domingo, 22 de março de 2009

Maurício Tragtenberg



Fui aluno de Mauricio Tragtenberg (1929-1998) na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, início dos anos 1970. Ele ensinava ciência política, com um foco fortemente concentrado em Max Weber, com o qual costumava torpedear o mundo da política e das organizações. Weber e Trostsky freqüentavam em lugar de destaque seu panteão de grandes autores. Tragtenberg se interessava bastante pela questão da burocracia, que ele via, seguindo Weber mas pondo-se um passo à frente dele, como a grande jaula de ferro que aprisionava os indivíduos, bloqueava os projetos de emancipação e facilitava o cerceamento da ação política das classes sociais. Escreveu a respeito um livro fundamental, Burocracia e Ideologia, publicado em 1974 pela Editora Ática. Tive a oportunidade de resenhá-lo assim que saiu para o jornal Opinião, no primeiro artigo que escrevi para aquele histórico semanário.

Mais tarde, entre 1987 e 1989, convivi com ele na Editora Vozes, quando integramos a comissão editorial da coleção “Clássicos do Pensamento Político”, organizada e dirigida de fato por Octávio Ianni. As reuniões da comissão eram maravilhosas, repletas de digressões teóricas, humor e controvérsias.

Tragtenberg foi um fascinante exemplo de intelectual independente, weberiano de esquerda, trotskista a seu modo, socialista libertário, que unia uma enorme erudição a uma mordacidade implacável e a uma atitude de permanente desleixo e desprendimento pessoal. Terminava as aulas coberto de giz e de cinzas dos cigarros que não largava um minuto sequer. Anárquico em termos do controle da duração das aulas, era igualmente anárquico no quadro negro, que preenchia com garranchos e anotações incompreensíveis, enquanto falava, passando aos saltos e sem muita concatenação de Weber a Maquiavel, de Marx a Tocqueville, de Trotsky a Rosa Luxemburgo, de Popper às “civilizações hidráulicas” de Wittfogel. Era de uma enorme generosidade para com os estudantes. E odiava ser chamado de anarquista.

Mauricio Tragtenberg foi uma espécie de autodidata, embora tivesse concluído os estudos formais. Entrou tardiamente na universidade, cursou Ciências Sociais pela metade, depois História. Deu aulas no ensino fundamental, na PUC e na FGV de São Paulo, na Escola de Sociologia.

Colecionou admiradores ao longo da vida. Um deles é o professor Antonio Ozaí da Silva, da Universidade Estadual de Maringá e editor da revista eletrônica Espaço Acadêmico.

No final de 2008, Ozaí publicou o livro Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008, 344p.), no qual busca rememorar para as gerações atuais e futuras o pensamento e a prática de seu mestre. Ao discutir os vários momentos da trajetória pessoal, política e pedagógica de Maurício Tragtenberg, o livro lhe presta uma homenagem mais do que merecida e explora a hipótese de que sua militância intelectual e sua obra (que está a ser reeditada pela Editora Unesp) permanecem como uma referência para o pensamento crítico e a pedagogia. Vale a leitura.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Lula e Obama na Casa Branca



Como seria mesmo de se esperar em função da popularidade, do prestígio e da relevância política dos protagonistas, o encontro entre os presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Barack Obama, realizado em Washington no último dia 14 de março, rendeu bastante discussão e muitas conjecturas.

A agenda do encontro foi composta por aquilo que já se sabia: protecionismo, regulação, medidas para conter a crise econômica, reunião do G-20 em abril, cooperação Brasil/Estados Unidos, biocombustíveis. Lula enfatizou particularmente a questão da maior disponibilidade de crédito nos mercados internacionais. Obama afirmou que os EUA colocarão a reforma financeira "no centro" de suas prioridades e que o estímulo fiscal é somente parte da resposta.

Coerente com seu compromisso de aumentar os esforços de seu país em favor das energias limpas, Obama declarou que os EUA "têm muito a aprender com o Brasil" no campo da energia renovável e afirmou que pretende usar o vínculo com esse país para "fortalecer" a relação com a América Latina. Lula retrucou no mesmo tom, afirmando que a eleição de Obama dá uma "oportunidade histórica" para que os Estados Unidos melhorem suas relações com a América Latina.

Os dois também abordaram o protecionismo, tema que preocupa o Brasil sobretudo depois da inclusão no pacote de estímulo nos Estados Unidos da cláusula "Buy American" (que privilegia a compra de produtos americanos pelos americanos). Obama disse reconhecer a importância do comércio como motor econômico e afirmou que o "objetivo deveria ser pelo menos não regredir" na abertura comercial. Ambos, no entanto, foram cautelosos quanto à liberalização comercial (Rodada Doha), que vêm como pouco provável enquanto persistirem os efeitos mais perversos da crise econômica internacional.

