domingo, 20 de março de 2011

Obama, o Brasil e o mundo

 Como escreveu meu amigo Luiz Mir num post que trocamos pelo Facebook, precisamos deglutir com vagar a visita de Barack Obama ao Brasil.
Mir observa com acerto que “o mais relevante dessa visita é que ao certificar publicamente a liderança do Brasil na parte sul do continente, Obama nos sobrecarrega de preocupações e custos -- quando o império elege, ele cobra”. É por aí mesmo. O Brasil se tornou um player importante, reconhecido e destinado a pesar cada vez mais no contexto internacional. Sairá de uma posição tutelada, e nessa medida, protegida e “sem responsabilidade”, para outra, impregnada de compromissos e exigências. A primeira consequência disso afeta a diplomacia, que terá de ser ainda mais qualificada. Estamos bem servidos nessa área. Outra consequência afeta a política interna: políticos, técnicos e governantes terão de levar mais a sério a política externa, rompendo definitivamente com a tradição de ignorar o que se passa além-fronteiras. Levar a sério significa, claro, estudar mais, pensar mais, ter maior competência intelectual para compreender a estrutura do mundo.
A viagem de Obama é importante pelo que representa em termos de reconhecimento do protagonismo brasileiro e de aceitação, pelos EUA, da realidade multilateral do mundo. Num de seus discursos na recepção a Obama, a presidente Dilma Roussef tocou no ponto: “Aqui não nos move o interesse menor da ocupação burocrática de espaços de representação. O que nos mobiliza é a certeza de que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e a harmonia entre os povos”.
A viagem de Obama ao Brasil não trará grandes novidades em termos efetivos ou no curtíssimo prazo, mas deverá demarcar nova etapa nas relações entre os dois países e deles com os demais. Esse o tom, creio, do excelente artigo do professor Tullo Vigevani no Estadão: “A relação dos EUA com o Brasil tem essencialmente a ver com o novo que há no mundo contemporâneo”, escreveu (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110320/not_imp694529,0.php). O que significa considerar um lote de questões e interesses complicados, no plano comercial e no estratégico geral. A China, que muitos acham ser a parceira preferencial do Brasil em diversos terrenos, é a bola da vez.  Mas a China, vista como o gigante que se projeta, pode não ser tão sustentável assim (seu “capitalismo comunista” é uma incógnita a toda prova) e há outros gigantes por aí. O capitalismo não corre perigos, embora seja a cada dia mais deletério e nefasto, e ao se reproduzir impõe regras de conduta e de relacionamento não propriamente favoráveis a um mundo melhor.
É impressionante a quantidade de bobagens que foram ditas, escritas e praticadas sobre a visita de Obama. Maria da Conceição Tavares detonou o cara dizendo que ele virou escravo do "bordel conservador". Outros, num acesso de furor antiimperialista, viram a visita como indício de que novos grilhões estão sendo ativados. Há os que escracham o estilo "soft power" de Obama sem saber do que se trata e os que atiram molotovs para protestar contra a situação líbia.
Isso prova que ainda patinamos no entendimento da nova estrutura do mundo. Prova, também, que a dialética social existe. Ao mesmo tempo em que Obama visita o Brasil no melhor estilo soft power, os EUA ajudam uma “coligação árabe-ocidental” a descarregar bombas e torpedos em Kadafi, ameaçando abrir uma frente de batalha na Líbia na velha linha do "big stick". São incoerências e paradoxos de um país imperial e de um mundo que, salvo melhor juízo, não comporta posturas muito “racionais” e exige, por isso mesmo, para ser compreendido, procedimentos intelectuais renovados e arejados.
Fernando Gabeira escreveu dias atrás no Estadão: "O século nos empurra para uma diplomacia preventiva. Qualquer passo nessa direção será bem-vindo, como bem-vindo é Obama". Teve gente que não gostou, achando que a frase faz excessivas concessões à diplomacia norte-americana. Da minha parte, digo que frases são frases e que essa permite que se preste atenção num traço que parece ter condições de se fixar no mundo contemporâneo. Pode-se chamar isso de soft power e dizer que Obama o encarna como poucos. Ou empregar outros valores e categorias. O que não dá é prá achar que as coisas continuam as mesmas como dantes e que Obama nada mais é que um Bush jovial e simpático.

