segunda-feira, 9 de junho de 2014

Decálogo sobre a Copa e o futebol




Faltam três dias para o início da Copa do Mundo de futebol. Expectativas esportivas, políticas e sociais cruzam-se no ar. Como iremos certamente falar muito do tema, pensei em fazer aqui, por escrito, uma reflexão, dizendo o que penso sobre o evento. Com isso, tento me blindar um pouco dos chatos e dos patrulheiros de plantão, que não conseguem ler ou ouvir qualquer palavra sobre a Copa sem imediatamente estigmatizarem quem fala. Para eles, hoje, torcer ou não, aplaudir ou vaiar um jogo de futebol, virou atitude política e ideológica.
1.      Não torço pela seleção brasileira de futebol. Nunca torci. Quer dizer: torci em 1970 porque eu e meus amigos – e a maioria do povo de esquerda – achamos que era preciso “disputar o evento com a ditadura”. Naquele ano, a propaganda juntava conquistas esportivas com “milagre brasileiro“, uma estratégia de legitimação. Era época dos “noventa milhões em ação, pra frente Brasil”. Não dava prá aceitar, e fomos para a rua. Também torci em 1982, porque naquele ano a seleção jogou futebol de verdade e porque havia Sócrates, Zico e Falcão. Tirando esses dois momentos, nunca me identifiquei com a seleção. Sempre me deu tédio assistir às suas apresentações e sempre deplorei o excesso de marketing, de firula, de nacionalismo fake e de oba-oba que cercaram e continuam a cercá-la, algo que me pareceu sempre desproporcional ao que jogavam e jogam de fato os jogadores. O jeito brasileiro de jogar nunca se me afigurou como uma escola de futebol.
2.   Rejeito o “patriotismo” de circunstância dos que torcem pela seleção. Com sangue verde-e-amarelo nas veias, mostram-se incapazes de respeitar as demais seleções e de reconhecer a alta qualidade do jogo em outros países.  Entendo a paixão futebolística, mas nesse caso não é disso que se trata. É uma espécie de postura de resgate do orgulho pátrio – afinal, temos de ser “melhores em alguma coisa” –, que não me diz respeito. Não somos o “país do futebol”: somos muito mais do que isso. No caso da seleção, o povo gosta mesmo é de fazer festa e zoar; não derrama lágrimas à toa.
3.   O brasileiro acha que futebol é um esporte que depende do estalo de genialidade de um ou outro Garrincha, de um novo “rei do futebol”. Não valoriza esquemas táticos, disciplina, preparo técnico, estudo e espírito coletivo, debochando das escolas que primam por isso, como é o caso da Argentina, da Espanha e da Alemanha. Nossos atletas são predominantemente simplórios em qualquer quesito que se queira. Toscos. Alguns poucos se distinguem, mas no conjunto não passam de boleiros. Futebol, em minha opinião, deveria ser praticado por times que reúnam talentos individuais, disposição tática, transpiração e entrega coletiva. Raramente temos isso no Brasil. O componente de “azar” que existe no jogo em si é ineliminável, e ajuda a fazer a graça da coisa.  Mas não pode servir de base para que se avalie a qualidade dos times ou se justifique o resultado das partidas. Pode-se dizer o mesmo dos fatores imponderáveis ou externos ao jogo (clima, temperatura, fuso horário, altitude, árbitros).   
O brasileiro gosta da beleza do jogo, até mais que do placar final. E quanto mais a seleção foi praticando um futebol de resultados, mais o povo foi-se desinteressando dela. Paulo Calçade, cronista do Estadão, escreveu hoje: “Desenvolvemos uma relação antropofágica com a seleção, bem diferente da maneira como vemos e percebemos os clubes. Pode ser em função do distanciamento dela em relação ao povo, da péssima imagem de seus cartolas ou até da carência de conteúdo no jogo nosso de cada dia. Quando o Brasil entra em campo, então, é para exibir o suprassumo da beleza”. Bem escrito e bem posto.