O encontro entre os dois presidentes foi descontraído e marcado por brincadeiras. Durou bem mais do que o previsto. Não resolveu praticamente nada, mas teve um grande e não-desprezível efeito simbólico, bom para Lula e para Obama.

Dei uma entrevista para a Rádio Eldorado logo depois do encerramento da reunião. Ela pode ser ouvida aqui.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Giuseppe Vacca em São Paulo


Na próxima semana, o intelectual e pesquisador italiano Giuseppe Vacca estará em São Paulo para lançar seu livro Por um novo reformismo, publicado no Brasil pela Editora Contraponto em parceria com a Fundação Astrojildo Pereira. A tradução é de Luiz Sérgio Henriques, garantia de qualidade.

No dia 19 de março, quinta-feira, Vacca fará uma conferência na Câmara Municipal de São Paulo, às 19h. A Câmara fica no Palácio Anchieta, Viaduto Jacareí, nº 100, Centro.

No dia 20, 19h, Vacca falará sobre os intelectuais e a educação em Gramsci na Faculdade de Educação da Unicamp. Dia 21, na sede do PT em São Paulo (Rua Silveira Martins, 132, próximo ao metrô Sé), às 16h, o debate será sobre a atualidade política de Gramsci, em evento promovido pela Secretaria de Relações Internacionais do PT e pela Fundação Perseu Abramo.

É uma excelente oportunidade para se conhecer o posicionamento de um importante intelectual europeu diante da situação mundial e das perspectivas da esquerda no cenário contemporâneo. Como presidente da Fondazione Istituto Gramsci, ex-deputado pelo PCI e autor de dezenas de livros e artigos dedicados ao marxismo gramsciano e à política, Vacca expressa bem as tradições e o modo de ser da esquerda italiana, uma das mais ativas, sofisticadas e importantes do mundo.

Certamente tem muito o que nos dizer.

domingo, 1 de março de 2009

O castelo, os príncipes e o rei nu


Stetsenko Kseniya, The Naked King. Óleo.

Dizem que no Brasil tudo começa depois do carnaval. A convicção é em muitos aspectos verdadeira, mas não se aplica ao ano político, que costuma dar o ar da graça bem antes disso, se é que calendários políticos conheçam férias e interrupções.

2009 começou com a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado e, quase ao mesmo tempo, com a descoberta do castelo construído pelo deputado Edmar Moreira. Nada deveria chamar muito a atenção, não estivesse o deputado ocupando a segunda vice-presidência da Câmara (cargo que incluía a função de corregedor) e não tivesse “esquecido” de declarar o bem, avaliado em mais ou menos 50 milhões de reais. Com o agravante, como logo se soube, de que o castelo havia sido planejado para servir de cassino, num país em o jogo é ilegal. A cereja do bolo coube ao STF, que revelou a existência de um inquérito para apurar a apropriação indébita, pelo deputado, de contribuições ao INSS. Os desdobramentos do caso são conhecidos, não há necessidade de voltar a eles.

Também seria normal a recondução do deputado Michel Temer e do senador José Sarney à direção do Congresso Nacional, não fossem os parlamentares vinculados ao mesmo partido e não fosse esse partido um operador político inteiramente dedicado a seus próprios interesses, sem idéias consistentes ou laços substantivos com qualquer força viva da nação. Partido que inscreveu seu nome na história por ter conduzido, com realismo e inteligência, a luta pela redemocratização do país, hoje o PMDB é uma sombra de seu passado, ainda que continue ativíssimo. Faltam-lhe clareza programática e projeto nacional, sobram-lhe vínculos regionais e apetite por cargos. Passou a expressar o “atraso” político brasileiro, mas, curiosamente, ajuda a que se afirme “a tradição do público na sociedade”, como observou o cientista político Luiz Werneck Vianna (Estado, 15/2/2009). Faz isso, porém, por via eminentemente fisiológica, acabando por transferir ao sistema uma pesada carga de fatores degenerativos. Para ser contido, precisa ser incorporado ao jogo político, mas ao sê-lo rebaixa a qualidade do jogo. Tê-lo na condução do Congresso funciona assim de modo paradoxal: amarra o partido à democracia e à institucionalidade política, ao mesmo tempo que o reforça como estrutura predatória.

Também anterior ao carnaval foi a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos, que não poupou palavras para detonar seu partido, que estaria hoje definido por uma estrutura “coronelística” dedicada a explorar o governo e corroída pela negociata política. O tom foi de desgosto e decepção, mas o discurso foi calculado. Diga-me com quem andas e direi quem és, pareceu ser o recado ao Planalto, à direção do PMDB e a todos os que flertam com o partido. Política pura, com muita dissimulação, drama e jogos de cena. O estrondo só não foi maior porque o PMDB engoliu em seco, fez-se de morto e esfriou o fato.

