O Brasil está se tornando um protagonista cada vez mais importante no sistema internacional. É visto hoje como uma vigorosa economia industrial, uma sociedade que se esforça para reduzir a desigualdade e retirar milhões de pessoas das zonas indignas da pobreza extrema, e que está conseguindo avançar nesta direção sem retroceder em termos políticos. Como um país que ensaia passos mais audaciosos, seja no âmbito comercial, seja em termos de política externa.Para examinar e discutir essa nova situação, o Instituto Joaquim Nabuco de Governo e Diplomacia, patrocinado pela Brazilian Endowment for the Arts, realizou nos dias 12 e 13 de setembro, na sede do Institute of International and Public Affairs, Columbia University, o Simpósio Internacional "O Novo Brasil no cenário mundial".Do evento participaram especialistas brasileiros e norte-americanos, que procuraram analisar alguns dos mais importantes aspectos da nova situação internacional e avaliar o lugar que nela ocupa o Brasil. Foram eles: o Cônsul-Geral do Brasil em New York, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, o professorThomas Trebat, diretor executivo do Institute of Latin American Studies/Center for Brazilian Studies, Columbia University, o economista Aristides Monteiro Neto, Assessor-Chefe de Planejamento e Articulação Institucional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA, o historiador Marshall Eakin, da Vanderbilt University e ex-Diretor Executivo da Brazilian Studies Association-BRASA, o historiador Humberto França, da Fundação Joaquim Nabuco, o economista Fernando Freire, presidente da Fundação Joaquim Nabuco, e o Ministro-Conselheiro da Missão do Brasil junto à ONU, Maurício Carvalho Lyrio.Em minha intervenção, no segundo dia do evento, procurei salientar o papel que o Brasil pode ter no terreno da integração regional. O país pode se tornar um player comercial destacado, explorando por exemplo as relações que mantém com a China e incrementando seu próprio papel como construtor do bloco BRICS. Sua política externa poderá auxiliá-lo sobremaneira, especialmente se preservar e atualizar os valores de respeito à autodeterminação e à soberania dos povos que ocupam lugar de destaque nas tradições de independência do Itamaraty. Mas também é razoável supor que boa parte de seu sucesso futuro dependerá da capacidade que tiver de praticar políticas de integração regional que se ponham num patamar mais amplo do que o intercâmbio comercial, ou seja, que aproximem de fato povos, regiões, sociedades e culturas e se sintonizem com as particularidades dos diferentes países.A intervenção pode ser assistida acima. Começa exatamente no ponto 01:00, logo após a apresentação musical.O simpósio foi encerrado por Domício Coutinho, Presidente do Instituto Nabuco e da Brazilian Endowment for the Arts, que recordou que em 2010, a BEA reuniu em Nova York um grupo de professores, diplomatas e pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, que realizaram um simpósio de idêntica relevância. Naquela ocasião, fundou-se o Instituto Joaquim Nabuco de Governo e Diplomacia, com dois objetivos precípuos: (a) fortalecer e ampliar a democracia vigente, apoiando-a na dignidade do Homem e em governos do povo, pelo povo e para o povo; (b) contribuir para que prevaleça sempre mais no plano internacional e nos distintos planos nacionais o diálogo, a diplomacia e os esforços em prol da paz. Desde então, o Instituto Nabuco tem procurado colaborar para que os estudos de acadêmicos e cientistas brasileiros sejam mais bem conhecidos nos Estados Unidos, em correspondência com os espaços alcançados pelo Brasil no cenário global. O segundo Simpósio Internacional inseriu-se neste contexto e seu sucesso, expressado pela alta qualidade das conferências apresentadas, indica que o Instituto Nabuco está no caminho certo.
Porque a política democrática administra o presente mas retira sua poesia da construção consciente do futuro.
sábado, 24 de setembro de 2011
Simpósio em Nova York analisa o Brasil no mundo
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Simpósio em NY: O Brasil no Cenário Mundial
Nos dias 12 e 13 de Setembro de 2011, o Instituto Joaquim Nabuco de Governo e Diplomacia, sediado em Nova York sob o patrocínio da Brazilian Endowment for the Arts (http://www.brazilianendowment.org), realiza o Simpósio Internacional O Novo Brasil no Cenário Mundial, no auditório da Columbia University. Que papel está reservado ao Brasil na cena mundial contemporânea? Que importância há no fato do Brasil ser o único país do continente americano a fazer parte do BRIC? Quais os desafios, as potencialidades e as afinidades estratégicas entre o Brasil e os EUA, tendo em vista as mudanças em curso no mundo e na América do Sul?O Simpósio reunirá diplomatas, políticos, professores, acadêmicos, pesquisadores e brasilianistas que abordarão temas relacionados aos desafios e potencialidades do Brasil, dos EUA e da América Latina no século XXI.Informações e programação abaixo.
