domingo, 14 de outubro de 2012

Roteiro para sobreviver ao julgamento do mensalão


Bosch, A nau dos insensatos

Não tenho vontade de entrar nesse bate-boca que rola por aí em torno do julgamento do mensalão. O tema está sendo mal discutido e equivocadamente instrumentalizado. Em vez de levar ao debate público democrático, está empurrando os participantes para o inferno da grosseria e da discussão adjetiva. Sempre que resvalo no assunto, provoco reações passionais de alguns amigos, com quem não quero brigar mas com quem não consigo discutir serenamente.

Dá tédio e tristeza ver petistas e tucanos digladiando para ver quem é o mais puro e o mais bandido. Ambos sacam argumentos ridículos para se atacarem reciprocamente, manipulando a bel-prazer um episódio da vida nacional que deveria causar constrangimento e reflexão, não comemorações ou chororô.

Impossível saber quem se comporta pior ou de modo mais medíocre. Se os que posam de vestais ou se os que alegam estar presenciando um "golpe" contra "o mais progressista de todos os governos nacionais". Se os que choram de emoção perante a figura impoluta do ministro Joaquim, ou se os que se lanham em praça pública dizendo que Dirceu foi condenado sem provas porque é um "guerreiro do povo brasileiro".

Para não me furtar de dar minha opinião e me posicionar, elaborei o roteiro abaixo, que socializo na esperança de que tenha alguma utilidade e contribua para requalificar o debate político atual, que me parece rebaixado demais.

1. O mensalão existiu, foi exaustivamente comprovado tanto por fatos como sobretudo pela lógica dos fatos. O "núcleo político" que acabou de ser condenado dele participou ativamente, pois era isso que se esperava que fizessem, como coordenadores políticos do governo Lula. A chave mestra desse núcleo foi uma estratégia política inteligente, dedicada a tirar o PT do isolamento e a lhe dar condições de governabilidade. Acertaram na estratégia, mas pisaram na bola nos procedimentos. Foram gramscianos na intenção, mas toscos e antirrepublicanos na conduta.

Foi um mau passo, uma ida com sede excessiva ao pote. Fizeram o que acharam que precisava ser feito e o que determinaram que fizessem. Não podem ser criticados ou condenados por terem agido assim, pois eram homens de partido, militantes revolucionários, leninistas, cumpridores de diretrizes. Mas deviam ter escolhido melhor os parceiros, usado procedimentos mais inteligentes e adequados às leis do país. Poderiam, por exemplo, ter se limitado a fazer trocas de cargos e apoios eleitorais. Seria corrupção também, mas bem mais palatável na democracia representativa. Deixaram que o dinheiro -- esse deus da maldição e da cobiça -- entrasse em cena, burramente, e perderam o controle da coisa.

Cansei de ouvir histórias de militantes revolucionários que caíram em esparrelas desse tipo. Nem por isso seus partidos sangraram em praça pública.

2. É um truísmo dizer que democracia exige negociação. Essa é uma das bases operacionais da esquerda democrática. Negociar e persuadir, compor alianças que permitam avançar ou deem apoio a iniciativas reformadoras, tudo isso tem muito mais valor e eficácia do que pressões e imposições a qualquer custo. Também é verdade que negociar não exclui pressionar e certamente não implica ceder tudo àqueles com quem se negocia. É preciso ter-se um norte e uma boa cultura política para se negociar.

3. Em 2005, o PT estava começando a adquirir cultura de negociação. Era noviço nessa prática. Ganhara protagonismo e musculatura seguindo outra via, a da "democracia dos movimentos", na qual não se podia "transigir jamais" nem "ceder jamais aos liberais e conservadores". Ainda estava contaminado por alguns vícios alojados em seu DNA, em sua cultura política, faltavam-lhe sagacidade e paciência. Não tinha Gramsci nas veias. Deixou-se cair bobamente numa arapuca.

O nucleo politico que dirigia o partido não soube distinguir as fronteiras entre negociação e negociata, que podem ser tênues e pouco transparentes mas existem e precisam ser respeitadas. Negociações políticas não podem envolver dinheiro, repasses de milhões e empréstimos fraudulentos, seja por que motivo for e com quem for. É falso dizer que as vezes isso é necessário, que não devemos ser moralistas e precisamos ser "realistas" para vencer as mazelas do "presidencialismo de coalizão". Somente se põe dinheiro na mesa (somente se faz uma negociata no âmbito de uma negociação) sob duas condições: ou quando se é fraco e venal demais, ou quando se tem arrogância em excesso e se pensa que a impunidade estará garantida. O PT era forte em 2005, mas seu núcleo político foi arrogante.