O período foi pródigo na reiteração de duas tendências da política brasileira recente. Lula deu prosseguimento ampliado ao estilo que lhe têm concedido altos índices de aprovação popular, que atingiram agora impressionantes 84%. O Encontro Nacional de Novos Prefeitos por ele patrocinado foi uma festa política, mas não um desfile carnavalesco. Serviu de palco para a campanha presidencial de 2010, que, a esta altura, já se tornou fato consumado. Mas também conteve um elemento de vida institucional e governo: nas palavras do cientista político Fábio Wanderley Reis (Estado, Aliás, 15/2/1009), “a aproximação do governo federal com o municipal cria uma estrutura de Estado mais equilibrada” e reproduz a forma brasileira de fazer política.

A oposição não perdoou o que considerou uma antecipação da campanha presidencial. Foi, no entanto, bisonha e ineficiente na operação, reiterando a desgraça maior de sua fase atual. Exigir que um governante deixe de fazer política e de buscar extrair vantagens eleitorais de seus atos é tão sem sentido quanto achar que uma oposição de verdade deva atuar em tempo integral para demolir a situação. A denúncia foi somente uma demonstração adicional de medo e preocupação com os movimentos de Lula, quem sabe um reflexo da necessidade que têm os oposicionistas de ganhar tempo para arrumar a própria casa. Além do mais, veio embrulhada em paradoxos e contradições, como bem lembrou o professor Fábio W. Reis: ganhou luz pela boca do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no mesmo momento em que convocava o PSDB para entrar firme na disputa.

Juntando-se os fios, o período pré-carnavalesco serviu de espelho para que mirássemos a real situação da política nacional. Refletiram-se nele diversos traços da nossa dificuldade de ingressar em um ciclo virtuoso de vida democrática, reformismo e reorganização social. A persistência do flerte que o Congresso mantém com a desmoralização pública de sua imagem e de suas funções reflete um processo impulsionado pelo esforço compulsivo de políticos e partidos para maximizar interesses de curto prazo. A popularização banalizada da Presidência ganha embalo na figura carismática de Lula. O não-aparecimento de lideranças de novo tipo expressa a falta de uma oposição democrática suficientemente lúcida, unida e corajosa para abrir mão de ganhos imediatos e se apresentar como opção para a sociedade.

O ano começou dando transparência a uma situação cortada por dilemas, paradoxos e interrogações, em que não há nenhum príncipe (o estadista) ao estilo de Maquiavel e desapareceram os príncipes modernos de que falava Antonio Gramsci, os partidos políticos, dedicados a organizar idéias e interesses em torno de um projeto de sociedade.

Nunca o rei esteve tão nu. (Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/2/2009, p. A2).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Repúdio e solidariedade



Um recente editorial da Folha de S. Paulo (17/02/2009) mostrou o que não deveria ser feito por uma imprensa livre, democrática e rigorosa.

Ao se referir ao regime autoritário de 1964, o jornal empregou a expressão “ditabranda” – um trocadilho gratuito e de muito mau gosto, com o qual se insinuou uma tentativa de dar início à “revisão histórica” daquele período. Passando batido pelos fatos e acontecimentos hoje já estabelecidos pela historiografia e pelo próprio Estado brasileiro, o editorial atropelou a verdade, desrespeitou a luta e o sacrifício de todos os que lutaram contra a ditadura e lançou uma nuvem de obscurantismo sobre as novas gerações. Foi como se, sob um texto aparentemente “desinteressado”, dedicado a criticar Hugo Chávez e o “novo autoritarismo latino-americano”, se ocultasse a idéia de que a violência política e institucional do regime de 64 pode ser mensurada e posta em um nível mais “baixo” em termos comparativos.

Alguns leitores escreveram ao jornal manifestando seu repúdio aos termos usados no editorial. Entre eles, os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victória Benevides. A nota da redação em resposta a tais manifestações foi ainda pior do que o editorial. Apresentando-se como respeitadora da opinião dos que dela discordam, atacou os dois conhecidos e importantes professores, por ela desqualificados como portadores de uma “indignação obviamente cínica e mentirosa”.

O abaixo-assinado abaixo reproduzido foi a reação encontrada por alguns intelectuais para demarcar uma posição de repúdio ao jornal e de solidariedade aos professores gratuita e injustamente atacados. Ele é também um brado de alerta contra tentativas injustificadas e atabalhoadas de “revisionismo histórico”. Merece obter a adesão dos democratas das mais diferentes famílias políticas e ideológicas.