4.   Para mim, paixão futebolística se tem pelo clube do coração. E basta. No futebol, sou corintiano, não brasileiro.
5.    A seleção brasileira atual é medíocre, no sentido exato da palavra: não é nem muito boa, nem muito ruim. Média. Tem bons jogadores, mas nenhum gênio, por mais que busquem apresentar Neymar como tal. Joga para não perder, não para encantar. Não tem ousadia. Seus armadores são burocráticos. Privilegia brucutus e gente que abaixa a cabeça para o técnico e gosta de simular faltas em nome da malandragem. Felipão é um técnico medíocre, que se segura no fato de ser um “motivador” e de compor com os jogadores uma “família” de atletas obedientes e bem-comportados. Como disse o Luís Fernando Veríssimo na sua crônica de 08/06/2014 (Estadão e Globo), “o segredo do sucesso do Felipão é que ele é um jogador de damas. Não é um estrategista. Não tem esquemas brilhantes nem manobras com nomes de gênios russos. Em suma, não é um jogador de xadrez. É um simples no melhor sentido”. Veríssimo acha que precisamente por isso ganhará a Copa. Pode até ser. Espero que não, pois isso terminaria por consagrar um estilo que não leva ninguém muito longe estraga o jogo.
6.   Penso que foi uma decisão ruim trazer a Copa para o Brasil. Desperdício de grana e de energia, com pouco retorno efetivo. Mas não acho que se deva, em nome disso, usar o evento para criticar o governo federal, o PT ou os governos estaduais e municipais que se envolveram. Além de ser meio ridícula, pois postula algo impraticável, a campanha “não vai ter Copa” é oportunista. Assim como são oportunistas os movimentos que tentam pegar carona na visibilidade do evento. Nada contra, que todos se manifestem. Nosso problema não é certamente ter a Copa no Brasil, mas sim o modo como ela foi aqui organizada. Devemos separar bem as coisas.
7.    No que me diz respeito, torço para que tudo funcione. Ninguém ganhará se as coisas falharem, se os estádios caírem, se seus entornos ficarem sem a devida urbanização ou se os transportes entrarem em colapso. Seria péssimo, para o futebol, e sobretudo para a política e a democracia, se se trabalhasse para criar uma crise por causa da Copa. Nada contra que se apurem responsabilidades, que se critique o modo como se organizou o evento, o desperdício, o que seja. Mas qualquer governante, de qualquer partido ou época, teria feito mais ou menos o mesmo. Lá atrás, Lula fez uma aposta razoável, calculando que o país se projetaria, ganharia uma vitrine importante, mostraria sua força e seu engenho organizacional. Fosse outro o presidente, provavelmente teria pensado do mesmo modo. (Na cerimônia da FIFA que anunciou a sede da Copa, a delegação brasileira incluía políticos de todos os partidos, e todos eles vibraram com a decisão.). Houve erros de cálculo e de encaminhamento depois, porque o evento escapou do razoável e foi transformado em fato político e geopolítico pelo próprio governo e pelas oposições. Aí muitas coisas saíram dos eixos. Estádios em locais que não conhecem o futebol, improvisação por todo lado, atrasos absurdos, muito dinheiro saindo pelo ralo, exigências descabidas, uma lógica complicada e desnecessária para o certame, com 12 estádios e muitas viagens pelo país todo. As próprias expectativas ficaram artificialmente inflacionadas. E como tudo foi indevidamente politizado, a sociedade refluiu e se desinteressou. Tentou-se fazer da Copa uma espécie de guerra: aqui não se poderá mais perder. As pessoas não se engajaram nessa filosofia.
Espanta que não se entenda “como isso foi acontecer” e se prefira atribuir o fato ao “mau humor reinante” ou ao hábito brasileiro de “falar mal de tudo”. A verdade é que as pessoas perceberam que a Copa simplesmente não é a salvação da lavoura. Irão assistir aos jogos e até mesmo torcer, mas sem muita empolgação. Hoje, o povo brasileiro tem mais motivos para se orgulhar do que a seleção brasileira: aprendeu a se ver como maior do que ela, até porque a vida ficou mais complexa e passou a ter elementos de mobilização e identificação. Como haverá festa geral, feriados à mancheia e torcidas organizadas pelos patrocinadores, um clima acabará surgindo. Muita gente vestirá uma camisa amarela e sairá por aí. Ficará a sensação de que “finalmente o brasileiro acordou”, mas será uma sensação superficial. Independentemente disso, haverá bons jogos e poderemos nos divertir um pouco.
