quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um Marx pouco conhecido e valorizado

“A separação momentânea é boa porque o contato constante faz com que as coisas se tornem muito monótonas, semelhantes e difíceis de serem distinguidas. Até as torres não parecem tão altas quando vistas de perto, ao passo que as coisas pequenas e cotidianas da vida crescem sobremaneira. Assim acontece com as paixões. Os hábitos tradicionais, que mediante a proximidade se apoderam do homem por inteiro e adquirem forma passional, desaparecem assim que seu objeto imediato perde-se de vista. As grandes paixões, que em virtude da proximidade de seu objeto se convertem em hábitos tradicionais, crescem e recuperam seu vigor sob a influência mágica da distância. Assim é com meu amor. Tal como o sol e a chuva quando agem nas plantas, o tempo só faz com que ele cresça. Meu amor por você, quando você está longe, surge tal como é na realidade: um gigante, que absorve toda a energia do meu espírito e todo o ardor do meu coração. Por sentir uma grande paixão, sinto-me de novo um homem.

A diversidade de temas em que o estudo e a cultura moderna nos enredam, tanto quanto o ceticismo com que necessariamente viciamos todas as impressões subjetivas e objetivas, têm o dom de nos tornar pequenos, fracos, ranzinzas e indecisos. Mas o amor – não o amor pelo homem feuerbachiano, não pelo metabolismo de Woleschott, não pelo proletariado, mas o amor pelo amorzinho, ou seja, por você – transforma novamente o homem em homem”.

[Marx, Carta a Jenny von Westphalen, 21/06/1856. Citada por Ernst Fischer, O que Marx realmente disse, Ed. Civilização Brasileira, p. 11]

11 comentários:

leonardoborges disse...

Muito interessante esta passagem que você postou aqui, professor. Além de ser um grande cientista social - que extrapolou os limites da ciência - Marx, nesta passagem, mostra que os psicólogos e terapeutas de hoje têm muito o que apreender com ele. Ouvi falar que ele escreveu alguns livros de poemas para a sua mulher. Se for verdade, e caso você tenha algum, gostaria que postasse, se não for abusar do seu tempo, rsrs.
Parabéns pela iniciativa do blog. Espero que não desista.
Abraços,
Leonardo

ze disse...

OLÁ PROF. NOGUEIRA,PARABENS PELA INICIATIVA
EM ESPECIAL POR APRESENTAR, DE CARA,UM ESCRITO DO MARX. COMO VEMOS ELE FOI BEM MAIS HUMANO DO QUE POSSAM PENSAR UNS E OUTROS.

Anônimo disse...
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remy disse...

Caro Marco Aurélio

Se é certo que o ambiente na rede está saturado e a dispersão é um risco para os que aí navegamos, mais certa é a necessidade de nela encontrarmos "food for thought". Tê-lo então como refinado chef, é a alegria de comensais de apetite pantagruélico destes alimentos que nos abastecem o espírito e nos motivam ao combate de tudo e contra tudo o que avilta o homem e avacalha a sociedade.

Salute camarada.

Remy J. Fontana

Gláucia Costa disse...

Olá meu amigo,
Há quanto tempo não nos falamos.
Marco, estou feliz pela iniciativa de criar um blog. Tenho certeza que será uma ótima experiência.
Sempre acompanhei seus artigos pelo jornal ou pelo email que você enviava. Agora fica ainda mais prático.
Um beijo e parabéns pela entrada no "universo on line".
Gláucia

Déia disse...

Professor,
o discurso amoroso de Marx é surpreendente. Mas, em algumas passagens, ainda concordo com Fernando Pessoa quando diz que "todas as cartas de amor são ridículas".
Abraços
Déia

Paulinha disse...

gostei do texto! aliás, bem propício pra mim no momento, né?!

Lucas disse...

A passagem de Marx que selecionei não é apenas uma reflexão sobre o amor. Também é válida quando a experiência da vida cotidiana é alterada: "o contato constante faz com que as coisas se tornem muito monótonas, semelhantes e difíceis de serem distinguidas". Somente em momentos de ruptura para com as dimensões de nossa vida contidiana nos tornamos capazes de observá-la como que de fora para dentro e de refletirmos sobre nós mesmos. Assim certos conteúdos de nossa experiencia ganham relevo.

Paulo disse...

Caro Professor Marco Aurélio, gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa do blog, prática distante da maioria dos docentes...acredito que o blog, desde que adotando um perfil de seriedade que notoriamente uma de suas características na atividade docente, possa oferecer um alternativa para um diálogo qualificado...meus sinceros cumprimentos pela iniciativa!

ponce disse...

Muito bom professor!!! Esta passagem enriquece muito nossas aspirações! O que achas de iniciar uma aula inicial com ela??? Assim eu não seria injusta contigo...
um abraço, e valeu pela iniciativa, estarei aqui me deliciando com seus escritos e comentários.
Priscila

Thais disse...

Oi Marco, tudo bem? Estou gostando muito de poder acompanhar os artigos postados, muito interessante. Em tempos de "amor líquido" Marx nos faz refletir sobre as relações interpessoais.Para mim fica a mensagem de que antes de cientistas somos humanos.
Parabéns pela iniciativa de socializar conhecimento e informações.
Um abraço,
Thaís Righetto