“Repúdio e solidariedade”

Ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repúdio à arbitrária e inverídica ‘revisão histórica’ contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro último. Ao denominar ‘ditabranda’ o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção editorial do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país. Perseguições, prisões iníquas, torturas, assassinatos, suicídios forjados e execuções sumárias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no período mais longo e sombrio da história política brasileira. O estelionato semântico manifesto pelo neologismo ‘ditabranda’ é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964.

Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a ‘Nota da redação’, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta às cartas enviadas à seção ‘Painel do Leitor’ pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato. Sem razões ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrários e irresponsáveis à atuação desses dois combativos acadêmicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante às insólitas críticas pessoais e políticas contidas na infamante nota da direção editorial do jornal.

Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fábio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.”

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Lula, o PT e a Era Vargas


Luiz Werneck Vianna é um dos principais analistas políticos do país. Professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), autor de vários livros de relevância estratégica para a compreensão da história brasileira, Werneck vem há décadas elaborando uma rica e sugestiva teoria sobre os dilemas e promessas da modernização capitalista do Brasil, com foco concentrado na dimensão mais imediatamente político-cultural. Como marxista arejado, de forte inspiração gramsciana, um intelectual democrata de esquerda, opera sempre em um registra que ultrapassa os parâmetros formais da ciência política que se pratica entre nós. Seus textos e suas diferentes intervenções públicas, apaixonadas e muitas vezes polêmicas, trazem sempre um enfoque rigoroso, criativo, sem concessões. Não por acaso, têm servido de referência para que se alcance um melhor entendimento da política nacional. Muitas delas podem ser encontradas, por exemplo, na revista eletrônica Gramsci e o Brasil.

No dia 15 de fevereiro, Werneck Vianna concedeu bela entrevista ao jornalista Wilson Tosta, de O Estado de S. Paulo, na qual reitera a originalidade e a força de seu raciocínio e de seu posicionamento. O centro de suas considerações está ocupado pela reposição da política: se vivemos, em escala mundial e também no Brasil, o desafio da regulação do sistema financeiro, então estamos diante de uma nova presença da política.

Por determinações históricas específicas, o Brasil parece mais bem equipado para enfrentar a crise. Ao longo das últimas décadas, manteve o “atraso” sobre controle democrático, impossibilitando-o de dirigir o país mas, ao mesmo tempo, sem romper frontalmente com ele. Incorporando-o, por assim dizer. Deste ponto de vista, soldaram-se os fios que ligam o Brasil do século XXI com o Brasil de Vargas. “O PT recuperou a era Vargas. Lula é um Vargas. Há muito tempo”.

Por este motivo, mas não só, Lula permanecerá como decisivo ator na política brasileira. Contra tudo e contra todos, caso seja necessário. “Lula já se desprendeu do PT. Governa o partido e, agora, com relações cada vez mais doces com o governador de São Paulo”. É um mapa tentativo para que se comece a olhar com maior argúcia para 2010.

A íntegra da entrevista pode ser lida neste link.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Paz e união por meio da música


Que podemos encontrar de tudo (ou quase) na internet é algo que todos sabem. Mas a grande rede não cansa de nos surpreender e de nos oferecer bons motivos para olhar o mundo atual com mais esperança, generosidade e emoção.

Nas últimas semanas, milhões de pessoas foram ao youtube para assistir a um vídeo sensacional, no qual músicos de rua de diversas partes do mundo foram reunidos virtualmente para cantar e tocar "Stand By Me", conhecido clássico de Ben E. King. Valendo-se da tecnologia e de uma idéia simples mas poderosa, Mark Johnson e Jonathan Walls gravaram a performance de cada músico, mixaram e editaram tudo em um único clip. O resultado é simplesmente espetacular.

A iniciativa é do movimento multimídia Playing For Change, que foi criado “para inspirar, conectar e trazer paz para o mundo por meio da música”. O cover de “Stand By Me” faz parte do documentário Playing For Change: Peace Through Music, a ser lançado em 2009. O criativo e inteligente trabalho revela a singularidade de diferentes artistas, povos e culturas, mostrando o modo como cada um se relaciona com a música e dela faz uma forma de expressão. Fica assim evidente que, desta diversidade e da potência envolvente da música, uma linguagem comum se constitui.

Para conhecer o movimento, vá a sua página.

Para assistir particularmente a “Stand By Me”, vá ao youtube.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Entre Davos e Belém


O sociólogo francês Alain Touraine, 83 anos, diretor de pesquisas da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), é um dos grandes nomes das ciências sociais contemporâneas. Bastante conhecido no Brasil, tem vários de seus livros aqui publicados, como Crítica da modernidade, Poderemos Viver Juntos? e O novo paradigma. A América Latina e a história brasileira sempre estiveram no centro de suas preocupações, assim como os movimentos sociais. Touraine defende a prevalência da liberdade sobre os determinismos e postula a “ação social” como fulcro da sociologia, com o que tem se mantido atento a tudo que diga respeito aos distintos sujeitos sociais da modernidade atual.