8.   Seja como for, a Copa continua a ser basicamente um evento esportivo. Não beneficiará nem prejudicará governo ou oposição. Não terá efeito eleitoral. É neutra, deste ponto de vista, por mais poeira que se queira levantar. O máximo que poderá produzir será um pouco mais de caos no já gigantesco caos nosso de cada dia. Se o fiasco for enorme, o que não parece provável, haverá um tribunal ou uma CPI para apontar os culpados. Por sorte, a FIFA estará pronta para funcionar como bode expiatório. No plano esportivo stricto senso, não será nenhuma desgraça se a seleção perder a Copa em casa. Será, ao contrário, o reconhecimento de que existem hierarquias no futebol e que campo, dinheiro e torcida não bastam para fazer um campeão.
9.     Há, porém, uma dimensão política na Copa que me atrai. Ela diz respeito ao futebol brasileiro e ao modo como ele é jogado, organizado e dirigido. Tem a ver, portanto, com clubes, cartolas, jogadores e CBF. Nunca estivemos tão ruins. O jogo é de baixíssima qualidade, o nível, o profissionalismo e o preparo dos jogadores são precários, os cartolas são patéticos e corruptos, a CBF é tão ruim que sequer dá para descrever.  O sistema é organizado de modo sofrível, contra a população e a serviço exclusivo do mercado da bola. As partidas são tristes, há excesso de faltas, poucos gols, os campeonatos são pessimamente organizados, as torcidas se afastam dos estádios. Um espetáculo de horror. Se a seleção ganhar a Copa, toda essa situação (com a corja que a põe em movimento) ganhará fôlego, um padrão de jogo será legitimado, os cartolas continuarão intocáveis. Se perder, algo poderá mudar, ainda que não seja certo que mude. O declínio da arrogância, de qualquer modo, ajudará a que se aceite o futebol como ele é. Será uma glória ver a cara de tacho de alguns cartolas e dos chefões da CBF, o tatibitate de treinadores e boleiros tentando explicar o acontecido.
10.  Ainda que não vá torcer por ninguém – mas somente para que a seleção brasileira não ganhe –, tenho minhas preferências. A sempre simpática Holanda é a maior de todas as injustiçadas. Já deveria ter sido campeã em 1974 e 1978. A Espanha resgatou o encanto do futebol. A Argentina é admirável pela raça e pela qualidade. A Alemanha aprendeu a unir força, talento e criatividade. Essas quatro jogam muito mais do que a seleção brasileira atual. Em boa medida, fornecem a ela um modelo de jogo para o futuro. Mas não descarto que o Brasil chegue à final e conquiste o hexa. Só não acho provável e torço para que isso não aconteça. Se acontecer, paciência. Não ficarei triste nem decepcionado.
Gosto muito de Copas. Assistirei a todos os jogos que puder, discutirei com amigos brasileiros, espanhóis, mexicanos e italianos, como tenho feito em todos os últimos Mundiais. Por puro deleite e também por interesse sincero em um esporte que está entre os mais belos e emocionantes.
E que vença o melhor.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Umberto Eco. Por que as universidades?



Laurentius de Voltolina - Medieval Classroom. Henricus de Alemannia con i suoi studenti in Bologna c. 1350-60

Tive a oportunidade de ler, no último fim de semana, o discurso que Umberto Eco proferiu em 20 de setembro de 2013, na Aula Magna de Santa Lucia, Universidade de Bolonha, Itália, por ocasião das comemorações pelos 25 anos da Magna Charta Universitatum.
O discurso tem belas ideias em defesa do valor e da relevância cultural das universidades no mundo contemporâneo. A principal hipótese é que a instituição universitária contribui de forma decisiva para a defesa inteligente da memória social e para a construção de identidades culturais.
O discurso pode certamente ser contestado ou criticado em uma ou outra de suas passagens, até mesmo por se tratar de uma proposição clássica, que trafega na contramão do main stream em que se vive dentro e fora da vida universitária. Mas seus pontos centrais são poderosos, e ricos de possibilidades.
O texto original pode ser encontrado em http://www.disf.it/files/eco-perche-universita.pdf.
Fiz a tradução e a reproduzo abaixo. Dada particularmente a situação por que passam as universidades estaduais paulistas, penso que a leitura do texto pode ser útil.

Por que as universidades?
Umberto Eco

Em setembro de 1988, 388 reitores provenientes de toda a Europa e além, firmaram a Magna Charta Universitatum. A partir de então, aquele texto se tornou o ponto de referência essencial acerca dos valores e dos princípios fundamentais da instituição universitária.
