domingo, 14 de agosto de 2011

Protesto global


O protesto ganhou as ruas de várias grandes cidades nos últimos meses. A primavera árabe da Praça Tahrir não se limitou ao Egito. Parece não ter data para terminar. Ecoa no Chile e em Israel, depois de ter dado o ar da graça na Espanha e em Londres, onde as manifestações permanecem. Há acampados em Tel-Aviv, fato que talvez surpreenda muita gente. Por todo lado, impulsionadas por redes sociais e pela dureza da vida, pessoas mostram-se cada vez mais disponíveis para ir às ruas protestar.
Os protestos são de excluídos, mas não necessariamente de pobres. A classe média empobrecida ou insatisfeita parece prevalecer. São seus filhos (e no caso do Chile também os pais de seus filhos) que dão o tom nas manifestações em muitos lugares. Há evidentemente o protesto dos habitantes das periferias, dos imigrantes, dos desempregados e humilhados, daqueles que são vítimas da truculência policial. Mas o eixo parece estar nas classes médias, ou seja, nesse vasto e impreciso contingente social que perdeu mais que ganhou nas últimas décadas de globalização capitalista. Que viu seus sonhos dourados (a casa própria, o emprego estável, a possibilidade de consumo, o status) serem comidos, inviabilizados ou dificultados, que olha para frente e se depara com um cenário enfumaçado, no qual mal se pode vislumbrar um futuro.
É tão visível o protagonismo das classes médias que muitos se apressam em vê-las como o novo sujeito histórico, aquele em que se depositam as esperanças de transformação.
Mas a nossa é uma época bem mais complicada. De sujeitos menos transparentes, mais fluidos e "descorporificados", que fazem política de formas surpreendentes e dissimuladas, quase à margem dos sistemas políticos. Não há mais, a rigor, burgueses e proletários, ao menos no sentido de que possam mover as rodas da história. Essa classes históricas, estruturais, parecem hoje reminiscências de uma época mais simples. O lugar por elas antes ocupado é agora do grande capital global e das "multidões, o primeiro composto por uma união informal dos mais ricos e as segundas, derivadas de um compósito de grupos e classes sem perfil muito bem definido mas que caminham na mesma direção porque se sentem igualmente prejudicados.
Essa é mais ou menos a essência da ótima entrevista dada à jornalista Carolina Rossetti pela socióloga holandesa Saskia Sassen (professora da Columbia University, em Nova York), ao Caderno Aliás do Estadão deste domingo, 14/08. O link para ela está aqui.
É uma leitura que nos ajuda a pensar e a entender que há mais do que crise financeira no ar. Não se trata de análise para ser aceita por todos como inquestionável, mas de uma prova de que o olhar crítico é o único recurso de que dispomos para acumular reservas com que interpretar o mundo.

4 comentários:

Samuel decresci disse...

Prof. Marco Aurélio,
Um aspecto -dentre muitos- tem me chamado a atenção nesses protestos e manifestações violentas dos últimos meses: o fato de pessoas se fotografarem (sorrindo) em frente a destroços e prédios em chamas. Vou me ater apenas ao ocidente e usar três exemplos.
Primeiramente, esse tipo coisa aconteceu no quebra-quebra, em Vancouver, onde milhares de pessoas saíram destruindo tudo indiscriminadamente após o time da casa perder a final do campeonato de hóquei. Não sei se o Senhor viu...
Já nos protestos de Londres, constatei nas imagens que muitos que invadiram lojas e atearam fogo em prédios também faziam o mesmo.
Por fim, em um jogo entre os dois times de Campinas, houve um distúrbio e a torcida do Guarani começou a quebrar tudo e pôs fogo no banheiro e outras coisas. E, zás, também tiravam fotos de si em frente dos destroços em chamas!
Sei que os fatos são de naturezas distintas uns dos outros. Mas, essa ostentação e regozijo da destruição me inquietam. Que pensa o Sr.?
abraço

Redator-chefe disse...

Bem sacado, Samuel. Acho que é um aspecto que precisa sre considerado com atenção. É provável que a ideia de "espetáculo" movimenta as pessoas prá frente das câmeras, misturada com a intenção de "documentar" atos eventualmente "heróicos". A facilidade para fotografar, dada a proliferação de câmeras, também conta. A hipótese de regozijo diante da destruição, que vc sugere, não deve ser descartada, ainda que mereça uma análise mais em profundidade. Abraço,

manô disse...

Professor,

Bom texto, brigada!

Andei lendo mais algumas coisas bem interessantes sobre o tema. Não sei se você viu...


Texto de Antonio Negri e Judith Revel sobre "The Common in Revolt":
http://uninomade.org/commoninrevolt/

Artigo da Saskia Sassen e do Richard Sennet sobre Londres para o New York Times:
http://www.nytimes.com/2011/08/11/opinion/when-budget-cuts-lead-to-broken-windows.html?_r=1

Texto do David Harvey, de seu blog:
http://davidharvey.org/2011/08/feral-capitalism-hits-the-streets/

Como você bem disse, não te trata de concordar integralmente com todas as teses defendidas por esses autores. Mas são, sem dúvida, análises muito instigantes.

Provocações que estimulam as nossas reflexões, né?

Food for thought, como diriam os ingleses...

Beijo e até a aula de quarta!

Manoela Miklos

Redator-chefe disse...

Valeu, Manoela! Só conhecia o texto do Sennett com a Saskia. Os outros devem ser ótimos tb. Vou procurá-los.
Até, beijo.