Inscrições Abertas: Afiliação anual BEA + Simpósio: US$40.00
Afiliados Bea: US$20.00
Columbia University – Center for Brazilian Studies
International Affair Building
420W 118th Street, 15th Floor – Room 1501 – New York, NY 10027
Brazilian Endowment for the Arts
240 East 52nd Street, New York, NY 10022
Phone: 1 212 3711556
Email: contact@brazilianendowment.org
Simpósio Internacional
O NOVO BRASIL NO CENÁRIO MUNDIAL
Columbia University - New York - USA
12 – 13 setembro de 2011PROGRAMAÇÃODIA 12 de setembro, segunda-feiraColumbia University
17h00 Abertura soleneProf. Thomas Trebat, Diretor Executivo, Institute of Latin American Studies, Columbia University
Dr. Domício Coutinho, fundador e Presidente da BEA.
18h00 Conferência de Abertura
José Sarney, Presidente do Senado Federal, Brasil.
18h30 O Brasil entre os países do BRICLuiz Felipe de Seixas Corrêa, Cônsul-Geral do Brasil em Nova York
19h00 A ‘China Brasileira’: a Região Nordeste, o caso de PernambucoFrancisco Tadeu Barbosa de Alencar, sociólogo e secretário da Casa Civil do Estado de Pernambuco
19h30 O Brasil e sua Cultura no Cenário InternacionalAna de Hollanda, Ministra da Cultura do Brasil [A confirmar]
DIA 13 de setembro, segunda-feira
Columbia University
09h30 Conferência: O Brasil entre os Países Líderes do Século XXI Antonio Patriota, Ministro das Relações Exteriores do Brasil [A confirmar]
10h00 Mesa I
O Brasil e a América Latina, um cenário novo e desafiador para os Estados Unidos.
Thomas Trebat, Diretor Executivo, Institute of Latin American Stidies, Columbia University
A Expansão das Universidades Públicas e o Papel da Fundação Joaquim Nabuco. Fernando Freire, Presidente da Fundação Joaquim Nabuco
A Retomada do Desenvolvimento no Brasil: o legado recente e os desafios para esta e para as próximas décadas. Aristides Monteiro Neto, Assessor-Chefe, Assessoria de Planejamento e Articulação Institucional - Presidência da República do Brasil.
12h00 INTERVALO
14h00 Mesa II
A atualidade do pensamento estratégico de Joaquim Nabuco. Humberto França, Fundação Joaquim Nabuco MEC.
O Brasil, passado e futuro dos brasilianistas.
Marshal Eakin, Ex-Diretor Executivo da Brazilian Studies Association (BRASA), Vanderbilt University.Nabuco, o Brasil e o mundo, um diálogo em aberto.
Marco Aurélio Nogueira, Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, UNESP.16h00 Conferência de Encerramento.
Maria Luisa Viotti, Embaixadora do Brasil na Organização das Nações Unidas - ONU. [A confirmar]16h30 Apresentação do livro Congresso Joaquim Nabuco e o Novo Brasil. Organizador: Humberto França - Companhia Editora de Pernambuco
APOIO
Columbia University
Consulado Geral do Brasil em NYCompanhia Editora de Pernambuco – CEPEArgumenta FilmesRingo FilmesORGANIZAÇÃODomício Coutinho, Presidente da Brazilian Endowment for the ArtsHumberto França, Vice-presidente de Relações Internacionais – BEAAlcinda Saphira, Diretora de Projetos & Produção Executiva– BEA-NYFernanda Pereira, Assistência Diretoria & Produção - BEA-NYGustavo Braga, Assistência Técnica & Cultural –BEA-NY
Thalita Campos, Assistência Diretoria - BEA-NY
O 4º Congresso do PT e a "conspiração midiática"
O 4º Congresso do PT, realizado em Brasilia entre os dias 2 e 4 de setembro, terminou sem o impacto que poderia ter. Antes de tudo, não parece ter saído dele um partido unido e determinado a retornar ao protagonismo político.