A despeito dos mass media, frequentemente críticos do papel da universidade em um mundo em que a Web parece perto de suplantar as velhas instituições de formação, creio que a função da universidade é hoje mais relevante do que nunca.
Vivemos um momento histórico em que, não obstante a já longa vida da União Europeia como instituição, em muitos países da Europa há quem duvide que a criação da unidade econômica por meio de uma moeda única seja suficiente para desenvolver e sustentar a ideia de uma identidade europeia.
Gostaria de lembrar que a ideia mesma de uma possível identidade europeia nasceu em 1088, com a fundação da primeira universidade do mundo ocidental, a Universidade de Bolonha. Naquela época, a Europa era somente uma expressão geográfica que designava a porção central do universo conhecido, seguramente mais destacada do que as ainda místicas terras da Ásia e da África. A Europa de então, porém, não portava valores políticos ou culturais. Havia o Sacro Império Romano, encarnado por Federico Barbarossa; havia a Igreja de Roma, havia os reinos da França e da Inglaterra, em feroz competição entre eles, e os pequenos reinos da Espanha, em luta contra o domínio árabe; as primeiras Repúblicas marítimas e as primeiras comunas na Itália, e o primeiro núcleo da Liga Hanseática: todos divididos por interesses e idiomas diversos e unidos somente por um língua veicular, o latim medieval, que todavia era falado exclusivamente pelos eruditos.
Foi precisamente sobre aquela plataforma cultural que nasceram as universidades, único caso de migração pacífica de estudiosos e estudantes: os clérigos itinerantes, que se deslocavam de ateneu em ateneu, de nação em nação, de tal modo que nos séculos vindouros encontraremos Erasmo, Copérnico, Goffredo de Vinsauf, Paracelso e Dürer em Bolonha, e Buonaventura e Tomás de Aquino em Paris. Todos falavam a mesma língua, os problemas debatidos pelos averroístas em Bolonha eram os mesmos discutidos na Faculdade das Artes em Paris, e Marcilio de Padova dissertava com Guilherme de Ockam e Giovanni de Jundun sobre questões políticas de importância capital para o Império germânico.
As universidades formaram assim o primeiro núcleo de uma futura identidade europeia; a Europa das universidades deixou de ser somente uma expressão geográfica para se tornar uma comunidade cultural.
Chegando aos nossos dias, e pensando na globalização (fruto inegável de numerosos desenvolvimentos políticos, militares, científicos e tecnológicos), não devemos esquecer que foi através das redes universitárias que Fermi e seus colegas italianos fizeram com que os resultados de suas pesquisas chegassem aos Estados Unidos, assim como Einstein reuniu as experiências científicas europeias e americanas das três universidades de Berna, Berlim e Princeton.
Creio que estas breves recordações são suficientes para que se responda à questão “por que as universidades?”. Nos últimos novecentos anos, elas têm sido a matriz de uma identidade internacional e artífices dos capítulos mais criativos na história da cultura ocidental.
Podem ainda ter um papel no mundo globalizado de hoje?
Antes de responder permito-me fazer uma citação bíblica.
No primeiro livro dos Reis, capítulo 19, quando Elias se encontrava na caverna do Monte Horebe e foi então chamado à presença do Senhor, “veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas”; mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. Não se pode encontrar Deus no rumor; Deus somente se manifesta no silêncio. Deus não está nos mass media, jamais está nas primeiras páginas dos jornais, jamais está na televisão ou na Broadway. Deus está onde não há agitação.
Esta máxima também vale para quem não crê em Deus mas pensa que em alguma parte exista uma Verdade a ser descoberta, um Valor a ser criado. Não se podem encontrar verdade e criatividade em um terremoto, somente em uma pesquisa silenciosa.
No tumulto do mundo atual, os únicos locais de silêncio, ao lado das sedes de meditação religiosa, são as universidades. Elas ainda fazem parte daqueles poucos lugares em que é possível um confronto racional entre diversas visões do mundo. Espera-se que nós, universitários, combatamos – sem fazer uso de armas mortais – a interminável luta pelo progresso do saber e da pietas. [Para lembrar: o romano ideal deveria possuir três traços típicos: a virtus, um conjunto de qualidades morais; a fides, fidelidade e respeito; e a pietas, um conjunto de regras de conduta e obediência. A pietas sintetizaria as demais. N. do T.]