sábado, 12 de março de 2011

Indiferentes - Antonio Gramsci


Depois de ter noticiado aqui (22/2) que Luca & Paolo, dois conhecidos humoristas da televisão italiana, leram no Festival de San Remo um longo trecho do artigo“Indifferenti”, que Gramsci escreveu em 1917, algumas pessoas me perguntaram como fazer para achar o texto. Em vez de somente passar a referência, pensei que seria melhor reproduzir o texto todo, que é belíssimo.

Segue abaixo, com o adendo de que a versão original dele pode ser acessada em

Indiferentes
Antonio Gramsci
La Città futura, 11/02/1917, pp. 1.

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel, acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e de tomar partido. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam frequentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor que as mais sólidas muralhas, melhor que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes os leva a desistir de gesta heroica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói até mesmo os planos mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. Aquilo que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa que se faça, deixa que se enrolem os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa que se promulguem leis que depois só a revolta fará anular, deixa que subam ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.
A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absenteísmo. Os fatos amadurecem na sombra, poucas mãos, não submetidas a qualquer controle, tecem a teia da vida coletiva, e a massa ignora, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; a teia tecida na sombra chega a seu fim, e então parece que é a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um enorme fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que todos se tornam vítimas, os que quiseram e os que não quiseram, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então se zangam, gostariam de eximir-se às consequências, gostariam que ficasse claro que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos se perguntam: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos se culpam pela sua indiferença, pelo seu ceticismo, por não terem dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitar aquele mal, combatiam com o propósito de procurar o tal bem que pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados, prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não porque não vejam as coisas com clareza, e às vezes não sejam capazes de projetar belas soluções para os problemas mais urgentes ou para os problemas que, embora requerendo ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções permanecem belissimamente infecundas, mas essa contribuição para a vida coletiva não é animada por nenhuma luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente senso de responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também porque suas lamúrias de eternos inocentes me dão tédio. Peço contas a cada um deles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe cotidianamente, pelo que fizeram e sobretudo pelo que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou partidário, vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre poucos, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à obra inteligente dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto os poucos se sacrificam, se acabam no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela, emboscado, com a pretensão de usufruir do pouco bem que a atividade de poucos tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado porque não ter conseguido seu intento.
Vivo, sou partidário. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