O partido continuou meio atrapalhado, sem saber como se posicionar na cena nacional. Permanece dividido entre Lula e Dilma, sem um pensamento que funcione como diretriz. Depois que virou governo, "inchou" e tem filiados de todo tipo, muitos sem qualificação, como disse o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Se o PT tivesse saído melhor do Congresso, todos teriam ganhado. O principal partido sempre pode funcionar como exemplo e inspiração para os demais.
O Congresso partidário girou em torno das posições perante a mídia e da mal explicada e mal entendida proposta de "regulação democrática", que ora apareceu como empenho em se ter um novo marco regulatório, ora como intenção de limitar a atuação da "imprensa marron".
Houve certa ênfase desmesurada na ideia de que há em curso uma "conspiração midiática" destinada a desgastar a imagem dos governos petistas, maximizar os casos de corrupção e malfeitos envolvendo ministros atuais e passados e dividir a base parlamentar que apoia o governo Dilma. Falou-se muito que a conspiração pretende jogar Dilma contra Lula, ou diminuir o legado dos oito anos de Lula.
Compreendo as razões, mas acho que o PT atira no próprio pé quando denuncia como impópria a "faxina" ética que estaria sendo feita por Dilma. Primeiro porque não há faxina alguma e, segundo, porque as ações do governo nesse terreno mais ajudam que atrapalham o PT. Ao se recusar a discutir o tema, o PT confessa que o considera desagradável e com isso perde oportunidade para acrescentar uma vertente mais substantiva no debate que se faz por aí.
A resolução política que instruiu as discussões partidárias no 4º Congresso, além do mais, valeu-se de um argumento ruim, o da "conspiração midiática", para reagir às oposições. Não levou em conta que elas, precisamente por serem oposição, farão de tudo para explorar as fraquezas e os vacilos do governo, que nem têm sido tantos assim. Em vez de discutir a fundo o tema e assim "blindar" o governo, ajudando-o a enfrentar a turbulência, o partido refluiu para as zonas mais nebulosas da ideologia e do politicismo.
Mas aceitemos que haja uma "conspiração midiática". Ela, porém, não é um deus na terra, que tudo pode e tudo faz. A força da mídia é um dado sistêmico nas circunstâncias atuais e todo ator político que projete o futuro precisa conviver com isso. Achar que todo mundo se deixa conduzir como carneirinho pelo que falam a Globo e a Veja é desrespeitar os cidadãos e ignorar a vida, que é bem mais complexa do que a mídia. Ou será que o governo não tem força para enfrentar democraticamente a mídia? Não existiria por acaso uma "contra-mídia", uma mídia alternativa ou pressões petistas e governistas sobre setores da mídia? Dar toda essa força à midia, assim como falar em "partido da mídia golpista", parece desculpa para justificar a inação.
Também é bobo o argumento de que as oposições querem minar as bases da coalizão que apóia o governo. O que haveria de estranho nisso? Fazer política também é dividir o adversário. O melhor que pode fazer um partido ou uma corrente é bater-se por sua própria unidade e, a partir dela, procurar agregar novas forças e novos aliados. É um trabalho permanente, porque tudo o mais incita à divisão: o mercado, o capitalismo, a diferenciação social, o pluralismo político e, com certeza, as oposições.
sábado, 27 de agosto de 2011
Oito meses e alguma turbulência
Há bons motivos para que avaliemos positivamente os primeiros meses do governo Dilma Rousseff, sobretudo se se considerarem as reais possibilidades de atuação com que contou.
Empurrado e legitimado pelas urnas de 2010, ele se iniciou num momento em que o país estava com a moeda estabilizada, reduzindo a miséria e expandindo o mercado interno, graças à ampliação do crédito popular, aos programas de transferência de renda e à recuperação do emprego. Encontrou, portanto, uma sociedade animada pelos mecanismos consumistas típicos da modernidade atual, ou seja, uma sociedade menos solidária e mais competitiva, que extrai desta sua nova condição o oxigênio necessário para se relacionar de outro modo com o Estado. É uma sociedade que continua pedindo garantias, direitos e proteção, mas que também aprofunda sua inserção nas trilhas da despolitização e passa a ver o mundo em termos mais mercantis, aliviando parcialmente a pressão sobre o Estado.