4. O PT não é igual ao mensalão. É absurdo, antidemocrático e falso reduzir o partido a isso. Nem como argumento de luta eleitoral isso deveria ser feito. O PT carregará pela história a grande contribuição que seus governos deram à melhoria da distribuição de renda, à elevação de milhões de brasileiros à condição de cidadãos. Negar-lhe isso é desconsiderar a história. E mentir.

Tratar o PT em conjunto como uma "organização criminosa" é pior ainda. Muitos tucanos fazem isso, agindo como se eles próprios não tivessem outros tantos problemas nas costas. O PSDB teve seu momento de glória durante os anos FHC e não soube aproveitá-lo para deixar uma marca social no pais. Também fez pequena política e má política, "instrumentalizou" o governo de Sao Paulo e não deu outro padrão à gestão urbana na metrópole paulistana, quando teve a oportunidade de fazer isso. Os tucanos têm telhado de vidro e poucos méritos para "descontrair" o PT.

5. O modo petista de atacar o PSDB e Serra é igualmente primitivo, falso e antidemocrático. Dizem que os tucanos são "contra os pobres" e seguem preceitos "higienistas", que estão associados a verdadeiros "criminosos" nas privatizações, que praticam políticas sistematicamente violentas em São Paulo, que mentem e iludem a população, mobilizando para isso argumentos retrógrados e obscurantistas. Menosprezam o papel que os governos tucanos tiveram na estabilização monetária e na racionalização administrativa. Tratam o PSDB em bloco, empurrando-o gratuitamente para a direita. E fazem tudo isso passando batido pelo populista personalista de Lula, por seu sistemático deboche das instituições, incluindo o próprio partido. Estigmatizam o PSDB como reacionário e direitista ao mesmo tempo em que se aliam a Maluf, a Sarney, a Renan Calheiros. Façam o que falo, mas não o que faço: os petistas têm defeitos demais para "desconstruir" o PSDB.

6. O trágico desse tipo de ataques recíprocos é que, com base nele, deixa-se de lado a discussão que realmente importa: a discussão sobre as políticas que foram praticadas por ambos os partidos, sobre os projetos de sociedade que carregam consigo, sobre os interesses sociais que efetivamente representam, sobre seu legado para o país. O maniqueismo grosseiro privilegia as arvores, não enxerga a floresta. Não consegue raciocinar em termos de ciclos, mas somente de resultados tópicos, localizados. Impede que se compreenda que governos são governos, acertam e erram, fazem coisas boas e más. Governos podem e devem ser comparados, mas isso só faz sentido se os critérios forem razoáveis. A análise política das situações políticas não pode frutificar à base de disputas eleitorais, de torcidas passionais ou ideológicas.

7. Dizer, como diz a maioria dos petistas, que Dirceu e Genoino foram acusados sem provas é algo que maltrata a inteligência alheia. A linha seguida pelos juízes foi clara: nem tudo precisa de "prova material" para ser considerado crime, abordagem consagrada nas práticas forenses. Em crimes de lesa-pátria ou que são cometidos nas entranhas do Estado, os indícios, as confissões e os depoimentos falam bem alto.

Dado o enraizamento da corrupção (e do caixa 2, que também é corrupção, ainda que o vejam como "imposição do sistema eleitoral") na vida institucional e na história política do pais, a criação de uma jurisprudência a respeito poderá ser decisiva para que se desestimulem novas tentativas de mensalão, ou de compra de apoio político, seja com que moeda for.

8. O mensalão não foi o primeiro na história nacional. Ele seguiu um padrão praticamente instituído entre nós. É bobagem ficarem falando que se tratou do "maior escândalo" da vida republicana. É bobagem idêntica ficar brigando pra saber qual mensalão foi pior, o de Brasília ou o de Minas. Todos os atos semelhantes devem ter o mesmo tratamento, e o Supremo indicou claramente que é assim que fará. O fato do "DNA do mensalão" não ser petista, porém, não exime o PT de culpa no cartório, nem muito menos inocenta seus coordenadores. A relativização, aqui, é o pior argumento.

9. A mesma militância que chora a integridade de Dirceu e Genoino despreza Delubio Soares, sacrificado sem dó, sem pena, sem deferência. Foi tratado como cachorro morto. Prestou-se ele ao sacrifício, como o bom soldado que morre para salvar o comandante, o exercito ou a pátria. Deveria receber mais elogios que apupos. Mas por acaso não ficou evidente que o desprezo e a falta de solidariedade para com ele escondem uma tentativa de preservar os ocupantes de posições mais elevadas? Nesse caso, tentou-se dar os anéis para preservar os dedos.