sábado, 5 de março de 2011

A Itália de Berlusconi, entre o passado e o futuro

A regra é sábia e deve ser usada com frequência: certos eventos políticos estranhos, por vezes escabrosos, somente podem ser compreendidos quando mergulhados na história das sociedades em que ocorrem. É nas águas profundas da vida social que se escondem as maiores verdades.
Não fosse assim, seria difícil compreender, por exemplo, o que leva um país como a Itália – terra de tradições grandiosas, de história e cultura riquíssimas, de pensadores, políticos e humanistas da estatura de Maquiavel, Gramsci e Bobbio, de partidos como o PCI – a ser governado por Silvio Berlusconi. A “grande Itália” parece paralisada pela “pequena Itália”, das máfias e do fascismo, que se move e mostra sua força.
Grosseiro, exibido, bufão, fascista de estilo e convicção, Berlusconi não é certamente um desconhecido. Preside desde 2008 o Conselho de Ministros, mas influi no Estado há pelo menos duas décadas. Megaempresário das telecomunicações, é um milionário poderoso. Controla boa parte da mídia italiana.
Fundou em 1993 o partido Forza Italia, que disseminou uma mixórdia de “teses” em defesa dos valores tradicionais, da liberdade pessoal, da identidade nacional contra os imigrantes, do combate à corrupção, da redução do déficit público, numa mistura oportunista de neoliberalismo e fascismo. Impulsionado pela televisão e abusando do imediatismo e da demagogia, ganhou espaço entre pequenos e médios empresários, profissionais liberais, gente das cidadezinhas e das classes médias urbanas. Venceu as eleições de 1994 e governou com uma aliança abertamente de direita (neofascistas do MSI, separatistas da Liga Norte, correntes cristãs). Demitiu-se sete meses depois, mas tornou-se líder e fator de unificação das forças mais direitistas e conservadoras do país.
Combateu encarniçadamente os governos Amato, D’Alema e Prodi, de centro-esquerda, entre 1996 e 2001. Começou então a acumular denúncias e processos legais: conluio com a máfia, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, participação em homicídio, corrupção e suborno de policiais, financiamento ilegal de partidos. Não chegou a ser condenado, mas as acusações foram compondo sua persona.
Voltou à presidência do Conselho de Ministros em 2001. Foi derrotado por Romano Prodi em 2006, mas retornou ao posto dois anos depois. Forza Italia já havia então virado Povo da Liberdade.
O populismo histriônico e autoritário de Berlusconi, seu poderio midiático, os interesses econômicos que representa e o sistemático desprezo que nutre pelos ritos, pela Constituição e pelas instituições políticas italianas são uma ameaça permanente à democracia. A Itália decaiu muito no período em que ele tem dado as cartas. A estagnação econômica, o desemprego, o empobrecimento dos trabalhadores são hoje evidentes. A política está corroída pela compra de parlamentares e magistrados, pelo cerceamento das oposições, pelo monopólio da informação. O sistema democrático sangra por todos os poros.
Berlusconi cresceu impulsionado pelo uomo qualunque, o italiano médio, fascinado pelo poder e com certo cafajestismo intrínseco, como observou Geraldo Di Giovanni, da Unicamp. A “pequena Itália” – com sua pequena política, seu localismo provinciano, sua resistência à vida cívica superior e ao Estado democrático – tem lhe fornecido bases e oxigênio. O Cavaliere é uma espécie de alterego desse universo de italianos, escreveu o professor José Claudio Berghella: “introduziu no Estado italiano um modo camorrístico de fazer política e estruturar instituições”.
Sua ascensão, porém, não teria acontecido sem o esfacelamento ético-político e cultural da esquerda italiana, em particular a de extração comunista, que hoje, desgastada intelectual e organizacionalmente, não é sequer sombra de seu passado. Tem baixa competência operacional, não consegue se unir nem definir um rumo programático. O Partido Democrático, seu maior subproduto, tem sido incapaz de atuar com vigor, coerência e credibilidade. Os diversos grupos que florescem à sua esquerda, menos ainda.
Berlusconi também foi auxiliado pela emergência da “vida líquida” na Itália, pelo capitalismo globalizado e pela disseminação da cultura do espetáculo, que contribuíram para desorganizar as forças do trabalho, minar os partidos políticos e embaralhar a relação entre representantes e representados.
Trata-se de um político pequeno, sem qualquer traço de estadista. Seria uma figura entre o folclórico e o patético, que passaria despercebida não fosse a irrupção em praça pública de suas taras e perversões privadas. Como escreveu Sérgio Augusto no Aliás (20/02/2011), o Cavaliere “abusou do poder, do fisco, da propriedade privada, da coisa pública, do sistema bancário, mas só depois que abusou do sexo virou um caso de polícia promissor”.
Acossado por denúncias e revelações sórdidas, Berlusconi está sendo mais uma vez levado aos tribunais, agora por abuso de poder, extorsão e prostituição de menor (a marroquina Karima “Ruby” El Mahrug). Declarou que não está preocupado, mas não pôde permanecer indiferente nem à fixação de seu julgamento para o dia 6 de abril, nem ao protesto de centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas de todo o país, em 13 de fevereiro, para exigir sua renúncia e sua condenação em nome de "mais respeito pela liberdade e pelos direitos das mulheres". Acusou-as de subversivas a serviço da esquerda, valendo-se de um surradíssimo chavão antidemocrático.
Agora é saber como o futuro mostrará sua face. As reservas democráticas do país podem estar adormecidas e desorganizadas, mas pulsam a todo momento. A sociedade civil mostrou força nas manifestações de rua. Poderá crescer com isso e ajudar a que as oposições democráticas e de esquerda saiam do marasmo, acertem o passo e façam algo para projetar a “grande Itália” no lugar que merece ocupar. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/02/2011, p. A2).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Para pensar