A face política e administrativa do Estado, por sua vez, se não corrigiu por inteiro seus problemas crônicos (ineficiência, inchaço, custo elevado, despreparo), também não piorou. A representação continuou como sempre, com uma classe política que deixa a desejar. A administração permaneceu contagiada pela dinâmica gerencial que se vem afirmando desde a reforma de 1994. Além do mais, está hoje submetida a um maior grau de fiscalização por parte da opinião pública, fato que a torna mais transparente e mais passível de controle. A corrupção não cresceu, mas a percepção dela aumentou, o que faz com que denúncias se sucedam e o combate a ela passe a fazer parte da agenda pública e da agenda governamental.
Não é por outro motivo que os oito meses iniciais do novo governo foram vividos sob o signo da instabilidade ministerial. A fraqueza da equipe é flagrante. Ministros saíram por motivos relacionados a desvios de conduta ou a inabilidade. O ministério não parece funcionar.
Parte desta instabilidade vincula-se à herança recebida por Dilma, que está longe de ser uma “herança maldita”, como se ouve dizer em alguns ambientes. De qualquer modo, é um fardo. Aquilo que beneficiou a então candidata nas eleições de 2010 – o apoio de Lula, as realizações governamentais, as alianças feitas com o intuito de fornecer “governabilidade”, a base parlamentar – tudo isso, de repente, parece se voltar contra o novo governo, dificultando sua arrumação. Afinal, cada presidente precisa imprimir sua própria marca ao governo que dirigirá, e nesse terreno não pode haver simples transferência de esquemas ou continuidade passiva, por mais que Dilma e Lula sejam carne da mesma carne e integrem o mesmo partido.
Não deveria estranhar, portanto, a existência de certos “ajustes de conta” entre os apoiadores do novo governo ou mesmo entre alas do PT. Nos primeiros oito meses, estes ajustes foram tão intensos e eloquentes que ofuscaram planos e programas de ação do governo. O quadro acabou por ensejar certa confusão. O Brasil sem Miséria, por exemplo, complementa ou compete com o Bolsa-Família, é uma sua requalificação ou representa a abertura de outra frente de batalha, com distinta lógica e distintos protagonistas?
O legado dos oito anos de Lula não deu trégua aos oito meses de Dilma. Não poderia ter sido diferente. O período Lula imprimiu uma inflexão na vida nacional, seja pelo choque simbólico derivado da biografia de Lula e de seus traços carismáticos, seja pelas novas alianças que produziu, especialmente as que levaram a uma espécie de pacto informal entre o trabalho e o grande capital, seja enfim por sua própria agenda pessoal. Não deve ser fácil governar com a sombra de uma liderança popular que se recusa a sair de cena e espera o momento certo para retornar ao Palácio. O esforço para se livrar desta sombra ou ao menos para neutralizá-la deve ter consumido boas horas de sono no Palácio do Planalto.
Muita gente acreditou que poderia pautar o governo com a ideia de “limpeza ética”. A presidente reagiu à altura, e não sem razão. A meta de seu governo, disse, não é fazer “faxina” em ministérios suspeitos de corrupção, mas sim "fazer o país crescer e combater a pobreza". Há quem pense que o combate à corrupção deveria ocupar o centro da ação governamental, como se só pudesse haver bom governo depois que todos os corruptos fossem presos. Alguns se esquecem de olhar para o próprio quintal e outros imaginam que o governo é a fonte geradora de tudo o que há de errado no país. Falta bom senso por aí.
Uma coisa é combater a corrupção, outra é transformá-la na razão de ser da ação governamental. No primeiro caso, faz-se uma luta política cotidiana que não paralisa o governo. No segundo, o combate é moralista e “espetacular”, atrapalhando a ação governamental. Achar corruptos é fácil, governar bem, difícil. Uma coisa não explica a outra. Um governo não é bom só porque combate a corrupção e não é mau só porque mantém prudência na luta contra ela. Como tudo na vida, virtus in medio est.
O equilíbrio demonstrado até agora pelo governo tem sido seu melhor alimento. A situação não lhe é totalmente favorável, há ventos soprando forte pelos lados da economia, a maioria parlamentar não é confiável e falta ao governo maior poder de articulação, seja em seu próprio interior e no âmbito das relações com os demais poderes, seja junto à opinião pública e à sociedade civil. O barco conta com uma timoneira tecnicamente qualificada e disposta a liderar o período governamental que terá pela frente. Sua densidade política, porém, ainda é baixa e ela dispõe de poucas bases próprias. Trata-se de uma situação que talvez nos ajude a entender as razões que mantiveram o governo enredado num matagal de pequenas questões.