10. O chororô petista é ridículo, mas faz parte do jogo. Derramarão lágrimas de crocodilo ao menos enquanto durar a campanha eleitoral, especialmente em SP. Acham que assim tirarão o PT das cordas. Mas o PT não foi nocauteado! Nem grogue ficou. Alguns de seus integrantes perderam as pernas, o partido não. Ir além disso é agitação gratuita. Indica que a direção do partido está em crise de identidade e auto-estima, o que surpreende quando se confronta isso com a força que o petismo exibe no país. Hoje, exceção feita a São Paulo, o Brasil é um vasto território controlado pela coalizão política pilotada pelo PT.

11. O PSDB mostra extraordinária limitação política ao oferecer palco para a auto-imolação pública que o PT e muitos torcedores petistas estão a ensaiar. O núcleo político que comanda a campanha tucana em SP parece cego para isso. Vai insistir no tema, bater a torto e a direito. Pouco se importará em fazer o sangue correr pelas frestas da República, porque acredita que o eleitorado quer precisamente sangue. Provavelmente perderá a eleição por causa disso (ainda é cedo para falar, eu sei). O povo brasileiro é sensível à desgraça dos outros, não resiste a um bom choro, a uma carta de ex-mulher, mãe ou filha. Além disso, é um povo que não liga muito para bate-bocas entre políticos. Aprendeu a vê-los como superfetação, exagero e jogo de cena. Foi treinado para isso por elites políticas pouco comprometidas com o uso público da razão e o diálogo democrático. As mesmas elites que hoje, na pele de petistas e tucanos, protagonizam uma baixaria sem comparação.

12. PT e PSDB assemelham-se a irmãos siameses que caminham abraçados para a morte. Historicamente, são carne da mesma carne. Nasceram em solo paulista, paridos pela mesma elite política e ao embalo da democratização e do desenvolvimento capitalista do pais. Deram expressão política às classes médias urbanas, aos operários revigorados pela industrialização selvagem, ao sindicalismo que queria se libertar da camisa de força do autoritarismo. Ambos quiseram ser uma alternativa à esquerda comunista tradicional, que combateram como "stalinista". Agregaram múltiplos pedaços da esquerda, de trotskistas a católicos radicais, de socialistas a liberais éticos exacerbados. Foram duas vertentes que se alimentaram do mesmo momento histórico. Poderiam ter se reunido e dado ao país a social-democracia que nunca conseguimos ter, e que aqui talvez viesse a agir revolucionariamente. Não tiveram capacidade para fazer isso, foram mesquinhos e egoístas, optaram por maximizar suas diferenças, que foram ainda mais potencializadas pelas disputas por poder em que se meteram.

Agora, ao final do ciclo, extenuados pelos embates insanos que protagonizaram, entregam-se sem pudor às forças do atraso e da regressão política. Converteram-se no pior pesadelo de suas glórias e tradições. Suas línguas envelheceram, ficaram despidas de nobreza, viço e vigor, estão inflamadas pelo prazer sádico do insulto. Não falam mais nada de aproveitável para a sociedade. PT e PSDB estão obcecados por poder e mais poder, o que somente cessará com a morte (valha-me Hobbes...). Ficaram viciados em olhar para o Estado, perderam contato com a sociedade civil. Com isso, pularam fora do campo da esquerda democrática, que para eles, na melhor da hipóteses, tornou-se um território nominal, a ser ocupado somente em termos protocolares e auto-referidos.

13. O chororô petista fica ainda mais ridículo e patético quando combinado com teoria da conspiração. Dizer que os conservadores, as elites, a direita, a mídia golpista agem para "destruir o PT" em nome da luta de classes e de um golpe contra "o mais progressista de todos os governos" chega a ser risível, caso não fosse sustentado por gente graúda, jornalistas, cidadãos maduros e bem informados, professores, lideranças comunitárias e cientistas sociais. Ou é cegueira brutal diante da vida, ou é pura e simples manipulação. Isso porque nunca houve antes na história desse pais um arranjo governamental mais amado pelos interesses economicamente dominantes. Por qual motivo esses interesses conspirariam contra aqueles que lhes garantem sossego, lucros, casa e comida? Mas, dirão alguns, e quanto às "elites", às "classes médias conservadoras" e, claro, à mídia, que simplesmente têm "ódio do PT"? A argumentação circular desafia a lógica e os fatos.

14. É uma tristeza ver gente que se diz de esquerda, moderna e democrática usar esse tipo de estratagema. Ele abusa da idéia de que se estão contra mim é porque querem o meu fim. Não aceita que se faça oposição ou se divirja de um governo porque, afinal, esse governo "mudou a face do país" e por isso deve ser devidamente canonizado, ou seja, não pode ser criticado. Se o criticam é porque querem o seu mal e o seu fim. Haveria sempre um golpe em marcha em toda critica, especialmente quando ela é vocalizada pela imprensa. Jornalistas, sobretudo os da grande mídia, não erram e não tem uma cultura profissional típica: simplesmente estão "a serviço dos interesses dominantes" e por isso sempre estão a tramar um "golpe" contra o povo. O único jeito de combatê-los é mediante a "regulação da mídia", postulação sempre feita mas jamais suficientemente esclarecida.