No último dia 1 de fevereiro, Touraine concedeu extensa entrevista a Laura Greenhalgh e Ivan Marsiglia, do jornal O Estado de S. Paulo (Caderno Aliás), na qual foi convidado a falar sobre a crise mundial e os recentíssimos fóruns de Davos e Belém. Seu diagnóstico insiste na gravidade da crise, cujo eixo repousaria numa crescente separação entre economia e política: “após um período inicial de desenvolvimento, o sistema financeiro se descolou completamente do corpo da economia, para atuar num campo fora das possibilidades de ação social e coletiva, campo este onde ele poderia ser reequilibrado e corrigido”. Em decorrência, a desigualdade social aumentou generalizadamente e a regulação se tornou quase que impossível.

Em que pese sua convicção de que a “ação da sociedade” é a chave para a modelagem de qualquer sistema social, Touraine não acredita que ela tenha se estruturado de modo suficiente, a ponto, por exemplo, de moderar e disciplinar o mercado. Na sua opinião, é preciso investir em política: “não adianta apenas reforçar partidos e Parlamentos. Claro, eles são importantes e têm sua função no mundo da economia moderna, mas é vital reinventar instâncias de contestação e criar um movimento de opinião pública forte. Aí está a força da política”.

No segundo semestre de 2008, Touraine publicou um livro reunindo diversos “encontros por escrito” que manteve com Ségolène Royal, ex-candidata do Partido Socialista francês à Presidência. O título escolhido – Si la gauche veut des idées [Se a esquerda quer idéias] – é bem indicativo de suas preocupações atuais.

A íntegra da entrevista, bastante interessante, pode ser lida aqui.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Comemorações protocolares



São Paulo comemora um novo ano de vida consolidada como metrópole dinâmica, diversificada, mergulhada em contrastes, dificuldades e paradoxos.

Nela, tudo é superlativo. A população de 11 milhões de pessoas é maior do que seria razoável. São mais de 5 milhões os veículos que nela circulam, a velocidades médias sempre menores. Milhares de bares e restaurantes, 1 milhão de pizzas por dia, mais de 250 mil estabelecimentos comerciais, pelo menos três dezenas de grandes shopping centers, 10 milhões de visitantes/ano, cerca de 80% dos eventos do País, 500 helicópteros, mais de mil academias de ginástica. Das 15 mil toneladas de lixo que produz por dia, quase nada é reciclado ou coletado de forma seletiva, gerando montanhas de resíduos e sujeira. O desperdício é generalizado, nas casas, nas indústrias, no comércio, na construção civil. Dá para estimar o gigantesco volume de dinheiro que escorre pelos interstícios de seu sistema bancário, de fazer inveja a qualquer país desenvolvido. A riqueza faz eco a uma miséria persistente. Terra de oportunidades, empregos, sonhos e fantasias. Globalizada, repleta de ofertas culturais e espaços públicos, com um patrimônio histórico relevante e uma população multiétnica, a cidade pulsa sem cessar. É a locomotiva do Brasil, como diz a tradição, especialmente quando se leva em conta que é a partir de sua efervescência, de seu empreendedorismo e de seu poder de consumo que o país se mantém entre os principais protagonistas da economia mundial.

São Paulo poderia ser excelente para se viver. Mas não é. Por sua grandeza, pelo papel que desempenha, por suas glórias e tradições, deveria sê-lo. Não que falte perspectiva comunitária. Inúmeros paulistanos se identificam com a cidade e sentem orgulho por dela fazer parte. Criaram raízes nela e estão decididos a construir a vida em seus espaços. Talvez até estejam dispostos a agir para fazer com que as coisas melhorem, ainda que a maioria acalente o sonho de deixar a cidade, fugir de seus tentáculos e pressões, buscar o futuro em outro lugar. Mas falta alguma coisa para dar norte humanizado à cidade, ao mesmo tempo em que sobram problemas.

São vergonhosos os indicadores da qualidade de vida dos paulistanos, especialmente em termos sociais. Os cidadãos percebem isso e se manifestam com clareza sempre que perguntados: a cidade não é justa, submete seus moradores a sacrifícios pesados, como se quisesse expulsá-los. Amplifica desigualdades, em vez de reduzi-las. Suas periferias são indignas. A educação deixa a desejar em todos os níveis, em que pese a cidade desempenhar importantíssimo papel na produção técnica e científica nacional, graças às suas universidades públicas e a seus institutos de pesquisa. Há deficiências graves no sistema de saúde. O custo de vida agride os moradores. A insegurança e o medo c ou condicionam hábitos, valores e opções de convivência. A poluição está tão radicalizada que parece não ter como ser monitorada: o ruído urbano atinge níveis insuportáveis, os dois grandes rios que cruzam a cidade são imundos, a fumaça negra que a impregna bloqueia a visão e envenena os pulmões.