O momento é de atenção. Tanto porque as águas em que o governo navega são turbulentas, quanto porque amigos, inimigos e adversários estão à espreita, prontos para subir ao palco. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/08/2011, p. A2].
domingo, 14 de agosto de 2011
Protesto global
O protesto ganhou as ruas de várias grandes cidades nos últimos meses. A primavera árabe da Praça Tahrir não se limitou ao Egito. Parece não ter data para terminar. Ecoa no Chile e em Israel, depois de ter dado o ar da graça na Espanha e em Londres, onde as manifestações permanecem. Há acampados em Tel-Aviv, fato que talvez surpreenda muita gente. Por todo lado, impulsionadas por redes sociais e pela dureza da vida, pessoas mostram-se cada vez mais disponíveis para ir às ruas protestar.
Os protestos são de excluídos, mas não necessariamente de pobres. A classe média empobrecida ou insatisfeita parece prevalecer. São seus filhos (e no caso do Chile também os pais de seus filhos) que dão o tom nas manifestações em muitos lugares. Há evidentemente o protesto dos habitantes das periferias, dos imigrantes, dos desempregados e humilhados, daqueles que são vítimas da truculência policial. Mas o eixo parece estar nas classes médias, ou seja, nesse vasto e impreciso contingente social que perdeu mais que ganhou nas últimas décadas de globalização capitalista. Que viu seus sonhos dourados (a casa própria, o emprego estável, a possibilidade de consumo, o status) serem comidos, inviabilizados ou dificultados, que olha para frente e se depara com um cenário enfumaçado, no qual mal se pode vislumbrar um futuro.
É tão visível o protagonismo das classes médias que muitos se apressam em vê-las como o novo sujeito histórico, aquele em que se depositam as esperanças de transformação.
Mas a nossa é uma época bem mais complicada. De sujeitos menos transparentes, mais fluidos e "descorporificados", que fazem política de formas surpreendentes e dissimuladas, quase à margem dos sistemas políticos. Não há mais, a rigor, burgueses e proletários, ao menos no sentido de que possam mover as rodas da história. Essa classes históricas, estruturais, parecem hoje reminiscências de uma época mais simples. O lugar por elas antes ocupado é agora do grande capital global e das "multidões, o primeiro composto por uma união informal dos mais ricos e as segundas, derivadas de um compósito de grupos e classes sem perfil muito bem definido mas que caminham na mesma direção porque se sentem igualmente prejudicados.
Essa é mais ou menos a essência da ótima entrevista dada à jornalista Carolina Rossetti pela socióloga holandesa Saskia Sassen (professora da Columbia University, em Nova York), ao Caderno Aliás do Estadão deste domingo, 14/08. O link para ela está aqui.
É uma leitura que nos ajuda a pensar e a entender que há mais do que crise financeira no ar. Não se trata de análise para ser aceita por todos como inquestionável, mas de uma prova de que o olhar crítico é o único recurso de que dispomos para acumular reservas com que interpretar o mundo.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
O turismo globalizado
| Times Square, NYC, julho 2011 |
Com o final das férias de julho e a volta para casa de milhões de pessoas, arrefece um dos mais poderosos ramos de atividade do mundo atual, alavanca de múltiplos impulsos econômicos e socioculturais.