Estratagema simplista, maniqueísmo em excesso, tratamento grosseiro da dialética da luta de classes. Adjetivações inócuas.

15. Os tucanos e muitos antipetistas dão gás para essas sandices ao falarem do mensalão em termos moralistas, não políticos. Comportam-se como santos e justiceiros, sempre vigilantes contra a maldade dos outros. Jamais olham para o próprio umbigo, jamais analisam o quadro político, cultural e institucional em seu conjunto. Se fossem tudo o que dizem e acham ser, deveriam agir de outro modo, conclamar a população a virar a página, assumir sua própria culpa como partido (o tal mensalão mineiro), tomar providências para blindar as instituições contra quaisquer tentativas de instrumentalização.

Só não se saem pior porque os petistas, por sua vez, agem com incompetência ainda maior: berram a plenos pulmões que a condenação do "núcleo político" foi "hipócrita" porque não se baseou em provas e porque visou atingir o partido, não certas pessoas. É burrice demais: em vez de entregarem os anéis, entregam dedos, mãos, braços, pernas, cabeça e coração, expondo o conjunto do partido à execração pública.

16. Certo esteve Lula em 2005 quando se separou dos "companheiros aloprados" e disse: "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas." Foi cínico, individualista e cruel, mas foi realista e maquiaveliano. Ganhou as eleições de 2006 com essa atitude. Tivesse o PT aproveitado aquele momento para fazer a devida autocrítica, se reformular e se ajustar, estariam todos muito melhor hoje.

Hoje, Lula está na linha de frente do gestual que pede revanche e revide, que é, para mim, o caminho mais curto para a destruição do rico patrimônio petista. Depois tem gente que acha que não existe um "lulismo" superposto ao petismo.

17. Os ministros do Supremo foram majoritariamente designados por Lula e Dilma. Talvez a raiva petista contra as decisões seja um misto de decepção e surpresa. Juízes "traidores do povo brasileiro", marionetes nas mãos da opinião pública manipulada pela mídia golpista: as palavras cortam como lâmina afiada, mas não fazem jus ao que se falava do STF antes do julgamento começar, quando se acreditava que tudo terminaria em pizza.

Levantar suspeitas quanto à isenção de uma Corte cujos membros foram na maioria indicados pelos próprios presidentes petistas, dizendo que ela se comporta como se fosse teleguiada pela mídia e "condena sem provas", é uma atitude pouco inteligente, porque não tem base lógica nem racionalidade política. É desconhecer a natureza das instituições e a natureza dos homens investidos do poder de julgar, que seguramente não costumam arriscar sua honra e seu prestigio para se curvar a uma pressão política.

18. Toda a operação desenvolvida pelo STF teve grande valor pedagógico. A cidadania deveria ser incentivada -- por todos, mas sobretudo pela esquerda democrática, que é a que mais tem interesse na pedagogia democrática -- a aprender com o julgamento, e não a vê-lo como uma "farsa".

É um equívoco (ou argumento dedicado somente agitação) dizer que o Judiciário usurpou o lugar da política. Ele não está "criminalizando" nem a política, nem os partidos, nem os movimentos sociais, como se ouve falar por aí. Está somente julgando atos denunciados como ilícitos penais pelo Ministério Público que, salvo melhor juízo, é uma instituição republicana, saudada e respeitada por todos os democratas. Seguem preceitos hermenêuticos consagrados, baseiam-se em alguma jurisprudência, tem pouquíssimo espaço para advogar em causa própria. O STF não é um salvador da pátria, mas é incoerente e antidemocrático vê-lo como joguete nas mãos da "mídia neoliberal" ou da "direita conservadora".

19. José Dirceu tem muitos motivos para estar decepcionado, para se sentir injustiçado e perseguido. Jamais imaginou que a história poderia terminar assim. Mas não mostra muita sensibilidade política ao jurar que irá à luta para revidar o golpe que sofreu graças ao "estado de exceção" instalado pelo STF. Menos mal que ele tenha enfatizado o combate eleitoral como primeiro round do revide. Mas deveria ter mais compostura cívica, retirar-se para a vida privada, deixar a poeira baixar e fazer uma reflexão circunstanciada sobre tudo o que ocorreu. O pior que pode fazer agora é sair por aí agitando a galera.