Não sou ingênuo a ponto de esquecer que o conhecimento não traz automaticamente paz e misericórdia: a história nos mostrou como as pessoas podem amar Brahms ou Goethe e ao mesmo tempo serem capazes de organizar campos de extermínio. Mas essas mesmas pessoas, antes de consumarem a sua solução final, tiveram de perseguir as universidades, uma a uma, subjugar todas as mentes críticas: a universidade sempre representa um perigo para qualquer gênero de ditadura.
Não raramente, grupos de acadêmicos deram apoio ao colonialismo, ao racismo e à intolerância. Isto não elimina que é precisamente no leito das universidades ocidentais e das academias que o mundo moderno concebeu um novo modo de abordar as culturas e as civilizações, que recebeu o nome de antropologia cultural. Foi graças aos estudos dos antropólogos culturais do século XIX (que por sua vez se remetiam a ideias introduzidas por Montaigne, Locke e pelos filósofos do Iluminismo) que hoje sabemos da existência de outros modelos culturais, autônomos e orgânicos, que são reconhecidos, compreendidos em sua lógica interna e respeitados. A antropologia cultural, substituindo o conceito de raça pelo de cultura, trabalhou em profundidade para que nos tornássemos mais conscientes das demais culturas e do direito que cada cultura tem de sobreviver.
A antropologia cultural não mudou o mundo. Enquanto os antropólogos nos ensinavam a reconhecer e respeitar comportamentos culturais, religiões e costumes étnicos diversos dos nossos, o mundo ocidental fabricava os Protocolos dos Sábios de Sião, ao passo que os primeiros meios de comunicação, por intermédio dos romances populares e dos filmes de Hollywood, difundiam a ideia do Outro como Mau: o indígena feroz, o negro estúpido condenado a um destino de eterna escravidão graças à sua irremediável inferioridade, o chinês com o rabinho de cavalo, etc.
Simultaneamente, porém, os mesmos estereótipos eram desmontados no interior do ambiente universitário.
A universidade ainda é o lugar em que podem proliferar confrontos e discussões, ideias melhores por um mundo melhor, o reforço e a defesa de valores fundantes universais, não ordenados nas estantes de uma biblioteca, mas difundidos e propagados pelos meios os mais distintos.
A universidade é uma Força de Paz! Basta pensar no projeto Erasmus, que prevê a criação de uma nova rede internacional de clérigos itinerantes, os quais frequentemente se casam entre si, preparando assim, ao menos na Europa, uma nova geração de cidadãos bilíngues, imunes às seduções de qualquer tipo de nacionalismo.
Mas permitam-me mencionar, a propósito dos deveres da universidade hoje, duas tarefas que considero urgentes e fundamentais.
Com frequência nos é dito que um dos riscos a que nos expomos e que cresceu com os mass media, especialmente entre as gerações mais jovens, é o de uma crise da memória histórica. Sem memória não há sobrevivência. As sociedades sempre se valeram da memória para conservar sua identidade, desde quando os anciãos das tribos sentavam-se noite após noite embaixo de uma árvore para narrar as ações gloriosas dos antepassados.
Quando, com um ato de censura, cancela-se uma parte da memória social, a sociedade entra em crise de identidade.
Neste sentido, as universidades ainda são locais em que as memórias comuns podem ser inventariadas e conservadas.
A memória não é somente inventário, é também filtro. A memória histórica não é feita somente daquilo que acreditamos ser importante recordar, mas também daquilo que pensamos dever ser esquecido.  Uma de suas principais funções é a de operar como uma espécie de peneira.
Uma cultura, enquanto memória histórica, não é somente um depósito de dados: é também o resultado de sua filtragem e das capacidades que temos de descartar tudo o que consideramos inútil ou não indispensável.
A história de uma civilização é feita de milhões de dados que foram sepultados. Frequentemente nos damos conta de que este processo comportou uma perda e de que, para recuperar as informações desaparecidas, são necessários séculos. Nossos antepassados gregos tinham perdido a memória da matemática egípcia e a Idade Média não recordava boa parte da ciência grega. Analogamente, nós hoje nos esquecemos do significado das estátuas da Ilha de Páscoa e muitas das tragédias citadas por Aristóteles na sua Poética perderam-se para sempre.
Apesar disso, exceção feita a estes incidentes indesejáveis, uma cultura precisa eliminar muitas informações. Quais os nomes de todos os soldados que lutaram em Waterloo? O que foi feito de Calpurnia, mulher de Cesar, depois dos Idos de Março? A cultura eliminou estes dados para não sobrecarregar nossa memória histórica.