 É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e as características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por “folclore”. (Caderno 11 [1932-1933], Cadernos do Cárcere, ed. bras. Civilização Brasileira, vol. 1, p. 93)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

E Gramsci chegou a San Remo




Todo mundo conhece ou já ouviu falar do Festival de San Remo, que ocorre anualmente na Itália. É um concurso de música popular, transmitido pela televisão, ao qual comparecem cantores e compositores amados pelos italianos. Realizado há 61 anos, tornou-se referência no mercado discográfico italiano. Muitos (a maioria, quem sabe) o consideram sem valor artístico expressivo e meio decadente. A Itália, porém, adora e não deixa de assisti-lo.
A edição 2011 do Festival encerrou-se sábado, dia 19 de fevereiro. Foi curioso e surpreendente.
Roberto Vecchioni, velho cantor e compositor de esquerda, venceu com “Chiamami Ancora Amore”, canção bem típica dele, cheia de sutis alusões à história política, ao engajamento cultural e a lutas sociais.
O cineasta Roberto Benigni, outro intelectual de esquerda, deitou e rolou no palco, satirizando Berlusconi e seus escândalos e cantando a cappella o hino nacional.
Mas o mais belo, inesperado e emblemático ocorreu quando Luca & Paolo, dois conhecidos humoristas da televisão italiana, leram durante 3 minutos, sérios e compenetrados, o texto que Gramsci escreveu para La Città Futura em 1917, “Odio gli indifferenti”:
Odio gli indifferenti. Credo che vivere voglia dire essere partigiani. Chi vive veramente non può non essere cittadino e partigiano. L’indifferenza è abulia, è parassitismo, è vigliaccheria, non è vita. Perciò odio gli indifferenti. L’indifferenza è il peso morto della storia. L’indifferenza opera potentemente nella storia. Opera passivamente, ma opera.
A polêmica se seguiu, inevitavelmente. Um novo Risorgimento estaria a ocorrer em San Remo? A esquerda mostrou sua força, sua capacidade de se fazer hegemônica? Foi usada pela mídia berlusconiana?
É difícil opinar. Mas parece inegável que os humoristas, em particular, surpreenderam com um quadro repleto de significados. Puseram Gramsci em destaque, ainda que sem mencioná-lo (só foi identificado ao final da apresentação, quando um enorme retrato emergiu ao fundo, dando alguma pista a quem se perguntava de quem seria o texto que acabara de ser lido). Debocharam também, como seria de se esperar, ao brincarem sobre os possíveis futuros líderes de centro-esquerda, terminando por aventar uma “última esperança” de que Berlusconi acabe por ser um desses líderes, já que, ao ser julgado e condenado em abril, voltará a entrar “no mercado” e para ficar em destaque poderia estudar um convite para se tornar... comunista!
O Festival indicou que o momento é pouco favorável a Berlusconi. E demonstrou que continuam a haver artistas com coragem, inteligência e sensibilidade para traduzir alguns fatos duros da vida e emprestar graça e poesia aos ruídos e expectativas sociais.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Itália das mulheres enfrenta o machista Berlusconi