20. O PT atira no próprio pé e perde estatura como partido ao se recusar a aceitar que errou. Sairia engrandecido do episódio se assumisse a culpa pelo que ocorreu de errado, pedisse desculpas e tocasse a vida com a velha vibração de antes. Posar de coitadinho é horrível para um partido que se pretende revolucionário. Rouba energia da militância, gera desconfiança no cidadão, mostra tibieza e fragilidade perante adversários e aliados. Deslegitimar as instituições do Estado num momento em que o partido ocupa o centro do processo político nacional e detém muitos recursos de poder é atitude tosca demais. Empurra o PT de volta a um gueto de que ele próprio se esforçou tenazmente para sair.

21. Gostem ou não gostem deles, o fato é que PT e PSDB são o que de melhor temos por aqui. Conseguirão se reerguer, lamber suas feridas, se autocriticar e levar a sério a crise em que se encontram? Se o fizerem, renascerão das cinzas e fortalecerão a democracia brasileira. Têm massa critica para fazer isso. Terão coragem para fazê-lo? É o que teremos de descobrir no próximo ciclo, que se abrirá assim que se fecharem as urnas do segundo turno.

16 comentários:

Felipe disse...

Boa tarde, Marco!

Belíssimo texto! Seu "kit de sobrevivência" é, no mínimo, essencial para o dia-a-dia daquele que gosta de política e de debater sobre ela. Além do mais, vem a calhar, uma vez que estamos em época de duras eleições municipais, compostas na maioria das vezes de rasas propostas e exacerbados ataques.

Refleti a respeito de muitos pontos desse "kit". Durante várias vezes desfrutamos da mesma opinião, porém em algumas outras, parece que não analisamos o mesmo objeto. Quanto ao ponto 13, por exemplo.

Desde já, aviso: possuo maior apreço pelo PT do que pelo PSDB, porém estou longe de levantar qualquer tipo de bandandeira partidária ou, até mesmo, imergir em discussões do tipo "meu partido é sou menos sujo do que o seu". É, no mínimo, triste a realidade dos meios de comunicação que temos hoje em dia. Os jornais, os portais de internet, as revistas - nos privam de uma informação realmente crítica e instrutiva, pois estão mais interessados em afagar o partido predileto do patrão, seja através de reportagens amaciadas sobre esse determinado partido, seja em furos jornalísticos preocupados na maximização de supostas falhas cometidas pelo partido contrário.

Infelizmente, tem-se visto uma tentativa notável de desmoralização do PT nos principais canais da mídia. Então se quero construir um "meio-termo", devo me desfrutar primeiro com notícias da Folha de São Paulo e, logo após, acessar o blog do Nassif? Mas que bobagem!

Estou em busca da constante reflexão, da discussão racional, da construção de idéias que se assemelhem e adaptem, por pouco que seja, à realidade conjuntural de nosso país. Porém os meios, ah, os meios... infelizmente, estão cada vez mais contaminados com essa suposta "ideologia" que, talvez por ignorância minha, ou, até mesmo, teimosia, insisto em não enxergar.

Grande Abraço!

Redator-chefe disse...

Olá, Felipe,

muito obrigado pelos comentários, que fazem o que é mais fundamental no momento: dar sequencia ao debate.
Há algo que não consta no meu roteiro e que vc trouxe à tona: a questão da midia. É um tema essencial e complexo, pois nosso modo de vida tornou-se midiático e quanto mais soubermos lidar com os canais da mídia, melhor.
Ao enfrentá-los, creio que nos deparamos com uma bifurcação: eles cumprem um extraordinário papel democrático (informação, revelações, denúncias, transparência) e, ao mesmo tempo, algumas vezes extrapolam e se põem numa posição "superior".
Não creio que exista, como vc fala, uma "campanha de desmoralização do PT". O que existe é uma postura generalizada da grande midia de olhar para partidos e governos e políticos como se eles fossem suspeitos de antemão. Não há, por exemplo, um tratamento jornalistico que privilegie o PSDB ou o DEM, ou o PSB, e que denigra a imagem do PT. Os grandes jornais, tipo Folha e Estadão, ao contrário, elogiam bastante o governo Dilma. Não gostam muito de Lula (mas até aí nada demais, eu também não gosto...), mas não deixam de reconhecer o papel importante que ele teve na história brasileira. Criticam Lula do mesmo modo que muita gente que não dispõe de tribuna, chamando atenção para seu populismo, seu deboche permanente, seu estilo provocador, etc.
Imprensa democrática no mundo todo faz isso.
Há exageros e forçações de barra? Com certeza, mas acho que eles são pouco importantes. A não ser que a gente considere que as colunas de Arnaldo Jabor (que até tem coisas interessantes) e de Reinaldo Azevedo (Veja) são efetivamente influentes. Acho que não são, ainda que alimentem a mente de muita gente. A Veja talvez seja o órgão de imprensa que pratique o jornalismo mais descompromissado com a ética. O Estadão não faz isso, nem a Folha, nem a Globo.
De resto, sempre será o caso de se ter "imprensa alternativa", pois o sistema é o sistema.
Construção racional de ideias é algo que precisa ser feita não a partir das pautas da grande imprensa, mas com elas.
Continuemos, se for o caso.
Abraço

Alexandra Pericão disse...

