terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante


Lula sai glorificado da Presidência por que fez um bom governo, por que é um bom comunicador, por que conseguiu desagradar a poucos, por que conseguiu estabelecer um vínculo de identificação com as massas, ou pela somatória disso tudo e mais um pouco?
Sempre impliquei com a expressão "populismo". Com o passar do tempo, passei a achar que a implicância era dura demais. A expressão pode ganhar o status de conceito, desde que reduzida ao mínimo lógico: estilo de liderança que dispensa mediações institucionais vigorosas e busca permanente interlocução direta com as massas. Desse ponto de vista, é um estilo que se dissemina com facilidade hoje em dia, flutuando sobre os escombros  institucionais do Estado democrático, a desorganização das estruturas de classe e a natureza sempre mais midiática da política. Hoje me pergunto: o populismo atual é a maturação de um estilo que merece respeito ou deriva tão-somente da ruptura dos laços entre partidos e sociedade? É uma falha sistêmica ou somente a lapidação de um procedimento tão antigo quanto andar prá frente?
O destaque e o prestígio de Lula são ou não são proporcionais à desmoralização e à desimportância dos partidos políticos? Teriam acontecido se acaso os partidos continuassem a ser estruturas consistentes, com personalidade própria e capacidade de decidir coletivamente?
Lula deixará saudades ou dentro de alguns meses não será mais que uma lembrança em processo de desmanche?

12 comentários:

Cláudio André disse...

Professor,

te vi no encontro da ABCP em Recife em agosto. Infelizmente, não pude falar com você.

Muito interessante este leque de questionamentos.

Sobre o lulismo e o petismo, escrevi em meu blog um texto recentemente. O link é http://pilulasdebinoculo.blogspot.com/2010/12/o-lulismo-e-o-petismo.html

Bom fim de ano.
Abs
claudio andré, mestrando UFBA

FRANCISCO ARAUJO disse...

Caro Marco,
interessantes questões...Considero coisas que se mesclam, algumas delas, há uma plasticidade, um caráter móvel e capaz de ser modelado a cada instante... fluxo tranquilo da promiscuidade entre o personalismo e institucional (o direito universalizado/impessoalidade, entre o público e privado.... Os partidos não precisam mais de significado outro...
No bom modo Maquiavel: é assim! "Duro, dura e consome toda a existência"... mas é! A política enquanto valor transmutou para para situação derivada da política como fato!
Inté!

Redator-chefe disse...

Valeu, Claudio. Li teu texto, muito bom, e deixei (ou acho que deixei) um breve comentário no teu blogue.
Pena que não pudemos conversar em Recife!
Abraço,

Redator-chefe disse...

Chico, são questões retóricas mesmo. Mescladas, não necessariamente respondíveis. Boa lembrança de Maquiavel. Inté!

Azor Toledo Barros disse...

O artigo "Nada será como antes" transmite uma mensagem de inveja, pois este Presidente teve o maior apoio da população do início ao fim do seu Governo. Entendo que os defensores dos antigos Presidentes tentem de alguma maneira buscar justifcativas para seus depempenhos inferiores quando comparados ao Brasil do Governo Lula. Entendo a inveja do autor, eu também teria se fosse ele.

Anônimo disse...

Eu o respeito por ser prof. dr. de uma unesp, mas seu texto no estadão, "Nada será como antes", foi feito sob ranço com a típica leitura da classe média com certo arsenal de cultura que vê o Lula como incógnita. Felizmente nem todos os intelectuais são assim e para esses, além de não haver surpresas, há uma compreensão elástica fora do entendimento pejorativo e desqualificador que muitos tentam impor ao Lula. Sociólogos e acadêmicos de plantão sairão às ruas para desconstruir o governo Lula, mas percebo que fracassarão na tarefa.

Redator-chefe disse...

Anônimo: acho ótimo que vc queira provocar e marcar posição. Vá à luta, qualifique melhor e clarifique seu argumento. Não consegui perceber a elasticidade de sua análise compreensiva do Lula, nem onde vc quer chegar com a ideia de um Lula "incógnita". Seu texto é cifrado e gratuitamente agressivo. Não ajuda na discussão.