De resto, este processo de apagamento não age somente na cultura, mas também em nossas vidas pessoais. Jorge Luiz Borges escreveu um belo conto, “Funes o memorioso”, sobre um personagem que se lembrava de tudo: toda folha que tinha visto desde criança, toda palavra ouvida no curso de sua vida, todo sopro de vento que lhe havia roçado a pele, toda frase que lera. E precisamente por causa desta memória total, Funes era um idiota, paralisado pela incapacidade de filtrar e descartar os resultados de suas experiências. Nosso inconsciente funciona porque remove. Se, depois, alguma coisa nos perturba, pedimos a nosso psicanalista que recupere aquilo que removemos por ser excessivamente embaraçante. Mas é importante eliminar todo o resto: a alma é fruto desta memória seletiva; se nossa memória fosse como a de Funes, seríamos animais sem alma, isto é, sem identidade. Nossa identidade não é feita somente das coisas que recordamos, mas também daquilo que conseguimos esquecer.
E no entanto uma cultura não se limita a sugerir aos indivíduos que esqueçam aquilo que deveria ser rejeitado como inútil; frequentemente esconde aquilo que eles deveriam recordar. Este é o papel da censura, que assume muitas formas, até a da damnatio memoriae. Uma cultura, porém, pode censurar não só por apagamento e reticência, mas também por excesso de informação. Sempre sustentei que havia pouca diferença entre o Pravda stalinista e a edição dominical do New York Times: o Pravda censurava as informações indesejáveis, o Sunday Times, por sua vez, com suas 600 páginas que seguramente continham All the News that’s Fit to print, todas as notícias que vale a pena imprimir, mas que com idêntica segurança não eram lidas por inteiro por ninguém, sequer no arco de uma semana. Corremos o risco de permanecer submersos pelo excesso de informação. A diferença entre o silêncio e o rumor excessivo é de fato mínima.
Inegavelmente, no que diz respeito ao Sunday Times, o leitor bem informado tem condições de selecionar as informações pertinentes e de jogar no cesto os suplementos que não lhe interessam, por exemplo, aqueles sobre o mercado imobiliário, os esportes, casa e jardim, ou até mesmo o caderno literário. Mas o que está acontecendo hoje com este excesso de informações que é a Internet? O risco é de que nos tornemos como o cérebro de Funes. Até agora a sociedade filtrava por nós os conteúdos através dos livros-texto e das enciclopédias; com a Web, todos os conhecimentos e todas as informações possíveis, inclusive as menos úteis, estão ali à nossa disposição.
Tentem perguntar à Web sobre um tema, por exemplo a Shoah, o Holocausto. Não existe qualquer critério que nos diga, numa primeira aproximação, se um site é obra de historiadores responsáveis ou de um grupo filonazista. E se uma pessoa culta consegue compreender de que gênero de site se trata, como se arranjam os menos informados que, pela primeira vez, buscam na Web algumas noções básicas sobre o evento? A incapacidade de filtrar comporta a impossibilidade de discernir.
Somente as universidades (e mais em geral as instituições de formação) podem nos ensinar como selecionar. É preciso inventar, e difundir, uma nova arte da depuração. Caso contrário, sem uma Enciclopédia Unificada das Ciências, todos terão direito de organizar sua própria enciclopédia: teremos a Enciclopédia New Age, a Enciclopédia Nazista, a Enciclopédia Astrológica, etc. Com tal fragmentação do conhecimento, os sete bilhões de habitantes do planeta poderão produzir outros tantos métodos de seleção ideológica e sete bilhões de línguas diversas, intraduzíveis entre si. A Web poderia se converter numa Torre de Babel, na qual se falariam não setenta, mas sete bilhões de línguas individuais.
A presença das universidades pode ser uma garantia para os inúmeros jovens (e menos jovens) que estão em busca de uma enciclopédia confiável. Criar uma Enciclopédia Comum não equivale a impor um pensamento único. É um terreno compartilhado sobre o qual verificar e comparar toda diferença portadora de riqueza. A universidade é o único lugar em que se pode aplicar corretamente uma abordagem unificada da diversidade.
