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Desenho de Leandro Konder, RJ, junho 1984 |
Como aconteceu com outros amigos, conheci Leandro Konder primeiro no papel e depois ao vivo.
Estudante, lia seus livros e me
maravilhava com o fato de que eles pareciam ter sido escritos “para mim”, quer
dizer, podiam ser compreendidos até por quem estava em formação ou sabia muito pouco, como era meu caso. Por volta de
1972, me interessei muito pelo marxismo de Georg Lukács, e Leandro era seu maior
intérprete no Brasil. Lembro-me bem do entusiasmo com que li Realismo e antirrealismo na literatura
brasileira (1974), volume coletivo com ensaios assinados por intelectuais
de quem alguns anos depois eu me tornaria amigo. Leandro era o principal deles.
Mais tarde, no segundo semestre de 1976, quando
participei da direção da revista Temas de
Ciências Humanas, que tinha nítida influência marxista (Lukacs, Gramsci e
PCI), procurei entrar em contato com Leandro, que na época morava entre Bonn e Paris.
Pedi ajuda a Nelson Werneck Sodré e em pouco tempo estava escrevendo para
Leandro. Trocamos muitas cartas. As que me chegavam, eram invariavelmente
preciosas, escritas quase sempre à máquina e em papel de seda, um A4 cortado ao
meio. Houve também alguns bilhetes escritos à mão com letra miúda e harmoniosa.
Falávamos de tudo um pouco, mas sobretudo de projetos editoriais, marxismo,
eurocomunismo e política brasileira.
Somente fui conhecer Leandro no
início de 1979, quando ele voltou ao Brasil. Depois de tantas cartas, a expectativa
era tamanha que ao encontrá-lo parecia que o conhecia há décadas.
De lá para frente, tivemos
muitos encontros e participamos de inúmeras reuniões políticas.
Leandro tinha um mantra pessoal:
era preciso não se levar jamais exageradamente a sério. Ou seja, rir da própria
desgraça, não perder a capacidade de perceber o que há de patético e inesperado
nas atitudes humanas, a natureza contraditória das pessoas. Havia nele, em
doses fartas, um delicioso senso de humor que suavizava a firmeza da crítica e
humanizava a exposição, recheando-as de detalhes e boutades que funcionavam como travas de sustentação da narrativa e
sempre revelavam algo mais do personagem ou do assunto em foco. A verve e a
leveza de Leandro certamente o ajudaram a deixar claro e demonstrar que um
marxista não é necessariamente um chato. “Importante mesmo - reconheceu certa
vez - é ser intelectual marxista e preservar o senso de humor”.
Tendo participado, com ele, de
várias reuniões políticas, adorava vê-lo desenhar, fazer caricaturas e cartuns
enquanto a discussão pegava fogo. Invariavelmente retratava os próprios amigos
presentes ou personagens mencionados nas reuniões. Os desenhos funcionavam como um
balãozinho de oxigênio: modulavam a chatice das discussões e nos traziam de
volta à dimensão cômica da vida. Em suma, à vida.
Ganhei alguns daqueles desenhos de recordação. Perdi quase todos, infelizmente. Um deles consegui guardar, trancado a
sete chaves. Feito em 1984, ilustra esta postagem.
Leo escreveu a quarta capa do
meu livro Um Estado para a sociedade
civil, em 2004. Foi um acontecimento para mim.
Agora que ele morreu, no último
dia 12 de novembro, aos 78 anos, deixando um enorme buraco em todos os que o conheciam,
penso que posso homenageá-lo reproduzindo aqui a íntegra daquele pequeno texto,
que mostra Leandro Konder por inteiro: um intelectual gentil e generoso, amigo
de seus amigos.
“A política
se faz com as mãos mergulhadas no sangue e na merda”, dizia brutalmente o velho
Sartre. A reflexão sobre a política, entretanto, na medida em que pretende
contribuir para a construção do conhecimento de uma atividade humana peculiar,
deve procurar evitar a intimidade e o convívio duradouro com porcarias. Deve
pensar grande.
Meu
amigo Marco Aurélio Nogueira, leitor atento de Gramsci e de Bobbio, aberto
tanto a sugestões de Giddens, de Bauman e de Beck quanto a ideias de Freud e de
Habermas, vem repensando há vários anos os complexos problemas da relação entre
o Estado e a sociedade. O Estado, atualmente, está em crise: tem desafetos à
direita e à esquerda. Marco Aurélio, porém, adverte contra os riscos de um
“Estado sem sociedade civil” e também contra os riscos de uma “sociedade civil
sem Estado”.
Nas
condições em que nos encontramos, arrastados num processo de mundialização que
não corresponde às nossas aspirações, temos, entretanto, a chance de aproveitar
importantíssimos avanços técnico-científicos, de promover uma
desprovincianização.
Por
tudo isso, mesmo em plena globalização neoliberal, Marco Aurélio Nogueira
recusa a sedução de uma perspectiva catastrofista ou apocalíptica e busca
delinear um reformismo democrático radical, para que possamos vir a ter acesso
a formas de vida mais justas e mais inteligentes. Leandro Konder
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