Grosseiro, exibido, bufão, machista, mal-educado e, como se não bastasse, fascista de estilo e convicção. Silvio Berlusconi não é certamente um desconhecido. Atual chefe do governo italiano -- cargo que já ocupou diversas vezes ao longo dos últimos 17 anos --, mega-empresário do setor de telecomunicações, político influente e uma das poucas lideranças capazes de dar viabilidade à confusa e ameaçadora direita italiana, trata-se de uma personalidade que ganhou visibilidade inédita no mundo todo. Berlusconi tornou-se famoso pela inacreditável capacidade que demonstrou de desmoralizar e fazer pouco de uma das grandes tradições políticas do mundo ocidental.
A Itália depois dele assemelha-se ao que sobrou do Império Romano depois de Nero. Exageros à parte, claro.
A imagem que o mundo tem de Berlusconi deriva de sua conduta governamental, marcada por um personalismo exacerbado e por ações administrativas repletas de corrupção e ineficácia, que contribuiram bastante para travar e empobrecer a sociedade italiana. Tratar-se-ia de uma figura entre o folclórico e o patético, não fossem o clima de violência política que prevalece entre seus seguidores e, mais recentemente, suas próprias perversões como homem privado, relatadas por garotas de programa contratadas para animar as orgiásticas festas por ele patrocinadas.
Berlusconi acostumou-se a circular pelos ambientes italianos munido de um lote de piadas e gracejos ultrajantes, quase todos de fundo machista. Dá prá imaginar o primeiro-ministro de um país sério que se vangloria de dizer em público que "o famoso ponto G está no "g" de shopping: é fazendo compras que as mulheres gozam"? É uma de suas pérolas.
Arrastado por uma onda de denúncias e revelações sórdidas, Berlusconi foi mais uma vez levado aos tribunais, acusado de abuso de poder e exploração sexual de menores. Deu de ombros, com desfaçatez:  "Por amor à patria não falo dessas coisas. Somente posso dizer que não estou de modo algum preocupado". Não teve como permanecer indiferente, porém, ao protesto de centenas de milhares de mulheres que saíram às ruas em diversas cidades italianas, nos dias 12 e 13 de fevereiro,  para exigir sua retratação, sua renúncia, sua condenação. A palavra de ordem predominante foi "se não agora, quando?", direcionada para exigir "mais respeito pela liberdade e pelos direitos das mulheres". Berlusconi acusou as manifestantes de subversivas a serviço da esquerda, valendo-se de um velho chavão antidemocrático.
Alguns dias depois das manifestações, fiz uma pequena provocação em meu mural do Facebook: "Vocês, amigos, que sabem tanta coisa e têm muito mais informação do que eu, por favor me expliquem: como é possível que a "pequena Itália" (mafiosa, provinciana, "cafona", protofascista) consiga se sobrepor à Itália de Maquiavel, de Gramsci, de Bobbio, dos partigiani, do PCI e da democracia progressiva e dar sustentação a um tipo como Berlusconi? Ou não é nada disso e estou me angustiando à toa?"
Uma animada mesa-redonda se seguiu. Vistas em conjunto, as intervenções me parecem muito interessantes. Reproduzo suas melhores partes abaixo.
Adami Campos: hoje, lendo os jornais, me fiz a seguinte indagação: será que não há nada de bom que mereceria estar nessas páginas? Confesso que me senti angustiado também. Continuei a pensar sobre isso e cheguei a ideia de que a Itália do Bobbio não perde para a do Berlusconi, ela apenas não é publicada. Feitos importantes, valorosos e especiais não são divulgados como os que denigrem, prejudicam e deterioram o coletivo social.

Alexandre Caetano: Mas a Itália também foi já foi a do fascismo de Mussolini, farol para os regimes autoritários das décadas de 20 e 30, inclusive o nosso Vargas, com sua estrutura sindical corporativa, que resiste até os dias de hj.

Andre Siquinelli Nakane: Também não entendo como Berlusconi consegue há tanto tempo estar a frente do governo italiano.

Luiz Eduardo Motta: Desde o fim do PCI e da Democracia Cristã a Itália não foi mais a mesma no cenário político que marcou inúmeras gerações de intelectuais e políticos.

Gera Di Giovanni: O combustível dessa história é a mentalidade do" homem médio italiano, o "uomo qualunque": machista, racista e fascinado pelo poder. O cafajeste é um pouco (ou muito) isso aí.

Carlos H Brito Cruz: Enzo Janacci diria: Penso che sia perché ci sono stronzi in tutti i paesi, Ohh yeah.

David Campos: Acredito que a resposta está em uma vertente da Sociologia desprezada por alguns - o culturalismo...