Mas as universidades são também um modo de oferecer um excesso de filtragem. As culturas (ou pelo menos a nossa cultura ocidental, com sua perspectiva filológica) têm interesse em recuperar dados cuja perda nos parece ser uma desventura. Por isso temos necessidade do trabalho de especialistas, historiadores ou arqueólogos: pedimos a eles que ressuscitem conceitos e experiências que caíram acidentalmente na obscuridade. Com este ato, a memória coletiva pode fazer com que floresçam novamente os dados perdidos e pode sistematizá-los de novo, senão em uma Enciclopédia Comum, pelo menos em uma enciclopédia setorial.
Deste modo, uma cultura madura escolhe pôr algumas informações em estado de latência. As informações excessivas são, por assim dizer, congeladas de modo a que, conforme a necessidade, os experts possam reaquecê-las em um ideal forno de micro-ondas e fazer com que retornem, com o objetivo, por exemplo, de decifrar um antigo documento recém-descoberto.
Os locais de latência são assimiláveis ao modelo da biblioteca ou do arquivo, indispensáveis containers de uma sabedoria que pode ser revisitada, mesmo que não tenha sido frequentada por séculos. As universidades, portanto, não são somente lugares de filtragem indispensável, mas também, com suas bibliotecas e seus arquivos, locais que custodiam as indispensáveis informações latentes.
Gostaria de terminar com a derradeira razão pela qual o papel das universidades ainda é fundamental, sobretudo em um mundo que se torna sempre mais virtual: as universidades estão entre os poucos lugares em que as pessoas ainda se encontram face a face, em que jovens e estudiosos podem compreender quanto o progresso do saber necessita de identidades humanas reais, e não virtuais. [Tradução de Marco A. Nogueira]

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Estátua, prá que te quero?



 

Se preciso fosse algum fato novo para destacar o prestígio e a fama de que goza Lula no mundo, o escultor chinês Yuan Xikun resolveu a questão. É dele a estátua em bronze do ex-presidente que integra exposição em exibição no National Mall, ao lado da Casa Branca, em Washington. A versão original da peça está no Jardim das Esculturas da Amizade Internacional em Beijing. Exposta nos EUA, tornou-se parte de uma política dedicada a facilitar o diálogo entre a China e o continente americano.
A homenagem veio cercada de pompa e circunstância: as pessoas retratadas foram escolhidas entre aquelas que deram contribuições extraordinárias para a sociedade. Ao lado de Lula estão, entre outros, Abraham Lincoln (Estados Unidos), Bolívar (Venezuela), Tupac Amarú (Peru), Gabriel García Márquez (Colômbia), Jose Martí (Cuba) e San Martín (Argentina). Lula é o único vivo e o primeiro presidente do Brasil a ter uma estátua na capital dos Estados Unidos, o que amplificou ainda mais o fato.
Somado às seguidas homenagens e às três dezenas de títulos honoris causa recebidos por Lula (o mais recente dele, mês passado, na Universidade de Salamanca, Espanha), o fato foi interpretado, por seus incontáveis admiradores, como prova irrefutável de que o complexo de vira-latas é mesmo coisa de oposicionistas impatrióticos.
Nem tanto ao mar nem tanto à terra. É preciso contextualizar o fato. O clima eleitoral e as oscilações esperadas de Dilma têm feito aumentar a torcida para que Lula entre na disputa presidencial. Se uma pena cair no chão, haverá estrondo: tudo serve para que os tambores anunciem a volta do líder.
Ter um busto em Washington e diplomas universitários pelo mundo é um reconhecimento a Lula e a seu papel político. Tem a ver com isso, não com qualquer homenagem à grandeza da Pátria brasileira. Tem a ver também com relações internacionais e comércio exterior, num ambiente em que China e Brasil são parceiros estratégicos. Nesse patamar, a iniciativa de Xikun está orientada pelo realismo que preside as relações entre os Estados, não por um particular empenho artístico. No mínimo por isso, deveria ser assimilada como menos ardor e sem instrumentalização política.
A trajetória de Lula está inscrita na história nacional, não deveríamos ter de nos lembrar disso a toda hora. Ele enfrentou e venceu preconceitos de parte ponderável das elites brasileiras, mostrou que lideranças vindas “de baixo” também podem governar. Deu a volta por cima e passou a ser respeitado e até mesmo seguido pelas mesmas elites que o hostilizaram antes. Foi eleito e reeleito democraticamente e seus governos representaram uma importante inflexão no processo político.