André Henrique disse...

Certa feita, Lula disse que seria preciso o Brasil criar um aparato de defesa a outros presidentes, para não passarem o que ele passou. Ele disse: levei mais chicotadas do que Jesus Cristo. Passando o que eu passei, Vargas deu um tiro no próprio peito. Tudo bem que temos de ter frieza para analisar essa figura - achei interessantíssima a pergunta sobre populismo (e as outras também, evidentemente) - mas como diz o professor Werneck Vianna: “licença, farei um juízo de valor”. Desculpem, mas o Lula ultrapassa qualquer limite do aceitável. O homem foi poupado no mensalão. Ninguém fala dos filhos dele que enriqueceram com o pai na presidência. E ele vem dar uma de Vargas.
O governo Lula teve méritos? Evidente que teve. Acelerou os programas sociais e politicamente foi hábil para lidar com os diferentes grupos de interesse - muito embora tenha sido beneficiado pela estabilidade política - advinda do exercício ininterrupto de eleições - e pela estabilidade financeira. Todavia, é hiperbólico este senhor se comparar a Getúlio. Nunca achei Lula egocêntrico, mas o poder o enfeitiçou de tal maneira que ele se tornou patético. Na política externa, apostou tudo na “boa imagem” e fez aquele acordo patético com o Irã. Caiu do cavalo. Agora, quando muito, Lula vai acabar com a fome do mundo na FAO. No Brasil, Lula comete deslizes corriqueiros, mas ninguém pode criticá-lo sob pena de ser chamado de preconceituoso. Dentro da democracia existe uma doxa autoritária? Como o professor bem frisou no seu estupendo artigo, Getúlio ancorou um pacto social, modernizou o Brasil, mudou paradigmas. Um grande estadista. Visionário. Muito embora tenha sido autoritário. O que não me incomoda tendo em vista que naquela época o Brasil era um arremedo de país prestes a se partir em pedaços. Centralizar não era mau negócio. Oliveira Viana enxergou isto à época. E concordo com ele. Pelo menos é a visão que tenho hoje.
Não vi grandes mudanças provocadas por Lula, o que vejo é o Brasil surfando nas ondas da "boa economia" que, a qualquer gripe do capitalismo, pode entrar em colapso e trincar ao meio o elástico que segura o pingo de coesão que sustenta nossa sociedade. O que espero de um presidente é que invista pesado na educação, com vistas a formar cidadãos. Um projeto que tenha começo, meio e fim, que sobreviva a troca de governos, como o Plano Real. Temos de ter mais do que indivíduos “desejantes”, penso. E os deveres?

André Henrique disse...

Creio que avançamos, mas é preciso mais. FHC pode não ter sido "o grande presidente", mas pegou o Brasil atolado na inflação, em dívidas e no atrasado tecnológico. Há quem, do curso de economia, afirme humildemente que ele deveria ter modernizado o Brasil apoiando-se na indústria nacional. Caçarola, que indústria nacional? FHC errou aqui e acertou acolá. Poderia, sim, ter reforçado a indústria nacional, vai saber, mas não tinha tempo para esperar frutificar uma indústria nacional – que não existe até hoje - que colocasse o Brasil no compasso da globalização. FHC privatizou. Foi um marco de reorganização do Estado, gostem ou não. E universalizou a educação. Foi um passo. Grande, diga-se. Daqueles que marcam história e que facilitam a vida do sucessor. Sem controle da inflação não haveria estabilidade econômica. Sem universalização da educação não poderia haver políticas públicas visando à qualidade e a expansão do ensino, como acontece no ensino técnico e superior. Numa sociedade que alijava 60% da população do acesso ao ensino publico, não haveria como fazer o PROUNI e o FUNDEB (votado só no final do governo). Que herança maldita, hein?
Voltando ao Lula. (Desculpem, mas é que minha elasticidade arrogante de classe baixa é prolixa). Acredito que ele, assim como o PT, desde o início, tinha a intenção de tocar fogo no passado e se fazerem absolutos. Como Lula ficou maior que o PT, quer se tornar o messias - do pé quebrado, julgo. A oposição a este senhor é tão grande, sobretudo na juventude, que chego a duvidar dos 80% de aprovação.
Devemos reconhecer os avanços de seu governo, respeitar sua trajetória e genialidade política, todavia, jamais aceitar as fanfarronices deste senhor que nos remete a valores ultrapassados e antidemocráticos. De fato, Lula flutua sobre os partidos (despedaçados) e sobre a sociedade (este ente abstrato cortado pela lógica do consumismo, do individualismo e sem grandes amarras de valores, logo, vulnerável a este “populismo moderno”). Fora do poder, aposto que Lula tentará desmistificar o mensalão e ajudar o PT a impor algumas agendas, como o controle social da imprensa. Veremos!