Gera Di Giovanni: David dá uma boa dica. A escolha popular, por meio de eleições diretas ou lista, revela tb uma face da construção de identidades. No caso italiano, a ascensão da nova direita começou nos anos 1990, com o renascimento gradual e seguro do fascismo aggiornato ( Lega Nord, Bosi, Fini, neofascismo). Além das ações políticas coordenadas e eficientes, foram-se criando, aos poucos, oposições simbólicas aos imigrantes, às esquerdas, às instituições do stato sociale, que resultaram numa visão de mundo e num forte núcleo de poder conservador e retrógrado. Berlusconi, é um dos ícones dessa simbologia e desse núcleo de poder . Talvez o mais conspícuo.
Vanessa Dias: Não esqueçamos que Gramsci morreu no cárcere da Itália fascista. Se existe uma "Itália de Gramsci", o inverso é também verdadeiro, ou seja, existe nas entranhas do país, malgrado a "evolução" histórica, uma cultura fascista latente que dependendo da conjutura, pode emergir de formas diversas. Observemos o que está acontecendo na Europa como um todo para entender a aprovação de Berlusconi em particular. Aí, tudo começa a fazer sentido.
Jose Claudio Berghella:  Arrisco um palpite. A Itália sempre teve um comportamento profundamente conservador. O lado progressista italiano sempre foi minoria eleitoral apesar de sempre ser a maior expressão ideológica. Ganha na "política" e perde nos votos. Já há alguns anos a Itália é basicamente uma sociedade calcada no "italiano médio" que é, em geral, regionalista, dialetal, pequeno empreendor familiar ou pequeno empregado, clássico evasor fiscal, sonha em ter uma amante, absenteísta, furbo, inculto, conservador e profundamente camorristico. Vivem num mundo fechado de seu comune e reproduzem os valores locais. Vivem nas cidades porém não têm o sentido do urbano capitalista. Diferentemente do eleitor à esquerda, este tipico italiano, quando é chamado a votar, vai e vota (a esquerda tem perdido para a abstenção dos seus eleitores). Berlusconi é de certo modo o alter ego desta gente. A grande tarefa que Berlusconi fez nas diveras vezes que esteve no poder foi introduzir no Estado italiano esta concepção como parte das políticas públicas. É a forma camorristica de ser. A camorra, diferente do sentido mafioso, hoje se configura como forma de ser do Estado. Berlusconi é a garantia disso. Creio que a Itália, como outras nações entre as quais incluo o Brasil e a gestão petista, é a expressão evoluída de relações neofascistas de poder num novo tipo de corporativismo e na subordinação e reprodução de partidos e classes ou segmentos sociais sob o manto do Estado. Não há quase mais sentido em se falar de diferenças entre público e privado na medida em que grande parte do "privado" só é capaz de sobreviver e se reproduzir via mãos e direção do Estado. Este tipico italiano diz abertamente: só sobrevivo na minha atividade porque faço evasão fiscal. Berlusconi simboliza isso. É seu semelhante. Tanto quanto Lula, Chavez, Correa, Lagos e outros tantos. Não podemos nos esquecer também que hoje a classe operária que não chegou ao paraíso vota com a direita. Vota na segurança contra a crise, a imigração, a modernização do parque fabril (vide crise da Fiat). Acho que sua angustia é correta.

