélio Nogueira disse...

Perfeito, Luiz. É um ótimo complemento.
Abraço