O turismo sempre foi forte e atraente. Com a globalização, as facilidades de conexão e deslocamento, o aumento da curiosidade e do interesse pelos “outros”, assim como com a maior circulação de informações, ganhou proporções gigantescas, a incorporar sempre novos protagonistas, provenientes tanto de grupos sociais emergentes quanto dos segmentos etários antes excluídos dos passeios internacionais. Tempos atrás só viajavam para fora do país pessoas “maduras”, com dinheiro no bolso e profissão garantida. Crianças pequenas e avós ficavam em casa, como que protegidas dos azares do mundo. Hoje o turismo se democratizou. Viajam todos, dos bebês à “terceira idade”, dos intelectuais às novas classes médias e aos empresários, muitas vezes em excursões temáticas especialmente desenhadas para acomodar distintos ritmos e expectativas. Há pacotes turísticos para todos os gostos e interesses: gastronomia, artes, compras, parques infantis, futebol, cinema, moda, decoração, ciência. Todo grande evento internacional inclui uma invariável “agenda social”, com a qual arrastam acompanhantes não diretamente envolvidos com as pautas principais.O turismo tornou-se de fato uma indústria. Emprega centenas de milhares de pessoas, cria em torno de si inúmeras atividades, movimenta os negócios em escala global, produz riqueza material e intercâmbio cultural. Ainda que quase sempre centrado no lazer e no entretenimento, tem múltiplas implicações.É evidente que tudo isso alterou o modo como se viaja, se usufrui e se absorve a experiência de conhecer outros lugares. Aeroportos e aviões abarrotados, com os aborrecimentos imagináveis, existem no mundo todo. Nas grandes metrópoles turísticas – Nova York, Roma, Paris –, a paisagem é tingida por filas até mesmo para se caminhar nas ruas. Um passeio a pé pela Times Square pode se assemelhar a um congestionamento nas Marginais de São Paulo. A multidão tornou-se onipresente, com impactos expressivos na indústria turística como um todo.Museus imponentes e circunspectos precisam se adaptar para receber um público sempre maior, rumoroso, buliçoso e despreparado para seguir a etiqueta da visita-padrão. Restaurantes e lojas têm de ajustar preços e cardápios para atender à massa de gente necessitada de alimentos, desejosa de experimentar algo novo e com desmesurado apetite para comprar o que quer que pareça uma boa oportunidade ou que sirva como registro das particularidades do local visitado. Tais particularidades, bem como as tradições e o modo de vida dessas localidades, certamente sobrevivem e permanecem inscritas nas rotinas cotidianas dos moradores, mas são muitas vezes “ressignificadas” e precisam ser compartilhadas com os estrangeiros. Nenhum romano deixa de beber seu cappuccino, nenhum parisiense deixa de comprar sua baguette, nenhum nova-iorquino deixa de se estender para tomar sol nas gramas do Central Park, mas todos devem conviver com bandos de curiosos e imitadores. Muitos reagem com irritação, outros viajam para longe ou não saem de casa. Lugares menos conhecidos, fora dos roteiros, vinculados ao dia-a-dia que os turistas não veem, convertem-se assim em refúgios dos moradores, fortalezas de onde tentam defender suas cidades. Seja como for, é uma experiência coletiva de interação, ao sabor da qual o mundo se vai integrando culturalmente.O turismo oferece a seus praticantes a oportunidade rara de apreciar in loco aquilo de que se ouve falar ou com o que se fantasia. Diminui a distância entre filmes, livros e vida real. É uma ferramenta de desmitificação. Devolve à realidade certos lugares-comuns dos relatos e conversas sobre os “outros”. O turista descobre, surpreso ou extasiado, que os argentinos admiram os brasileiros, que os franceses não são mal-humorados (embora alguns o sejam) nem os italianos são alegres e receptivos (embora muitos o sejam), que não há somente glamour em Nova York nem tristeza em Lisboa. A depender da profundeza social que alcança em sua viagem, pode descobrir também que o cotidiano é tão desgastante em Barcelona e na Filadélfia quanto em São Paulo ou no Rio de Janeiro, sobretudo para os grupos sociais menos favorecidos, obrigados a experimentar dissabores de todo tipo. Descobre, enfim, que os brasileiros não são melhores nem piores que os outros povos, que nossa economia não está tão racional e eficiente quanto dizem, que não somos os únicos a gostar fanaticamente de música e futebol, que nossas garotas de Ipanema são tão lindas quanto milhões de holandesas, tailandesas, espanholas, mexicanas, húngaras e chinesas.O turismo globalizado nos ajuda a entender que a vida atual, independentemente de onde estivermos, equilibra-se entre a reprodução teimosa de certos ritos e tradições e a invenção frenética e permanente do cotidiano, flutuando entre o sólido e o fluído. Mostra que a crise não perdoa ninguém, seja no plano econômico-social, onde faz com que homeless e desempregados desmintam a estabilidade e a segurança, seja na sociabilidade, onde faz com que surjam novas práticas e condutas que estremecem rotinas e tradições.O turista que se dedica a observar mais atentamente os locais que visita descobre, assim, que a realidade é feita mesmo de essência e aparência, que nem tudo é o que parece. Pode perceber, então, que a “festa” de que participa na Quinta Avenida ou na Fontana de Trevi desaparece num piscar de olhos quando vai ao Queens, ao Bronx ou às periferias romanas e parisienses. A rigor, ele não tem nada a ver com isso. Viaja para descansar e se divertir, não para fazer análises sociológicas. Mas acaba por voltar para casa com uma nova chance de refletir sobre o mundo em que vive. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 23/07/2011, p. A2]
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