domingo, 11 de agosto de 2013

Corrupção para dar e vender




O PSDB e o PT prejudicam e rebaixam a democracia ao ficarem se pegando para saber quem é o mais puro e inocente, ou o mais corrupto. Deveriam se dar as mãos e selar um pacto para acabar com a farra, punindo quem tem de ser punido.
Ninguém pode posar de santo nessa seara. A corrupção é uma maldição nacional. Vem antes de Collor. Sarney governou sendo acusado de distribuir emissoras de radio e TV. Houve os anões do orçamento durante a Presidência Itamar. Passou por FHC, que comprou votos para se reeleger. Lula foi premiado com o mensalão. E Dilma demitiu Palocci e outros tantos por problemas na área.
No plano estadual, os tucanos paulistas achavam que seria possível escapar da praga. Santificaram Mario Covas e foram em frente. Antes deles, ou quando eram todos peemedebistas, as coisas eram brabas. Sempre houve rumores de que havia algo. Agora, o estrondo veio forte.
Não vai parar por aí. Já estão falando que depois do trem tucano, vem um montão de coisas ruins envolvendo o PMDB. E nem chegamos em 2014.
Enquanto ficam todos desmentindo os fatos, e acusando-se reciprocamente, a política vai-se emporcalhando e vai crescendo a imagem popular de que, no fundo, todos eles são iguais e não valem nada. Exceção feita, claro, ao mandão bonzinho, que distribui migalhas para os pobres.
A situação hoje talvez não seja pior do que antes, tipo na República Velha ou nos anos militares. Nunca pesquisei, e não tenho dados. Mas é certo que hoje todo mundo sabe fica sabendo dos trambiques com mais facilidade.
Não aceito que só a Justiça possa fazer a diferença. Sou contra a tribunalização ou a judicialização, ainda que entenda sua existência. A cidadania ativa é decisiva. Os eleitores podem caprichar mais nas escolhas. E os partidos devem fazer alguma coisa, assim como os governos.
Corrupção não é coisa para se converter em matéria prima de disputas eleitorais. Ainda que seja impossível evitar que isso ocorra.
Por isso, deixo aqui a precisa e contundente passagem do artigo de Élio Gaspari em O Globo de hoje.
"Para o PT o julgamento do mensalão é uma armação. Para o PSDB, na investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica em torno do propinoduto alimentado por grandes empresas de equipamentos em São Paulo, o órgão vem "se comportando como polícia política". As duas condutas são radicalizações teatrais que tentam blindar hierarcas metidos em maracutaias. Comissários e tucanos precisam refletir sobre o ensinamento do presidente americano Richard Nixon, que foi obrigado a renunciar por causa do escândalo Watergate: "Não é o crime que te ferra, é a tentativa de encobri-lo".
Todos os condenados do mensalão são réus confessos (segundo eles, de crimes leves e prescritos). No caso dos cartéis formados em São Paulo e Brasília, a documentação reunida pelo Cade é devastadora. Para acreditar que os transportecas não soubessem de nada, seria necessário que fossem tão ineptos a ponto de provocar um descarrilamento por semana”.
Quem há de negar, ou divergir?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A mulher de Cesar





A investigação sobre formação de cartel em licitações do Metrô paulista e a suspeita de pagamento de propina a tucanos detonou uma guerra entre o PT e o PSDB com foco nas eleições de 2014. Os dois partidos mobilizaram suas estruturas no Congresso e em São Paulo para se atacar mutuamente e tentar atingir os projetos de reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e da presidente Dilma Rousseff (PT).
Tá certo. Ao abrirem mais uma batalha para ver se definem qual dos dois é o mais corrupto, PT e PSDB continuam a prestar um desserviço à democracia.
Primeiro, porque rebaixam a política a níveis extremos de mediocridade e autismo, tudo em nome de um conflito eleitoral que nada tem de projeto ou de dignidade substantiva. O pessoal que gosta de sangue e que acha que política é embate a-que-preço-for está feliz da vida: finalmente “voltou o esforço para distinguir e esclarecer”.
E segundo, porque ao final da guerra PT e PSDB chegarão onde todos já sabem: ambos serão vistos como igualmente venais, mas dirão que não o são.
Hoje, especialmente em política, não adianta alguém dizer que é (ou parecem sê-lo), é preciso ser de fato. Como a mulher de Cesar.
Para quem não lembra da história, consta que em 60 a.C o poderoso Júlio Cesar absolveu sua mulher Pompeia da acusação de adultério dizendo que não levava em conta o que se dizia dela, mas sim o que era ela. Pompéia foi para o ostracismo, e ninguém até hoje sabe o que aconteceu naquele longínquo ano. Desde então, ficou a expressão “À mulher de Cesar não basta ser honesta, é preciso que pareça ser honesta”.
A favor de Pompeia, fica o fato de que era linda, sexy e sedutora. Coisa que não pode ser dita nem do PT, nem do PSDB.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Os democratas e as minorias