André Henrique disse...

Tava dando erro, faltou esta parte, desculpe.


Creio que avançamos, mas é preciso mais. FHC pode não ter sido "o grande presidente", mas pegou o Brasil atolado na inflação, em dívidas e no atrasado tecnológico. Há quem, do curso de economia, afirme humildemente que ele deveria ter modernizado o Brasil apoiando-se na indústria nacional. Caçarola, que indústria nacional? FHC errou aqui e acertou acolá. Poderia, sim, ter reforçado a indústria nacional, vai saber, mas não tinha tempo para esperar frutificar uma indústria nacional – que não existe até hoje - que colocasse o Brasil no compasso da globalização. FHC privatizou. Foi um marco de reorganização do Estado, gostem ou não. E universalizou a educação. Foi um passo. Grande, diga-se. Daqueles que marcam história e que facilitam a vida do sucessor. Sem controle da inflação não haveria estabilidade econômica. Sem universalização da educação não poderia haver políticas públicas visando à qualidade e a expansão do ensino, como acontece no ensino técnico e superior. Numa sociedade que alijava 60% da população do acesso ao ensino publico, não haveria como fazer o PROUNI e o FUNDEB (votado só no final do governo). Que herança maldita, hein?
Voltando ao Lula. (Desculpem, mas é que minha elasticidade arrogante de classe baixa é prolixa). Acredito que ele, assim como o PT, desde o início, tinha a intenção de tocar fogo no passado e se fazerem absolutos. Como Lula ficou maior que o PT, quer se tornar o messias - do pé quebrado, julgo. A oposição a este senhor é tão grande, sobretudo na juventude, que chego a duvidar dos 80% de aprovação.
Devemos reconhecer os avanços de seu governo, respeitar sua trajetória e genialidade política, todavia, jamais aceitar as fanfarronices deste senhor que nos remete a valores ultrapassados e antidemocráticos. De fato, Lula flutua sobre os partidos (despedaçados) e sobre a sociedade (este ente abstrato cortado pela lógica do consumismo, do individualismo e sem grandes amarras de valores, logo, vulnerável a este “populismo moderno”). Fora do poder, aposto que Lula tentará desmistificar o mensalão e ajudar o PT a impor algumas agendas, como o controle social da imprensa. Veremos!

Anônimo disse...

Marco A. Nogueira,
Fiz referência mais recentemente a esse seu post "Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante" de terça-feira, 21/12/2010 pelo menos em dois posts:
Primeiro junto ao post "Viajar juntos" de terça-feira, 18/01/2011 no blog de Alon Feuerwerker e que pode ser encontrado no endereço a seguir (Para ter acesso à caixa de comentário é preciso chegar o comentário via o arquivo para o mês de janeiro de 2011):
http://www.blogdoalon.com.br/2011/01/viajar-juntos-1801.html
E segundo no blog do Luis Nassif junto ao post "Sobre popular e populista" de sábado, 12/02/2011 às 20:36, montado a partir de um comentário do comentarista Bento em outro post. O endereço para o post "Sobre popular e populista" é:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/sobre-popular-e-populista
Neste último, em comentário enviado quinta-feira, 17/02/2011 às 23:16 para completar um outro que eu enviara domingo, 13/02/2011 às 01:12 para um comentário de Andre Araujo de sábado, 12/02/2011 às 22:32 e que se encontra na primeira página dos comentários, eu fiz uma rápida observação sobre o seu post que penso que vale à pena ficar transcrita aqui. Para evitar que o comentário exceda o número máximo de caracteres, deixo a transcrição para um próximo comentário.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/02/2011

Anônimo disse...