Com a força magnética e os recursos (humanos, técnicos, financeiros, intelectuais) de que dispõe, chega a ser incompreensível o atraso que a cidade exibe em vários de seus setores. Tome-se o transporte público, por exemplo. Numa teia urbana gigantesca como a de São Paulo, é óbvio que o deslocamento da população adquire dimensão estratégica. Pessoas que passam mais de duas horas por dia para fazer o percurso casa-trabalho-casa, como ocorre com a maioria dos paulistanos, não dispõem de condições razoáveis para crescer na vida. Acabam ficando tentadas pelo automóvel particular, este categórico objeto de desejo da modernidade, com o que se desinteressam da luta pela melhoria dos meios públicos. E quando conseguem – à custa de restrições e endividamentos – comprá-lo, terminam por contribuir para piorar ainda mais a situação.

Muito pouco tem sido feito nos últimos tempos para enfrentar o problema. As expectativas de melhoria continuam a ser transferidas para a ampliação do metrô. Perante os ônibus, a imaginação parece entorpecida, escrava de corredores exclusivos e obras viárias. O que se desenhou anos atrás como plataforma inovadora quase nada deixou de legado. Os veículos não são amigáveis. São mal sinalizados, pouco informativos, sujos e desconfortáveis. O bilhete único foi uma das poucas boas idéias a serem postas em prática, mas ainda é insuficientemente explorado e não se combinou nem com a implantação de linhas setoriais que fluam com maior rapidez e desobstruam as vias públicas, nem com uma tarifação mais flexível e inteligente. O Sistema de Monitoramento do Transporte (“Olho Vivo”), implantado pela SPTrans para fornecer aos usuários informações em tempo real sobre os ônibus, é uma excelente iniciativa, mas atinge pouca gente e não é otimizado. O próprio sistema de transporte em seu todo é mal conhecido pela população, que não tem como se informar a respeito dele ou visualizá-lo de modo abrangente.

Qualquer intervenção dedicada a reformular um sistema de transporte público requer muito conhecimento especializado. São Paulo dispõe de inteligência e informação em doses mais que suficientes. Precisa saber usá-las para propor idéias novas e convocar a população para agir coletivamente.

O problema tem uma clara dimensão técnica e financeira, mas é sobretudo político. Para ser solucionado, depende de determinação, ousadia e apoio social, coisas que somente a política pode fornecer.

Enquanto isso não se produzir, aniversários continuarão a ser comemorados de modo protocolar, para honrar a história, mas não para demarcar novos espaços de cidadania e vida digna. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 24/01/2009]


quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

As duas faces da crise



O ano que ora se encerra parece destinado a ser avaliado a partir do espectro da crise.

A tendência analítica prevalecente destaca a crise financeira que assola o mundo como dotada de gravidade e profundidade suficientes para ameaçar o pouco que havia de otimismo e sugerir que ingressamos em uma fase na qual o capitalismo está novamente desafiado a reiterar sua autoproclamada racionalidade. Reconhece-se, aqui, a natureza eminentemente incerta e “imprevisível” do sistema capitalista, que a cada ciclo parece maximizar os elementos de risco e anarquia inerentes à sua estrutura de produção.

Este viés dominante embute um outro. É que, sendo a crise de “proporções históricas”, ela não só criaria dificuldades para a reprodução organizada da vida como também abriria oportunidades para a inovação, a revisão de convicções e a reprogramação do futuro. Afinal, todo processo carrega consigo problemas e soluções, falências e novas oportunidades. Não só de dor e sofrimento é feita a história.

Mas crises são crises, e nem sempre a criatividade que as acompanha mostra-se de imediato, de modo automático. Crises só são espaços de invenção quando encontram circunstâncias particularmente favoráveis, que agregam pessoas e despertam vontades desativadas, pondo-as em movimento. Requerem também atores qualificados para traduzir e potencializar tais circunstâncias, de modo a extrair o máximo delas.

Neste ponto, ingressamos num território confuso e controvertido, pois é consensual que vivemos num tempo refratário a mobilizações coletivas e à emergência de lideranças políticas maiúsculas. Além do mais, a própria explicação da crise divide as pessoas em múltiplos campos, que não se reduzem à dicotomia otimismo vs. pessimismo, embora estejam atravessados por ela.