Os democratas brasileiros, que integram diferentes partidos, classes sociais e correntes (liberais, petistas, tucanos, socialistas, comunistas), deveriam estar mais articulados entre si. Quem sabe até mesmo unidos. Por vários motivos, mas sobretudo porque a sociedade ganharia muito com isso.
Se assim fosse, seria mais fácil fazer a crítica política dos governos, dar a cada um deles a devida cota de responsabilidade e ajudá-los a sair do cerco em que se encontram. Daria para avançar na reforma política e no equacionamento dos problemas estruturais que rebaixam a qualidade de vida dos brasileiros. Seria possível caminhar firme para o saneamento da República e a instalação no país de uma democracia plena, aberta à participação popular e à sociedade civil.
O Brasil está hoje em um ponto de inflexão. Se os protestos de junho disseram alguma coisa foi isso: tudo precisa ser diferente a partir de agora. Se será, não dá para saber. Mas seria bom se pudesse ser. O país não vai bem. O discurso positivo dos governos é desmentido cotidianamente pelos fatos. Há uma sensação de urgência instalada na sociedade, ainda que não se tenha uma tragédia à vista.
Se uma crítica deve ser feita à Presidência é a de não ter tido a ousadia de chamar as forças políticas do país para uma negociação em alto nível. Ela falou em “pactos”, mas não propôs nenhuma pactuação. Defendeu a necessidade da reforma política, mas não propôs nenhuma reforma concreta. Ficou sem condições de produzir consensos, pois os detalhes de uma proposta de reforma é que podem agregar. Travou o debate, em vez de facilitá-lo. Ocorreu algo parecido com as medidas destinadas a reformar a Saúde: elas têm mérito e mais acertam do que erram, mas foram propostas de cima para baixo, sem mediações. O governo pode avançar no terreno, mas terá de reformular seu discurso.
A ideia de reforma política está posta já faz tempo. É um erro banalizá-la ou combatê-la. O país necessita de outro sistema político, com outras regras, outros vetos e incentivos. Os democratas não deveriam gastar energia para fazer elogios fáceis ao governo Dilma ou para criticá-lo de modo acerbo. Seu papel é anunciar as mudanças de que o país necessita. Não podem ficar em silencio, cada qual em seu canto, assistindo à desagregação do processo político e sem contribuir para que se aproveite de forma positiva o momento excepcional em que está a sociedade.
A eleitoralização do debate – a redução dele ao lengalenga primitivo de PT vs. PSDB – é inimiga dos democratas. Para eles, o melhor é que o governo Dilma seja capaz de administrar a crise. Tal como a presidente, os democratas acreditam na inteligência dos brasileiros. Por isso, não aceitam que o povo seja convocado para decidir o que quer que seja sem que possa discutir. Se a intenção é fazer uma consulta popular que forneça o espirito de uma reforma democrática, o debate público é essencial. Não ocorrendo, a decisão será por palmas ou vaias, ao sabor da força sedutora de lideranças e campanhas publicitárias. Por ter inteligência, o povo quer espaços de reflexão, diálogo e debate democrático.
Uma reforma política feita com debate público e participação popular é a joia da coroa. Não se deveria estragá-la.
A articulação política dos democratas seria decisiva, também, para que se enfrentasse o problema das minorias. As maiorias avançam, fazem sentir sua voz e se democratizam. Mas o que fazer com as minorias, como assimilá-las, respeitá-las, atendê-las, e enfrentá-las se necessário for?
As minorias são, por princípio, merecedoras de toda justiça social. Algumas lutam por identidade e reconhecimento. Outras querem mais espaço e mais oxigênio. São como o sal da terra: estão aí para que as maiorias lembrem que desigualdades, injustiças e diferenças existem e precisam ser enfrentadas.
Mas o que fazer com as minorias do mal? Com aqueles, por exemplo, que deformam a política do confronto de ideias para estigmatizar os que pensam diferentemente deles, valendo-se de discursos hiperbólicos para jogar grupos contra grupos, taxando uns de “elitistas” e outros de “amigos do povo”?
Uma categoria muito pior é a dos que se agrupam para pressionar e humilhar as maiorias, ou pessoas que integram as maiorias. Orgulham-se de si próprios porque acham que é assim, com violência, que “a história avança”. Não querem confluir para nenhuma maioria, porque acham que as maiorias são passivas e “dóceis”. Infiltram-se no meio das multidões para desmoralizá-las. Usam máscaras porque precisam de identidade, o que é paradoxal.
Mascarados que batem e quebram não são progressistas. Nem muito menos radicais da democracia. Porque democratas radicais não agem às escondidas, na calada da noite. Não humilham e nem coagem trabalhadores. Não usam da violência, sequer da verbal. Não usam máscaras, pois não são clandestinos de si próprios.
As minorias do mal não serão vencidas com cassetetes, balas de borracha ou prisões. O único jeito de confrontá-las é com a inteligência e a firmeza do gestual dialógico. Hoje é tempo de assimilar os que se apresentam como exterminadores vindos do futuro mas têm raízes nas terras ancestrais da humanidade primitiva. Só a democracia pode isolá-los.
Os democratas sempre querem defender, ampliar e revitalizar a democracia. É o que os une. No Brasil, isso passa pelo reconhecimento de que o sistema existente atingiu um ponto de saturação e esgotamento.
Os democratas não são da situação nem da oposição. Estão nas ruas e nos palácios. Não aceitam a indigência teórica das oposições, sua mesquinhez e seu alheamento em relação às exigências da hora presente. Também não aceitam a arrogância e a paralisia propositiva do PT e do governo, sua recusa de assumir a coordenação política do país.
Os democratas estão por aí e deveriam demarcar com clareza sua presença. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/07/2013, p. A2].

