Se há algo que sempre
surpreende quando se escreve sobre PT e PSDB é o fervor com que parcela da esquerda
se manifesta. É um fervor particularmente forte entre os que se consideram
“revolucionários”. Experimentei isso intensamente nos últimos dias, graças às
reações provocadas pelo artigo “Farol alto”, publicado no Estadão de sábado passado e reproduzido em outra parte do blog.
Este ramo meio perdido da
esquerda – que se move em parte por nobres ideais e em parte por interesses de
tipo mais fisiológico – não admite, “por princípio”, qualquer tipo de reflexão
que valorize o que há de comum naquelas duas expressões partidárias do
reformismo brasileiro. Seu suposto recorrente é que os tucanos se converteram,
ao longo do tempo, em agente do conservadorismo no Brasil, via abertura do país
ao neoliberalismo e à consolidação de uma dominação “oligárquico-burguesa”.
Teria sido uma espécie de
traição aos ideais reformistas e liberal-democráticos com os quais o PSDB veio
à luz. Com o tempo, o partido se transformou numa versão moderna da direita,
preocupada com a classe média urbana e abertamente pró-imperialista, ou
entreguista, como reza o jargão. Copiou, assim, o que a social-democracia sempre
fez na história: o trabalho sujo de impulsionar a “contrarrevolução”.
Com esta inflexão, trombou com
o PT, que cresceu buscando vocalizar e organizar um projeto alternativo ao dos
tucanos e se converteu, com o tempo, no polo reformista por excelência. O
choque PT vs PSDB, assim, teria sido inevitável
e expressaria o antagonismo entre dois projetos de sociedade e duas visões do
mundo. Como o PSDB seria a voz mais forte da articulação reacionária, ele
precisaria ser combatido a ferro e fogo pelo campo popular e pelos
trabalhadores, ou seja, pelo PT.
Por falta de opções, a esquerda que
se autodefine “revolucionária” está hoje no barco do PT. Defende com ardor o que fazem os governos petistas, que não cometeriam erros e seriam vítimas
permanentes da “mídia burguesa”. Briga contra tudo o que respira fora da seara petista:
bate no PSOL, no PSTU, no PPS, no PCO e evidentemente no PSDB. Na visão dela,
todas estas agremiações estão a serviço do “imperialismo”, da direita e da
“reação burguesa”.
Os efeitos perniciosos desta
jactância são enormes. A história do século XX inteiro é um excelente
mostruário das bobagens e dos retrocessos que se seguiram à visão do
progressismo autossuficiente, que basta a si próprio. Ora como tragédia, ora
como farsa, a repetição só fez piorar as coisas.
Ela contém um erro de análise e
um erro de encaminhamento político.
Falha na análise porque não
consegue distinguir direita de esquerda e porque não encontra as determinações
estruturais do processo que tenta interpretar. A operação é eminentemente
fraseológica, sem programa de pesquisa ou reflexão crítica. Nada teria mudado
no mundo ou na vida, o capitalismo é o mesmo de sempre, assim com os grupos, as
classes, o modo de vida, as reivindicações, os alinhamentos políticos. Há o
capitalismo central e seus asseclas, há o imperialismo de sempre, com seus sabujos,
há a direita, o centro e a esquerda, que seria um monolito. Não há esquerda
moderada, por exemplo, e a extrema-esquerda deve ser desprezada. Direita e
esquerda, nesta visão, não são termos relacionais, mas estruturas fixas. Por
isso, não compreende que o PT, na última década e meia, saiu da esquerda para o
centro e deslocou, com esse movimento, o PSDB do centro para a direita. Ambos os
partidos, porém, não têm em seu DNA nem o moderantismo do centro, que o PT
passou a exibir, nem o reacionarismo da direita, que nunca progrediu no PSDB.
A visão pretensamente “revolucionária”
enche a boca para proferir discursos classistas, mas não vai além disso: as
classes não aparecem em suas análises, não são atores, funcionam somente como
recurso retórico. Há exclusivamente a classe operária, viçosa, sofrida e
combativa, quem sabe de braços dados com o campesinato. Se ela não se revolta
ou se apoia governos que falam em seu nome sem fazerem coisas de seu interesse,
pouco importa. A questão é que ela é a referência. As demais classes não são
bem-vindas.