Se observarmos a Itália quotidiana uma coisa é evidente: a unidade italiana nunca existiu.A unidade italiana foi feita de cima para baixo. A sensação que se tem ao observar a Itália do di-a-dia é que este conceito de unidade foi mais uma imposição, mai
s uma invasão. E há resistências. Cada região, cada provincia, cada comune faz sua própria leitura do que significa "ser Itália". Por paradoxal que possa parecer, o italiano não é a lingua nacional senão formalmente. Isso faz da Itália uma somatória de diversos, e não unidade, cujo eixo báisco de conduta é resistir, conservar e reagir. Nisso se organizam as "direitas". Basicamente no particular, no átomo. Gramsci foi o primeiro pensador italiano a ter esta percepção e a falar em unidade italiana de fato. Mussolini tinha plena consciência disso e nunca teve a ilusão de que pudesse fazer na Itália uma direita italiana. Preferiu sempre ser o ponto de convergência das "direitas" divididas, segmentadas e regionalizadas. Penso que o mais evoluído projeto de unidade italiana foi o patrocinado pelo pensamento de esquerda dos velhos socialistas até mais recentemente o PCI. Berlusconi é a única expressão simbólica capaz de dar unidade à direita italiana e falar em nome da Itália. Penso também que não é por puro acaso que ele se veste, age e usa todos os simbolismos do Duce. Sem ele a direita italiana tem problemas para construir um bloco coeso e unitário capaz de controlar equilibradamente os difusos interesses das "direitas" italianas que são cônscias de que sem o "novo estado corporativo" (profudamente camorristico) têm dificuldades reais de se reproduzir como força econômica e política. Nunca Gramsci teve tanta razão.
Gera Di Giovanni: Não foi Garibaldi quem unificou a Italia, foi a televisão em 1950! Nessa data, só 40% da população falava italiano, tà?
Jose Claudio Berghella:  Gera tem grande razão. Foram alguns fatores que deram à Itália um pouco de italianidade (se posso inventar este termo). A TV foi uma, bem como o radio, o cinema e os meios de comunicação em geral, principalmente os jornais de alcance nacional. Nisso também jogou papel importante o movimento operário e sindical e parte dos movimentos sociais (o movimento feminino e os movimentos populares). Não nos esqueçamos contudo do importante papel desempenhado pelo fascismo em fazer a reforma da lingua e impor o italiano como lingua nacional. Nisso teve relativo papel o poeta D´Annunzio (aliás péssimo poeta), um dos ideólogos do fascismo. A Itália é basicamente o pós-guerra, Plano Marshall, muita grana americana e também à direita (moderada) os democratas cristãos e a Igreja.

Quando falo de que a "unidade italiana nunca existiu" falo não no sentido de um Estado-nação conformado constitucionalmente, mas sim naquele sentido gramsciano de unidade através da cultura, de identidade nacional e de existencia quotidiana. Por incrível que possa parecer, o vocabulário médio de um italiano (tipico medio) é extremamente reduzido se comparado à quantidade de palavras que usa do seu dialeto. O dialeto é uma forma de resistência a uma lingua estrangeira e pode parecer exagerado mas o italiano como língua foi uma imposição da propalada unificação garibaldiana. Lampedusa foi brilhante quanto a mudar sem mudança.Claro que dos reinos, das repúblicas e dos estados pontíficios do ottocento até hoje a Itália deu passos enormes e importantes no sentido da unificação. O mundo velho contudo resiste. O "iluminismo" moderno italiano de amplitude universal e universalizante esteve sempre muito próximo ao pensamento progressista (onde se incluem várias tendências da Igreja), liberal e de esquerda. Não é por acaso que no imaginário do tradicionalismo italiano a "esquerda" (todo movimento progressista) é alcunhado como radical. Isso a meu ver se explica um pouco diante do fato de que a revolução italiana não foi patrocinada como a francesa ou inglesa por uma burguesia revolucionária.
Luiz Carlos Azedo: Foram tantas as invasões bárbaras.... Lembro do livro Passagens da Antiguidade para o Feudalismo, de Perry Anderson.
Muito esclarecedor sobre certas coisas que acontecem entre as nações da Europa...e também sobre o mosaico étnico-cultural italiano. A propósito, a Europa vive uma crise de identidade cultural na qual a questão étnica é central.

José Renato Campos Araújo:  Estudei a imigração italiana em SP, e uma das coisas que mais me chamou a atenção é que para parte de nosso senso comum o imigrante italiano era sinônimo de movimento operário, anarquismo e algum tipo de vanguarda. Sem dúvida, os oriundi foram fundamentais para nosso movimento operário, mas sempre foram minoria no grupo italiano. O homem médio italiano, para citar o Gera, era fascinado pelo Fascismo e os comendadores galhardeados por comendas fascistas. Quem acompanha as notícias da Itália não deveria se surpreender pois o tráfico de mulheres com a paupérrima Albânia é uma realidade, o sequestro de meninas do outro lado do Adriático e a perseguição aos imigrantes são coisas que imperam na realidade italiana há bastante tempo. Quem conhece Nápoles (que faz o morro do Alemão parecer um convento) e outros lugares da Itália verá que a Itália pequena é enorme e majoritária, infelizmente.....Adoraríamos que fosse o contrário, mas a história da Itália é bastante ilustrativa deste momento.
Renato Perissinotto É que a "Itália pequena" é enorme.