sábado, 9 de fevereiro de 2008

Mundialização, medo e insegurança

As idéias de “modernidade líquida” e de “vida líquida” estão firmemente associadas ao nome de Zigmunt Bauman, 82 anos, professor emérito das universidades de Leeds (Inglaterra) e Varsóvia (Polônia). Circulam amplamente e têm o mérito, entre outros, de ajudar a que se compreendam certos aspectos emblemáticos do mundo em que vivemos: a falta de controle, a insegurança estrutural e a grave redução das possibilidades de governo da sociedade, especialmente se isso for entendido como afirmação de uma racionalidade técnica todo-poderosa.

Bauman é um sociólogo pouco interessado nas regras metodológicas e nos ritos acadêmicos da sociologia. Seus textos são repletos de metáforas, não prestam reverência à produção mainstream e parecem estar o tempo todo buscando dialogar com o sofrimento, as dificuldades e as humilhações enfrentadas pelos homens e mulheres dos dias atuais. A vida cotidiana ocupa o centro mesmo de seus inúmeros livros e artigos, muitos dos quais traduzidos e publicados no Brasil.

Como ele mesmo observou em diversas entrevistas, escolheu estudar sociologia “convencido de que com ela seria possível mudar o mundo”, expectativa que se lhe impôs com grande força dramática quando retornou à Polônia destruída pela II Guerra, depois de ter se refugiado na União Soviética em 1939 para escapar das perseguições nazistas contra judeus e comunistas. Ainda que aquela convicção não tenha se confirmado e que muitas pessoas encontrem em seus livros argumentos para a adoção de uma visão pessimista da mundialização, Bauman jamais deixa de enfatizar que o estágio “líquido” em que nos encontramos produz muitas tragédias, mas também oferece inúmeras possibilidades de ação e de construção de novas e melhores formas de vida.

Bauman rompeu progressivamente com o dogmatismo marxista, ambiente no qual cresceu. Em 2002, falando para o jornal italiano Corriere della Sera, observou ser muito grato a Gramsci por tê-lo auxiliado neste empreendimento verdadeiramente existencial: “Devo muito a ele, por ter permitido que eu me afastasse condignamente da ortodoxia marxista. Sem vergonha por tê-la compartilhado e sem o ódio de tantos ex-marxistas. (...) Gramsci é fundamental porque refuta o determinismo segundo o qual, no marxismo oficial, os homens são somente bolas de bilhar, simples peças da história. Oferece uma visão flexível dos homens: somos criados pela história e, ao mesmo tempo, somos artífices da história. Aqui se pode encontrar também algo de Borges: a história é um livro que estamos escrevendo e no qual somos simultaneamente escritos”.

No último dia 27 de janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo, em seu Caderno Aliás, publicou uma ótima entrevista com Bauman. Realizada por Flávia Tavares via e-mail, ela nos fornece ricas pistas a respeito do mais recente livro do sociólogo polonês editado em português: Medo Líquido (Rio de janeiro, Jorge Zahar Editor, 2007). Vale a pena ler.

Leia a entrevista

8 comentários:

Bia Camargo disse...

Olá, Professor, tudo bem???
Fiquei sabendo do blog esta semana, por um amigo meu, e adorei sua iniciativa, mais uma maneira de fazer com que o conhecimento se difunda e ultrapasse todas as barreiras.
Acabei de ler a entrevista com o Bauman e adorei, eis um autor que o senhor me apresentou e sobre o qual aprendi a gostar e estudar.
Parabéns, Professor!!!

Marco Aurélio Nogueira disse...

Ótimo, Bia, muito obrigado pelo incentivo. Espero que o blog sirva prá isso mesmo que vc falou. Tendo idéias, por favor sugira!
Abraço

Luiz Guilherme disse...

Caro Marco Aurelio,

Sua iniciativa é muito importante para se criar um diálogo mais amplo com as pessoas.
Quanto ao Bauman, o conheci através de suas aulas e suas orientações, um autor interessante e inovador no campo da sociologia. Parabéns!!! Abraços, Luiz Guilherme Paschoalini

André Henrique disse...