A análise também tropeça em
algo ainda mais importante: não mostra de forma convincente em que parte da
história o PT praticou uma política antagônica ao PSDB e não consegue admitir
que o PSDB não governou praticando políticas hostis ao PT, mas sim buscando “globalizar”
o país e ajustá-lo ao ritmo do mundo (o que, na minha opinião, não foi algo
positivo, mas facilitou a que o PT
passasse a falar em “desenvolvimentismo” uma década depois). A política econômica dos
anos petistas seguiu basicamente a mesma orientação tucana e sua modulação “desenvolvimentista”
se deveu muito mais a circunstâncias do que a decisões “revolucionárias”. A
própria “burguesia oligárquica” que os “revolucionários” julgam existir no país
apoia o PT do mesmo modo que apoiou o PSDB: é a favor de tudo o que não
contraria seus interesses. E foi, em certa medida, com o apoio dela que o PT monopolizou
a agenda nacional, a ponto de praticamente fechar os espaços para formulações
oposicionistas. Em decorrência, o PSDB, que nunca atingiu o melhor de sua forma
como partido, terminou por se agarrar a propostas oportunistas e
secundárias para não desaparecer por completo.
PT e PSDB não são de modo algum
uma única e mesma coisa. Deveria ser óbvio constatar isto. Mas não configuraram antagonismos, e sim diferenças no
âmbito de um mesmo bloco histórico (Gramsci), que cumpriram nas duas últimas
décadas funções e programas convergentes. Têm sido traduções políticas e
partidárias da revolução passiva do nosso tempo.
O erro de encaminhamento é mais
simples. Se o campo progressista está hegemonizado por uma só força, então não
há qualquer perspectiva de aliança substantiva, e a força progressista ou fica
estagnada e não reforma nada, ou termina por se aliar “taticamente” com forças
que não são progressistas.
Algo assim pode ser visto no
Brasil das últimas décadas. O PSDB, quando foi governo federal, se considerou a
única força capaz de reformar o Estado brasileiro. Olhou para sua esquerda e
viu somente adversários, a começar do PT. Necessitado de condições de
governabilidade, acabou aliado ao DEM, que travou o reformismo inicial. Quando
Lula se tornou presidente, em 2003, algo parecido ocorreu: ele olhou para a
esquerda e só enxergou protagonistas a serem subordinados ou ignorados; olhou
para o centro, encontrou o PSDB e o empurrou para a direita; terminou com o
PMDB, que está à direita do PSDB mas que, na coalizão governista, posa de
centro-esquerda. O PMDB é o DEM do PT: ajuda o PT a refrear suas intenções
reformadoras. E o PT, interessado em firmar seu predomínio político e a
acumular sempre mais recursos de poder, passou a vetar qualquer tipo de unidade
ou articulação democrática e reformista. Caminha abraçado a seus aliados da
hora, concentrado no plano imediatamente político e eleitoral.
Tenho defendido, como no artigo
mencionado, que a vida política brasileira seria melhor se convergências
explícitas e programáticas tivessem havido entre o PT e o PSDB, esses
irmãos-inimigos da política brasileira. Um partido teria ajudado o outro a
evitar certos “desvios” e a se autocriticar. Ambos teriam crescido. Haveria um
bloco reformador no país, ao qual se vinculariam o PSB e os demais partidos
democráticos. Sua força magnética tenderia a isolar os setores efetivamente retrógrados
e a empurrar o PMDB de volta às origens.
Como não houve isso e nem
haverá no curto prazo, estamos condenados a girar em círculos. Nossa
coreografia política ficou pobre, aprisionada a disputas por recursos de poder
e ao calendário eleitoral. Sem novas ideias e novas articulações políticas, não sairemos do lugar, por mais que possamos vir a ter
a sensação de que nos movimentaremos sem cessar.
Penso que esse quadro deveria
nos convidar a aprofundar a discussão que está no título deste post: seria o
PSDB um partido de direita? E a esquerda, quem a representaria? Seria o PT um
partido de esquerda? E, para finalizar, haveria ganhos reais numa batalha pela
formação de um bloco político democrático e reformador no Brasil?