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Esquerda democrática, militantes e legados



Vale a pena explorar o efeito e a relevância que as teses democráticas de Armênio Guedes tiveram para a sociedade, a esquerda e a política brasileira
São Paulo, agosto 2010

Se o melhor comunismo -- democrático, de massas, flexível e politicamente lúcido -- pode ser simbolizado por algumas pessoas, Armênio Guedes ocupará lugar de destaque entre elas. Eis alguém de quem me orgulho de ser amigo. Quando o conheci, em 1980, ele era um experiente quadro do PCB. Fizemos juntos o jornal Voz da Unidade, ao lado de companheiros saudosos como Gildo Marçal Brandão e David Capistrano da Costa Filho, e de tantos outros.
Hoje, aos 95 anos, Armênio continua ativo e exibe a mesma lucidez política daqueles anos.
Por tudo o que ele simboliza e pelo papel que teve na elaboração democrática dos comunistas, Armênio é uma fonte e uma referência para o estudo crítico da política brasileira. Trata-se de uma lenda viva da esquerda comunista. Figuras como ele são imprescindíveis nesses tempos difíceis que atravessamos.
Saúdo com entusiasmo, por isso, o belo artigo que Luiz Sergio Henriques escreveu no Estadão  de hoje a respeito dele. O texto serve, também, como registro e apresentação do livro biográfico preparado pelo jornalista Sandro Vaia (Armênio Guedes. Sereno guerreiro da liberdade. Barcarolla, 2013). Um título que diz muito sobre o personagem.
Luiz Sérgio, que é um escritor de fino traço e uma das mentes mais arejadas e rigorosas da esquerda brasileira, faz uma bela homenagem ao legado de Armênio. Não se trata de louvação ou apologia, mas de diálogo crítico. Como não poderia deixar de ser, explora o efeito e a relevância que as teses democráticas de Armênio tiveram para a sociedade, a esquerda e a política brasileira, não tanto para o PCB em particular, pois o partido nem sempre soube ou teve como assimilá-las plenamente ao longo do tempo. Como Armênio participou intensamente da história política brasileira e acompanhou as principais discussões da esquerda no século XX, seu modo de fazer e de pensar política é pedagógico, carrega muitos ensinamentos e sugestões preciosas.
Como observa Luiz Sérgio, o livro de Vaia “convida simultaneamente a uma reavaliação do passado e a uma tomada de posição no presente” -- esta última sempre difícil, tensa e parcial. Legados importantes ajudam muito, ainda que não resolvam as dificuldades. De algum modo, fornecem-nos parâmetros para a abordagem dos “problemas um tanto opacos do presente”, especialmente opacos hoje, aliás, porque nos movemos num mundo em que a virtualidade se tornou real, reinventa a humanidade mesma do homem e difunde discursos e linguagens polissêmicas o tempo todo, sugerindo sem cessar a imagem de que a democracia pode ser vivida sem mediações institucionais ou organismos estáveis de representação. A ideia de que se tem aí, ao alcance da mão, uma “ágora eletrônica”, de que basta abrir espaços para que a população se manifeste e indique o rumo a seguir, de que toda crise é uma oportunidade de avanço pela esquerda, mesmo que sem projeto coletivo — essa ideia contém muito de incerteza, risco e romantismo, ainda que também de virtude. Para que a virtude prevaleça sobre a incerteza, a leitura realista das possibilidades abertas pela democracia e pela conflitualidade social é essencial.
O fato de se ter, hoje, de fazer política com outros ingredientes torna indispensável a apropriação crítica da história e dos legados. No mínimo para que não se percam os fios da história, mas também porque tudo, no fundo, é construção dialética: inovação, incorporação, superação.
Como escreveu Luiz Sérgio, “o caminho da fidelidade às regras do jogo democrático, como poderia ter sido em 1964 e como se patentearia nos anos da resistência, continua a ser a via mestra das mudanças substantivas, sem aventuras ou saltos no escuro. No velho PCB, em circunstâncias muito mais difíceis, pôde germinar um reformismo como o de Armênio Guedes. A esquerda hegemônica, hoje, está desafiada a fazer o mesmo”.
O artigo pode ser lido na íntegra aqui.