Gosto de autores que estrapolam o "academicismo", que escrevam com erudição, mas sejam claros. Luto para ser assim, é uma batalha difícil.
No caso de Bauman, foi o melhor autor que li até agora, ao lado de Adam Przeworski, Castells e Tocqueville etc. Frisando o texto, a maneira de escrever, é o melhor texto que já li. O uso das metáforas de maneira conspícua e convincente, sem ser prolixo, muito bom.
Além disso, a temática é muito boa, falar de modernidade de uma maneira crítica, se desvencilhando de alguns clichês do século XIX. Gostei!

Olga disse...

Excelente a entrevista!
Diz Bauman:..." Medos emanam de absolutamente qualquer coisa: falta de estabilidade no trabalho, constantes mudanças nas regras do jogo da vida, fragilidade nas parcerias, falta de reconhecimento social, ameaças de epidemias, comidas cancerígenas, possibilidade de ser excluído do mercado, ameaças à segurança pessoal nas ruas. Os medos são muitos e diferentes entre si, mas eles alimentam um ao outro, formando um estado de espírito que só pode ser descrito como “insegurança geral”. Nós nos sentimos ameaçados, mas não sabemos exatamente de onde vêm as ansiedades... Os medos estão flutuando no ar. Os especialistas nos dão diagnósticos conflitantes - o que ontem parecia impossível é anunciado como iminente e inescapável hoje. Por isso, estamos sempre “psicologicamente prontos” para um desastre e imaginamos que o mundo seja um contêiner de perigos." ...

Psicologicamente prontos para vivenciar concretamente tudo o que nos mete medo, procura-se de todas as maneiras possíveis,evitar ou, pelo menos adiar a vivência desses medos. Mas é como Bauman diz, é do interesse de quem vende armas que combatem as causas do medo que ele seja alimentado e mantido. Vemos tantos exemplos disto acontecendo, acontece o tempo todo, com cada um de nós...
Não acredito que isso possa ser modificado; o medo da pobreza, da doença, da exclusão social, da humilhação e a ameaça de que de fato ocorram vão continuar e acho mesmo que a solução possível permanece na esfera pessoal: "... as explicações mais comuns para o sofrimento estão se distanciando dos fatores coletivos e se tornando referências pessoais." ... Porém, até da ação pessoal brota o fantasma do medo, já que obrigados a sanar no pessoal o que deveria encontrar solução no social podemos ser facilmente subjugados por nossa sombra e passar a buscar a justiça pelas próprias mãos, o que em geral é um grande desastre.

Olga disse...

Desculpe se meu comentário aparecer várias vezes, Marco. Eu não via o aviso de que ele estava esperando sua aprovação e por isso achei que o envio não tinha dado certo.

Um beijo da prima

Olga disse...

Marco,

Foi por ler sobre Bauman aqui, que eu o conheci. Gostei da maneira como ele vê as coisas, gostei muito mais ainda das metáforas que ele utiliza. Fui atrás dos livros dele e retirei o "Globalização ..." na biblioteca pública perto de casa. E gostei mais ainda do que encontrei lá, a maneira como ele fala do Homem,do viajante que tem turistas e vagabundos compondo as duas faces de uma mesma moeda, entendimentos valiosos para psicólogos, como sou.

Busco conhecer a alma do Homem através de todas os enfoques mas não havia lido nada de Sociologia até hoje. Bauman foi uma descoberta enriquecedora. Comprei o Medo Líquido e conforme for, lerei sobre todos as aspectos "líquidos" do Homem sob a ótica do interessantíssimo Bauman!

Marco Aurélio Nogueira disse...

Bauman é interessante mesmo, e fico feliz de tê-lo "apresentado" a vc. Como vc atua na psicologia e psicanálise, faço uma sugestão: leia também "O mal-estar na pós-modernidade", que talvez seja o livro mais ambicioso dele. Complementa muito bem os demais, para os quais fornece uma espécie de base preliminar de sustentação.