Marco A. Nogueira,
Dou continuidade ao comentário anterior fazendo a transcrição que eu prometera:
"Eu não precisava dizer mais nada depois do que o Clayton Filho [O comentário do Clayton Filho estava na última página do mesmo post, mas eu o transcrevi para esclarecer melhor o meu entendimento] diz no comentário dele transcrito, pois se verá que o comentário dele é quase repetido na análise que eu intentara antes fazer quando mencionei o post “Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante” de 21/12/2010 no blog Possibilidades de Política do professor Marco A Nogueira.
Quando eu comecei a ler o post de Marco A Nogueira “Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante”, eu fiquei com a impressão que finalmente a academia resolvera desmistificar o termo populista. No segundo parágrafo do post ele diz:
“Sempre impliquei com a expressão "populismo"”.
Então [A junção aqui não ficou correta, seria melhor uma conjunção adversativa] ele arrefece e diz:
“Com o passar do tempo, passei a achar que a implicância era dura demais”.
E acrescenta:
“A expressão pode ganhar o status de conceito, desde que reduzida ao mínimo lógico: estilo de liderança que dispensa mediações institucionais vigorosas e busca permanente interlocução direta com as massas”.
Como ele diz, reduzida ao mínimo lógico o termo populismo ganha status de conceito. Sim, reduzida ao mínimo. Há que se vê se é lógico. E aqui relembro o que o Clayton Filho disse no comentário dele:
“O termo "populista" ( . . . . ) acabou perdendo praticamente todo seu poder explicativo”
No fundo o conceito aceito de populismo não diz nada. O conceito que Marco A Nogueira adota considerando-o um mínimo lógico vem de um conceito mais duro, menos técnico, que se fazia do populista:
“Populista é o líder que passa por cima das institucionais para estabelecer interlocução direta com as massas”. Só que não se esclarecia o que se queria dizer com passar por cima. Passar por cima, como um trator, como Hitler fez com o parlamento alemão não é próprio de um político democrático. Então se o político é democrático ele não podia ser populista nos limites da definição. Agora, passar por cima no sentido de fazer a locução direta com as massas é quase que uma obrigação de toda liderança, não só na chefia do executivo como também no exercício da função parlamentar. Quando se requer que a liderança parlamentar – e todos os deputados são lideranças parlamentares – exerça sua atividade não só dentro do parlamento, mas também em contato com o povo quer-se que a liderança faça interlocução direta com os seus representados. Em qualquer democracia do mundo a semana do parlamentar é divida em duas: uma dentro do parlamento e outra junto aos eleitores.
Enfim, a minha intenção em apontar o post “Perguntas retóricas para um fim de ano intrigante” era mostrar que o conceito que sobrava do termo populista não dizia nada, como o Clayton Filho corroborava no comentário que eu transcrevi".

É isto, gostei de saber que a academia vê hoje com outros olhos o conceito de populista. Achei que ficou faltando um complemento ao termo no seu comentário.
Encontrei esse complemento no comentário do Clayton Filho a que eu faço referência na transcrição acima e que está lá no post "Sobre popular e populista" no blog do Luis Nassif. E também no mesmo post em outro comentário que o comentarista Bento encaminhara. No comentário de Bento ele destrinça as idéias de Norberto Bobbio sobre o populista, mostrando a evolução no entendimento dele ao longo dos anos sobre o populismo. O comentário do Bento se encontra na página 3 e foi enviado segunda-feira, 14/02/2011 às 23:09, para junto e em rebate a comentário de Andre Araujo enviado domingo, 13/02/2011 às 00:38.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 19/02/2011