Enfatizar o lado mais sombrio da crise tanto pode expressar um prudente brado de alerta contra os que banalizam e minimizam seus desdobramentos, quanto ter um efeito paralisante, que bloqueia o encontro de saídas e adaptações. Efeitos paralisantes deste tipo não conhecem ideologias; podem ser de esquerda ou de direita, quer dizer, podem explorar de modo invertido um arcabouço ideológico inspirado na idéia de que somente seria possível conceber um mundo “sem crises” se se vivesse em um outro mundo, inteiramente diferente do atual – um novo mundo, que viria na esteira ou de uma “revolução em nome da ordem”, pela direita, ou da completa subversão da ordem existente, pela esquerda.

A ênfase no lado sombrio da crise também pode ocultar estratégias de intimidação, com as quais se proporiam soluções autoritárias ou providenciais, na linha de que situações difíceis exigem soluções amargas e “chefes” especialmente dotados.

Já os que se dizem tranqüilos e “confiantes” diante da crise não são necessariamente sinceros. Alguns talvez desejem contrariar a rational choice e incentivar as pessoas a não cederem diante das dificuldades para não aumentá-las ainda mais. Outros podem manifestar confiança na capacidade que teria o sistema de se auto-regular ou simplesmente revelar algum tipo de cegueira diante da realidade, um tipo de antolho ideológico ou alienação. Tanto podem mobilizar energias coletivas adormecidas quanto impulsionar taras conservadoras. Podem servir para que se cristalizem fés fanáticas no sistema ou para que se recuperem velhas utopias, como a do mercado auto-regulável ou do Estado todo-poderoso.

Entre uns e outros, inserem-se os realistas autênticos, que trabalham para que as circunstâncias existentes se traduzam em uma teoria da ação que faça história e produza transformações em cadeia, isto é, dispostas progressivamente em um círculo espaço-temporal concatenado, no qual cada alteração, cada reforma, cada medida positiva, seja a plataforma para novas medidas ainda mais profundas e contundentes.

Momentos como o atual preparam o palco para que políticos e intelectuais realistas exibam seu estoque de recursos, mostrem-se à altura, equacionem os problemas na medida mesma da gravidade deles. É em momentos assim que surgem os estadistas, os grandes políticos, aqueles que dialogam com as massas mas não se negam a contestá-las, que não são paternalistas, mas generosos e ousados. É neles que os intelectuais deixam-se agitar pela urgência cívica, põem-se uma agenda teórica aberta e elaboram novos paradigmas.

À primeira vista, os dias atuais não parecem reunir condições para que se generalizem tais posturas realistas. A reorganização hipercapitalista a que o mundo está sendo submetido carrega no ventre um cenário embaçado e preocupante, simbolizado pela corrosão dos talentos políticos e intelectuais, pela desmontagem dos arranjos coletivos com que se protegiam as sociedades, pelo esvaziamento das instituições e pela subversão dos circuitos espaço-temporais que forneciam parâmetros para a vida.

Devemos, porém, pensar o tema com os olhos para frente. Se é verdade que o capitalismo turbinado das últimas décadas tem sido devorador da sociedade – estilhaçando a vida coletiva e roubando protagonismo dos grupos em benefício dos mercados – também é verdade que ele manteve ativa a dimensão estrutural e subjetiva do conflito, da contradição, da luta pela vida. A sociedade não morreu, somente foi redefinida. A política não desapareceu, somente foi desorganizada e posta em um plano mais técnico que ético, que não emociona nem inspira confiança.

Por sua gravidade e contundência, a crise pode forçar a que certas coisas voltem ao devido lugar. Há indícios de que algo novo começa a surgir nesta direção. E não deixa de ser uma excelente promessa de fim de ano nos comprometermos todos, cada um a seu modo, a brigar para que 2009 escape da mesmice, das fórmulas conhecidas, das frases feitas, do fanatismo ideológico e das posturas servis de conveniência. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/12/2008, p. A2.]

domingo, 23 de novembro de 2008

O efeito Obama



A eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos já foi submetida a todo tipo de avaliação. Porém, como todo fato histórico, continua a desafiar os analistas.

Foi sem dúvida o principal acontecimento de um ano sacudido mais pela crise financeira internacional do que por fatos políticos particularmente expressivos. Terá força para repor a política no centro da vida e das atenções, ao menos nos Estados Unidos? Muito se falou da dimensão simbólica da vitória de Obama. Um negro, que veio de baixo, um político formado por Harvard, estranho às aristocracias políticas norte-americanas, não poderia mesmo deixar de produzir impacto, despertar emoções, dar esperança a milhões de pessoas que se sentem derrotadas e humilhadas, que ainda se lembram do apartheid racial que devassou a convivência e a dignidade humana dentro e fora da nação tida como “pátria da Liberdade”. Mas Obama também incendiou os jovens e conseguiu assimilar o eleitorado feminino que torcia por Hillary Clinton. Estabeleceu empatia com todos os setores da sociedade americana. Foi emocionante ver as multidões que o saudaram em Chicago e comemoraram sua vitória em várias partes do mundo. Num momento de refluxo no envolvimento com a política, a centelha de mobilização que acompanhou Obama merece no mínimo um acompanhamento cuidadoso.