Não se trata, porém, de um herói, no sentido em que Max Weber, por exemplo, usou a expressão: alguém que conquista o direito de mexer nas engrenagens do destino. Lula tem sido um político inteligente, com grande capacidade de persuasão, astúcia e disposição para conversar, fato que o converteu em figura chave das principais articulações que impulsionaram o capitalismo brasileiro na última década e meia.
Mas não é um “Libertador”, por mais que se queira pintá-lo assim. Nunca vestiu o figurino de um chefe bolivariano à testa de uma democracia popular ou de uma obra de “salvação nacional”. Não representa um movimento ou partido de esquerda, ideia que nunca frequentou seu vocabulário ou sua cultura política. Não é sequer um “mito”, como dizia o revolucionário Sorel na sua busca incansável do fator que poderia imprimir um componente mágico e magnético à história.
Nesse mundo louco em que vivemos, repleto de memes, ícones e ídolos que se revezam no imaginário popular, simbolicamente congestionado mas pobre de utopias e significados densos, um busto pode ajudar a que se faça um verão. Se a grande massa brasileira pudesse vê-lo, certamente sentiria orgulho, ainda que talvez torcesse o nariz para a feiura da peça. Bustos, afinal, servem para que se lembre que as pessoas importam. Mostram que arte e política continuam tão abraçadas como sempre estiveram, prestando serviços para o poder e para as relações entre os povos. Mas não fazem muito mais que isso.
Bustos, estátuas e memoriais são coisas que nós, brasileiros, não cultivamos nem cultuamos. Passamos por eles, olhamos e seguimos em frente, tratando-os como detalhes da paisagem. Não somos como os norte-coreanos, que chegam a celebrar casamentos pungentes no sopé da gigantesca estátua de Kim Il Sung (que, morto há 20 anos, ainda é oficialmente o Presidente da Coreia do Norte), diante da qual se deve passar em posição de respeito profundo e sem dar as costas.
No Brasil, os poucos que merecem alguma atenção popular – como Joaquim Nabuco, no Recife – associam-se a personagens que tiveram inserção ativa em episódios históricos emblemáticos. Nem Getúlio Vargas, nosso mais importante estadista, mereceu algo semelhante. O herói de nossa gente é Macunaíma, de quem Mario de Andrade disse não ter nenhum caráter... Gostamos mais de ruas, praças e avenidas para prestar homenagens. Ou nem. [Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno Aliás, 01/06/2014, p. E3].

domingo, 1 de junho de 2014

Impasse e criatividade


Francisco Martani - Biologia dell'inconscio - 1981

Especialmente porque um impasse está delineado e ameaça crescer, foi muito boa a entrevista dada por Marco Antonio Zago, Reitor da USP, ao Estadão deste domingo. (Veja a íntegra neste link.) Como principal dirigente da maior e mais importante universidade brasileira, tudo o que ele fala repercute e deve ser levado em consideração. É uma espécie de parâmetro para que se avalie o quadro geral. No caso, particularmente em São Paulo. A entrevista forneceu muitos elementos para reflexão.
Em sendo verdade, como disse o Reitor – e não há qualquer motivo para que se duvide disso –, que a USP, ao longo dos últimos anos, cresceu a ponto de ter hoje 92 mil alunos, 6 mil docentes e 17 mil docentes (sem contar terceirizados e funcionários dos hospitais), a pergunta que fica é: ela tem como ajustar suas finanças e fazer com que o sistema rode redondo, ou seja, funcione bem? Se há 3 servidores administrativos para cada docente e se não há qualquer possibilidade legal ou disposição política para enxugar o quadro, como garantir sustentabilidade para o futuro? Trata-se de uma universidade pública, não de uma empresa, o que torna tudo mais difícil porque tudo de certo modo está engessado e há pouca margem para manobras ousadas.
O certo é que solução há de haver. Desafios existem para serem vencidos e os especialistas estão aí para descobrir os caminhos. A USP é um celeiro de quadros. Como seu estado atual também é o da UNESP e da Unicamp, os especialistas das três juntas poderiam formar uma bela equipe para enfrentar a crise. Se trabalharem bem, ideias e iniciativas surgirão.
Pois a situação pede precisamente isso: criatividade, bons argumentos, transparência e propostas efetivas. Reivindicações mais corporativas fazem parte e precisam ser devidamente consideradas, mas não são o principal. Devem ser mantidas como fator dinâmico e postulação de justiça, mas precisam se combinar com iniciativas e ideias que olhem mais além.