terça-feira, 25 de outubro de 2011

O economicismo como cultura da época


Muito do sucesso teórico do marxismo deve-se à tese de que o modo de produção, a economia, determina o modo como se vive e se organiza a vida social. Boa parte da hostilidade contra ele, também.
Seus adversários sempre usaram esta tese para condenar as ideias de Marx, atribuindo a elas, entre outras coisas, uma crônica incapacidade de compreender diversas questões tidas como mais relevantes: a liberdade, a autonomia da política e da cultura, o valor da democracia. Condena-se Marx, também, por seu amor pela revolução e por seu radicalismo, mas a principal frente de combate a ele sempre foi a da denúncia de seu determinismo.
Uma rápida passagem pelo noticiário cotidiano, porém, revela o quanto há de falsidade e hipocrisia nesta denúncia. Tudo passou a ser economia e a ser lido como expressão da economia. As diferentes nuanças da vida social, as aspirações populares, as disputas entre os partidos políticos, o desempenho governamental – tudo se converteu em derivação do econômico. Os mercados tornaram-se donos de nosso destino e modelam nossas instituições, condutas e expectativas existenciais.
Lutas e movimentos da sociedade civil são modulados pela dinâmica, pelas falhas gritantes e pelos malefícios da economia. Greves continuam a ser feitas sem a consideração dos prejuízos que causam aos que dependem dos serviços paralisados. Wall Street é “ocupada” para forçar instituições financeiras a reduzir seus excessos e a assumir a responsabilidade pela crise. Todos nos indignamos diante da voracidade com que o dinheiro invade a política, desvirtua os partidos e corrompe políticos e servidores públicos. Queremos reduzir o “custo Brasil” para aumentar a produtividade e pagar menos impostos. Imploramos por mais desenvolvimento e produção. Olhamos para 2014 e vemos a Copa estritamente pelos cifrões que serão gastos ou arrecadados com ela.
Estamos enredados nas malhas do mercado.
Aliviado de suas generosas dimensões humanistas, separado da dialética que o faz conceber a vida como uma totalidade histórica articulada, dinâmica e contraditória, esvaziado da ênfase no valor do trabalho e na capacidade de autodeterminação dos sujeitos, o marxismo foi assimilado como caricatura. Travestido em seu contrário, vaga pelo mundo capitalista atual. Todos se tornaram inconscientemente “marxistas”: passaram a achar que nada mais importa a não ser a voz dos mercados e que tudo que respira deve ser modelado pelo ritmo da economia. O economicismo tornou-se cultura da época. Temos à disposição teorias econômicas da democracia, do comportamento político, da religiosidade, da cultura e da personalidade. E os Estados parecem não ter outra meta a não ser a conquista do mercado mundial.
Há uma incomensurável distância entre o marxismo de Marx e este marxismo caricato e inconsciente que trafega por aí, quase como senso comum. A começar da ideia mesma de economia. Marx jamais a reduziu aos mercados ou à produção em sentido estrito. Sua teoria fala em economia política, em relações sociais de produção, e sempre afirma que é preciso ligar e articular a economia com capacidades sociais, instituições políticas, ideias e ideais. Não pensava que tudo derivava da economia, mas sim que a economia determinava em última instância o modo de vida, ou seja, admitia sem dificuldades que o modo de vida também reagia sobre a economia e a determinava. Não imaginava haver uma via de mão única ligando a economia ao resto da vida, mas sim, precisamente, uma interação dialética, em nome da qual seria possível conceber a liberdade e a autonomia dos sujeitos e, assim, pensar em maneiras de fazer com que a vida ficasse melhor e mais humana. Era esta a revolução radical com que ele sonhava, algo bem diferente da irrupção violenta e sanguinária dos trabalhadores contra o capital, que muitos a ele atribuem.
Olhando a realidade atual, nenhuma pessoa sensata pode dizer que Marx não estava certo. Ninguém pode negar que o mundo está torto e fora de controle por excesso de mercados e de economia.
Devidamente expurgado dos fanatismos fundamentalistas e dos excessos doutrinários que o contaminaram, o grandioso legado teórico e político do marxismo ainda é o melhor antídoto contra este rebaixamento geral da vida, contra esta maldição que ameaça até mesmo a busca da felicidade, ao convertê-la no prazer de consumir e de ganhar mais e melhores salários.
Claro, sempre será preciso dar a Marx o que é de Marx, ou seja, reconhecer seus limites e suas falhas, perceber a deformação que sofreram algumas de suas ideias, o mau serviço que prestaram quando foram convertidas em ideologia de Estado ou verdade política. Além disso, o marxismo é mais do que Marx, se completou, se deformou e se corrigiu ao longo do tempo, incorporando novas dimensões e novos conceitos. Foi assim que chegou ao século XXI.
A crise do marxismo está em boa parte determinada pelo economicismo extremado de várias das suas vertentes, que, paradoxalmente, transbordou no economicismo generalizado de seus adversários e que hoje comanda a vida. Nada indica que seja uma crise terminal. Passa-se o mesmo com o capitalismo, aliás. Sua crise atual tem componentes que a aproximam de uma crise sistêmica, da qual, precisamente por sua abrangência, podem emergir sociedades menos desiguais, menos produtivistas, mais humanas e generosas. 
É sinal de bom senso e honestidade reconhecer os méritos e a vitalidade do marxismo. Na presente fase histórica, ele pode ser decisivo para que encontremos uma maneira de nos libertar da tirania dos mercados e do econômico. Como Marx diria se estivesse a ver o nosso mundo, é nos momentos mais difíceis que as grandes teorias mostram seu valor e sua utilidade. [Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo, 22/10/2011]