Gostei muitíssimo do texto, mas, como advogada, ñ posso concordar com o que tenta passar de que indícios são corriqueiramente aceitos em processos criminais na falta de provas materiais. Isto ñ é verdade e fere princípio importantíssimo do Direito Penal. Também as provas testemunhais a que se refere são de uma fragilidade que causa espanto todo este ódio - incentivado sim pela velha imprensa - contra o ministro Lewandowski (estou insegura agora sobre a grafia correta de seu nome). Ingenuidade tbm. seria ñ atentarmos para os malefícios que esta pressão absurda da velha imprensa, reforçada pelas sessões televisionadas, vem causando ao próprio julgamento. Ministros são "humanos, demasiados humanos" e se rendem sim a tudo isto. Pode parecer ao leigo que agora se faz justiça, mas eu me pergunto como sobreviverá nosso ainda jovem - mui jovem - Estado de Direito se persistir esta forma cinematográfica de julgar, onde advogados de defesa ( dentre eles, grandes professores do Direito) recebem, com os aplausos da imprensa, deboches e mais deboches do próprio relator do processo, vaidoso do novo apelido ( Batman do SUpremo)... Como? Pode acreditar: isto é bem preocupante. Abraço!

Redator-chefe disse...

Olá,Alexandra, obrigado pelo comentário. Nele, você diz coisas importantes, que daqui para frente passarei a considerar com mais atenção.

O texto que escrevi foi feito ao sabor da hora e certamente passou batido por alguns pontos essenciais. Não quis dar a entender que "julgar sem provas" é corriqueiro nos tribunais, mas sim que o conceito de "provas" é complicado quando se trata de crimes de lesa-pátria. Não sei, por exemplo, como foram arroladas as provas no julgamento de Nuremberg (não estou comparando esse julgamento com o do mensalão, que nem de longe teve a gravidade do primeiro). Que "provas" os juízes deixaram de considerar? Um cheque assinado, a filmagem de uma reunião, uma ordem escrita? Elas jamais existiriam, creio, mas nem por isso faltaram "indícios" de que algo de ilegal rolou. Foi assim que entendi, por exemplo, a argumentação de Rosa Weber. Mas não sou especialista, e aceito com tranquilidade a hipótese de estar completamente equivocado.

Concordo com você que a espetacularização do julgamento não beneficia em nada a isenção dos juízes. São humanos, e devem ter sido influenciados pelo show que se montou ali. Isso, no entanto, não me parece suficiente para que se diga que eles foram "comandados pela mídia e pela opinião pública", que é o ponto que desejei destacar.

O ministro Lewansowski não é novato nessa cena, nem ingênuo. Assumiu o risco de divergir de seus colegas e de ser visto como patinho feio. O clamor contra o mensalão acabou por prejudicá-lo e ele foi etiquetado como uma espécie de vilão.

Não compartilho dessa visão que criminaliza o juiz. Acho que ele agiu conforme sua consciência e seu senso de justiça. Mas não acho que a velha imprensa tenha destilado "ódio" contra ele. O próprio conceito de "velha imprensa" precisaria ser qualificado. A quem se refere precisamente? Alguns órgãos jornalísticos podem ter feito carga pesada contra Lewandowski, mas outros (creio, a maioria) não fizeram isso. Alguns colunistas fizeram, com certeza, mas eles não falam pela imprensa no conjunto, nem são donos dos jornais, etc. Pode ser que se ache que os donos usam esses colunistas para dizer o que eles não podem dizer, mas eu prefiro seguir a análise dos editoriais, que é onde está a voz do dono. E neles, não consegui descobrir esse "ódio" contra o ministro.

De resto, a briga do Barbosa com o Lewandowski é de uma pobreza de fazer pena. Ambos deslustram o STF e passam à sociedade a impressão de que ali também se tem bate-boca de moleques vaidosos.

Em suma, concordo com vc que tudo é bastante preocupante, ainda que ache que a condenação cumprirá uma função pedagógica importante na vida política brasileira.

Abraço

Gaspar disse...

Marco, acabo de ler seu material sobre o mensalão. Muito bom mesmo. Fiquei muito gratificado por poder ter acesso a ele. No seu texto você vai fundo coloca os pontos nos lugares corretos. Se permite,queria aproveitar para colocar uma questão que vem me incomodando. Não diz repeito diretamente ao seu texto, mas gostaria de saber de você como enxerga a questão. Avaliar situações relacionadas a PT e PSDB sempre comparando-os não obedece a uma lógica perversa?