Dado o peso dos Estados Unidos, tudo o que ali acontece pode repercutir no modo como se vive no mundo. Mas não em termos imediatamente econômicos, pois parece difícil que se consiga, pelo efeito mágico de um gesto, estancar de imediato a crise financeira, modificar a predisposição consumista das massas e arrefecer o afã desenvolvimentista que grassa forte neste início de século. Consumismo desenfreado e crescimento econômico a qualquer preço são duas das principais pragas da modernidade, e a elas devemos imputar boa parte das mazelas com que convivemos. Trocar consumo e desenvolvimento por investimentos sociais, por democracia, igualdade, respeito ao meio ambiente e desaquecimento, não é seguramente operação simples. Requererá décadas de empenho político, criatividade e reeducação.

Obama não tem como nos fornecer isso, mas pode agir como catalisador. Pode, por exemplo, repor na cena política uma agenda progressista, voltada mais para a população do que para a economia, ainda que sem abandonar a convicção de que é preciso ajudar os mercados a sair da lambança em que se meteram. Voltar-se para a população significa fazer o governo funcionar para promover as pessoas, provê-las de serviços e suportes que as façam crescer e viver com dignidade. Obama pode ajudar a que se passe a ver o bom governo como aquele que colabora para que se tenha boa vida, não tanto boa economia. Pode ser uma diferença sutil, mas não deixa de ser decisiva. Dar-se-ia o mesmo na frente administrativa. Uma guinada progressista de Obama jogaria por terra o palavrório insosso do “choque de gestão” e do Estado mínimo.

Muitos manifestaram preocupação com o protecionismo do Partido Democrata e do próprio Obama, que desde a campanha sempre se manifestou favorável aos interesses de seu país. Os que não gostaram disso pareciam querer que o novo presidente governasse para o mundo e para os países mais pobres. O protecionismo democrata é tradicional. Sempre existiu e sempre existirá, especialmente em momentos de crise aguda, como o atual.

Uma eventual agenda progressista de Obama não abandonará o protecionismo, e não fará isso por vários motivos. Mas poderá contribuir para que se criem novos canais de negociação, novos relacionamentos comerciais e novas modalidades de cooperação e ajuda internacional. Se for assim, será um passo de gigante.

Não houve quem não lembrasse que uma coisa é o discurso de campanha, outra coisa é a prática efetiva do governo. Trata-se de uma lembrança oportuna, ainda que óbvia e elementar. Todo governante eleito vive tal situação, mesmo aqueles que prometem pouco e se apresentam como técnicos ou “gerenciais”. Campanha e governo implicam lógicas distintas, condutas e discursos específicos. O importante é compreender como o candidato se prolonga no governante. Política e governo são sempre um ator e certas circunstâncias. Faz-se o que se pode, não o que se deseja fazer. Mas sempre dá para ligar o desejável e o possível, graduá-los e equilibrá-los, de modo a que a prática dura e fria do governo contenha uma dose de fantasia e facilite às pessoas a continuidade de uma esperança. Obama enfrentará dificuldades enormes para transformar em fatos muitos de seus compromissos de campanha. Mas poderá fazer com que seus recuos e fracassos se convertam em fatores de mobilização para novas tentativas futuras.

Obama tem tais condições porque representa um sopro de renovação e vem embalado pelo entusiasmo das multidões. Sua legitimidade mistura respeito racional-legal e adesão ao carisma do líder. Representa o negro pobre e o branco liberal, o branco atingido pela crise e o negro progressista, a classe média que se empobreceu e as elites democráticas, os jovens, os mais velhos e as mulheres de todas as etnias.

Torcer por seu sucesso, e admitir que ele possa acontecer, não autoriza ninguém a se pôr diante dele com a ingênua expectativa de que tudo agora será diferente. Obama não trará o céu à terra até mesmo porque não se comprometeu com isso. Não é anticapitalista nem reformista convicto, menos ainda um socialista moderado. É somente um político jovem, talentoso, pragmático e determinado, em cujas veias parece correr o sangue secular do que há de melhor na sociedade americana. Mais que um sonho, ele expressa o fim de um pesadelo, a era Bush. Pode não ser suficiente, mas é sem dúvida muita coisa. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 22 de novembro de 2008, p. A2]