13 comentários:

Anônimo disse...

MArco, fico muito gratificada em ler seus textos e me lembrar de que você foi meu professor. um grande abraço. Mariana.

Redator-chefe disse...

Oi, Mariana! E eu fico muito feliz e recompensado com um comentário como este que vc fez! Ele vale muito prá mim. Obrigado.

Gilson Caputi disse...

Professor, texto excepcional – de verdade. Parabéns!

Redator-chefe disse...

Valeu, Gilson!

Joyce Trindade disse...

Seria o que o Habermas fala quando aborda a questão da colonização do mundo da vida. É... é por aí que vamos, muitas vezes.

Muito oportuno o texto, professor! Abraço!!!

Redator-chefe disse...

Oi, Joyce. Acho sim que boa parte do processo de colonização do mundo da vida caminha por aí. As pessoas precisam gastar muita energia para resolver as questões econômicas e são tragadas por isto. Abraço

Priscila Sonara Ratke disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Thomaz disse...

Infelizmente não sou nem fui seu aluno. Atualmente estou no curso de pós-graduação em Gestão Pública na FESPSP e acabei de ler um artigo seu "Sobre o Estado e o Gestor Público de que se Necessita". Adorei. Pesquisei no google e achei seu blog. Li este artigo e achei perfeito. Vou procurar acompanhar seu blog e suas publicações. Parabéns e obrigado. Eduardo.

Redator-chefe disse...

Priscila, obrigado pelo comentário. Quanto às dúvidas na leitura do texto, é difícil esclarecer algo por aqui. Tenho certeza de que com a discussão que vc fará com teus colegas a maior parte delas será resolvida. Veja também alguns outros texto que está aqui no blog, pode ser que ajudem. Abraço,

Redator-chefe disse...

Eduardo, agradeço muito. Vc sabe que eu me formei na Escola de Sociologia e Política? Era outra época e a escola era bem diferente, mas o prédio era o mesmo! Abraço,

Marcio disse...

Caro Marco,

Acabo de me inscrever no seu blog e indicá-lo a amigos. Agora, com mais tempo, me abro mais aos novos formatos de comunicação virtual. A segunda impressão, a de hoje, que tenho em relação ao "Possibilidades da política" é que ele ganhou "ares de profissionalismo" ainda maiores do que já tinha alguns anos atrás. Parabéns!

É muito bom voltar a lê-lo, com a ponderação e o discernimento que lhe são característicos, a respeito das questões teóricas e políticas relativas à nossa sociedade contemporânea.

Um abração, Marcio

Leonardo disse...

Caro Marco,

Acertou de novo. Preciso, certeiro, sensato e justo. Seu texto ajuda-nos a pensar uma época a partir da leitura rigorosa dos clássicos. Esta sempre terá seu lugar garantido.

abraços,

leo

Amauri Sal Wensko disse...

Antes de Marx, prefiro Aristóteles e sua Ética a Nicômaco, que já indicava o papel da economia e da política na administração de uma cidade-estado. Acho que Marx é realmente mal interpretado, se é que alguém lê Marx para tentar interpretar algo. Muitos amigos meus, marxistas, ficam surpresos com minhas posições "liberais", mas eu sempre cito Marx para acabar com a conversa e a conversa realmente acaba. Sou fã do trabalho de Marx, ainda que seja fã também dos moralistas britânicos. Enquanto estes instrumentalizam, aquele idealiza. Quem dera ambos pudessem dialogar.