Redator-chefe disse...

Gaspar, vc tem razão. Mas esse é um dado da política brasileira e particularmente das eleições atuais. Creio que isso se deve, em boa parte, ao fato de PT e PSDB serem forças políticas expressivas, que têm alguma cara num país em que os partidos têm pouca cara.Como debate político sempre se faz comparando, não há como fugir da polarização quando se trata de discutir os partidos que mais claramente se contrapõem no país.
Mas há estudos que não fazem isso. Por exemplo, os do André Singer, que se remetem exclusivamente ao lulismo (bem, não é propriamente PT, mas quase...). Abraço

Alexandra Pericão disse...

Abraço. Marco! Realmente exagerei ao falar em ódio. Fui!

bob arbos disse...

Prezado Marco. Em meio a tanta bobagem dita por gente adulta, em que se percebe a luta insana de uns pela paternidade da ética e da verdade, de outros pela maternidade da moral, o seu texto é verdadeiro alento, um chamamento à lucidez e a ponderação. Nunca fui petista, nem tanto pelos petistas, entre os quais tenho grandes amitos, mas pela figura do grande Xamã. Você sabe de quem falo. Esse grande Xamã, de inegável talento político, de inquestionável carisma nas tábuas dos palanques, segue ao pé da letra a cartilha que sempre execrou. Não sai de minha cabeça e, pior, de meus ouvidos, as suas declarações contra o congresso (os picaretas, lembram-se?), contra o Maluf, contra o Sarney, contra todo mundo... longe de mim defender essa gente, expressão do pior da vida republicana. Mas, tenham paciência, um pouco de memória e coerência não fazem mal a ninguém, assim como o minguau e o Elixir de Scott. Um partido como o PT não pode ficar refém dessas figuras, incluo aí o zédirceu e zegenoino, para não falar de outros tão graudos de divisa quanto nanicos de moral) Deveria ser maior que eles, olhar para as questões do país. Jogar os tais anéis na lata de lixo da história e preservar os dedos com os quais pode ajudar a escrever o futuro. Voltando à memória: Lula apertando a mão do Maluf, comendo na mão do homem nos jardins da mansão dos jardins, foi mais que patético: foi de embrulhar o estômago. Tudo em nome da tal governabilidade. Deu no que deu e essa gente não aprende! A eles, as batatas. Ao povo, as cascas! Temos muito que andar para sair dessa condição de país de 5a. classe!

Redator-chefe disse...

Bob, concordo com vc que partidos não devem ficar reféns de seus lideres, por melhores que sejam eles. Lula é uma vantagem e um problema para o PT. Emprestou base de massa para o partido, contribuiu para que aumentasse o prestigio da sigla, que ele ajudou a "descriminalizar". Mas, ao mesmo tempo, afirma muitas vezes de forma unilateral seu carisma, travando certos movimentos renovadores no interior do partido.
A politica, infelizmente, tem dessas coisas.
Abraço, e obrigado pelo comentário.

Antonio Marcio Costa disse...

Caro Marco Aurélio,
Em primeiro lugar, meu entusiasmado abraço ao amigo intenso, mesmo que distante.
Ouso dizer que o argumento motivador do seu texto, onde o mensalão entra como a pedra da “sopa de pedra”, é a reflexão sobre a tênue vida, fraca paixão e - quiçá... - morte da social democracia no Brasil. Vejo o núcleo da argumentação no tópico 12 e, a partir dali, em cada linha, toda a sua indignação pela estupidez dos partidos que poderiam ter construído uma vida política com muito mais compostura para este país.
Já no fim da condição de sexagenário, vibro com a arte do amigo, mas já não consigo fazer sobreviver, sem cinismo, nenhuma das quimeras que tive na minha militância político-partidária.
Antônio Márcio Costa.

Antonio Marcio Costa disse...

Caro Marco Aurélio,

Em primeiro lugar, meu entusiasmado abraço ao amigo intenso, mesmo que distante.

Ouso dizer que o argumento motivador do seu texto, onde o mensalão entra como a pedra da “sopa de pedra”, é a reflexão sobre a tênue vida, fraca paixão e - quiçá... - morte da social democracia no Brasil. Vejo o núcleo da argumentação no tópico 12 e, a partir dali, em cada linha, toda a sua indignação pela estupidez dos partidos que poderiam ter construído uma vida política com muito mais compostura para este país.

Já no fim da condição de sexagenário, vibro com a arte do amigo, mas já não consigo fazer sobreviver, sem cinismo, nenhuma das quimeras que tive na minha militância político-partidária.

Antônio Márcio Costa.

Redator-chefe disse...

Querido Márcio, é realmente um prazer poder conversar com vc, mesmo que assim, "indiretamente" e "à distancia". Concordo com vc quanto ao argumento central do texto, a morte da social-democracia, ou as oportunidades perdidas para que ela se constituísse com forca no Brasil. O panorama atual é triste, falta dignidade e vibração na maioria dos personagens. Triste e complicado, porque ao lado da morteiras nossas quimeras vão-se embora também as possibilidades de reforma social do pais.

Condivido com vc essa dificuldade de fazer com que sobrevivam as fantasias que tivemos, cada um a seu modo, na militância partidária.

Pode ser uma fase, mas a impressão que tenho é que essa onda veio para ficar.

Abraço saudoso

Celso Masotti disse...

Com certeza um dos melhores textos a respeito da dicotomia existente hoje entre os dois maiores partidos (legendas, se preferirem) do país. Adorei ler cada palavra. Forte abraço.

Redator-chefe disse...

Muito obrigado, Celso. Abraço

Ligia Malta disse...

Muito bom texto, tentando aparar os extremismos. Certo, o PT errou, deveria ter admitido o erro. Mas como fazê-lo sem que ficasse parecendo, como agora, que somente êle errou?
Esse é o unico "extremismo" petista que eu reconheço, negar totalmente o erro.
O outro que você aponta como ridiculo,o da teoria da conspiração,é menos obvio. Não me parece racional negar a pressão da midia. Como não me parece racional negar a existência, na nossa historia mais ou menos recente de conspirações desse tipo, envolvendo o poder da midia. Elas semprem se apresentam como meros exercicios de liberdade de expressão, antes que a historia lhes dê posteriormente o nome de conspiração.
Também, sem ser advogada,achei bastante inovador (no minimo)a aceitação de indicios como provas, por mais que êles sejam indicadores. Outros indicadores até bem mais "indicantes" não foram suficientes para condenar outros réus recentes, banqueiros ou politicos: me vem o exemplo do Collor,inocentado por esse mesmo tribunal sendo a prova existente (video ou gravação, não sei) mas obtida sem autorização. Então fico com a Alexandra Pericão, que sendo advogada, se disse preocupada com esses sinais, e com a superexposição do julgamento. Você esqueceu, alias de abordar a questão do proprio calendario do julgamento. Acaso que as condenações mais emblematicas calhem nas vésperas do primeiro e do segundo turno das eleições?
Também tenho esse "sonho dourado" de ver esses dois partidos, que partiram de pontos semelhantes, se unirem. Mas prefiro dizer que tinha, pois como você proprio disse, o PSDB deslocou-se, ou foi empurrado,para a quase extrema direita, pelo menos com o Serra e seus metodos de campanha.
Então, eu agradeço ao seu roteiro bem intencionado (sem ironia),mas que parece querer conciliar o que ja se tornou inconciliavel.
Mas enfim, é um bom debate porque temos que sobreviver.

Redator-chefe disse...

Ligia, essa é uma discussão que não será fechada e que quanto mais aberta permanecer, melhor. Como vc observou no texto e poderá ver nos demais comentários que fiz aqui, não vejo como producente, ou sequer razoável, qualquer teoria conspiratória. Todos nós sabemos da força da mídia e me parece ingênuo um partido do porte do PT ficar se esgoelando para denunciar a interferência da midia na vida política ou a perseguição que sofre dela. Quanto aos ritmos e critérios do STF, creio que isso é o que acontece em um Estado de Direito. Juízes humanos, com suas opiniões e sensibilidades, mas preocupados em tomar decisões com base na Constituição. Tudo foi feito às claras, transmitido on-line. Qualquer um de nós pode acompanhar os argumentos, etc.
Por fim, vc pode não gostar do tom conciliador do artigo e achar que o inconciliável prevalcerá. Concordo, mas isso não significa que tenhamos de permanecer em silêncio sem denunciar a hipocrisia ou a cegueira de 2 partidos-irmãos que poderiam ter feito muito pela sociedade, se acaso tivessem sido mais generosos e inteligentes.
Não vejo Serra como um cara de direita e menos ainda de extrema-direita. Acho-o simplesmente um sujeito que faz política de um modo inócuo, que não agrega e nem busca construir bases sociais. Por isso, termina por colocar em curso campanhas tão ruins quanto a desse ano. Não ouve ninguém, ou só ouve o que lhe interessa. Uma pena, porque foi uma figura importante na democratização do país e é um quadro técnico de valor. O PSDB foi para o centro, mas a pergunta que fica é: quem não foi? Em termos de guinada para o centro, o PT fez um movimento muito mais agudo, abrupto e pouco explicado (até porque não admitido). Essa é a droga da política brasileira das últimas décadas: um centrismo inconfesso, cujo maior mérito é ter estabilizado a democracia entre nós.
Muito obrigado pelos comentários. E espero que possamos continuar conversando, discutindo e divergindo!