sexta-feira, 29 de maio de 2009

O VII Encontro Internacional do FOMERCO


Estão abertas até o próximo dia 15 de junho as inscrições para a proposição de papers aos Grupos de Trabalho do VII Encontro Internacional do Fórum Universitário Mercosul-FOMERCO. O evento terá lugar na Universidade Latinoamericana (UNILA) em Foz de Iguaçu, de 09 a 11 de setembro, e reunirá, além dos 28 GTs existentes, diversas outras sessões e mesas-redondas.

Eu e Ingrid Sarti, professora da UFRJ, coordenamos o GT 8, que integra o 5º eixo temático do Encontro, dedicado a discutir os principais desafios teóricos do processo de integração.

O GT 8 se chama “Novos paradigmas políticos para a integração regional” e pretende acolher papers que se proponham a investigar e discutir as questões políticas que se anunciam paradigmáticas no atual quadro da América do Sul, tendo em vista especialmente (mas não exclusivamente) a agenda da integração. Nosso interesse é pensar as diferentes formas que vêm assumindo, no continente, os processos de democratização, os procedimentos e problemas de governo, as relações Estado-sociedade civil e a cultura política.

A agenda do GT é aberta e procura dialogar com diferentes temas e perspectivas teóricas. Seu objetivo é promover aproximações entre análises que privilegiem os sistemas e os processos, os atores (movimentos, partidos, associações, governos) e as estruturas estatais, as idéias e os programas políticos. Uma questão pode ser apresentada como vertente de animação: em que medida o atual modo de pensar e fazer política interfere no processo da integração regional? Estão os sistemas políticos, as regras do jogo democrático e os atores políticos (tanto os do Estado quanto os da sociedade) suficientemente preparados para dinamizar democraticamente a integração, ou seja, para fazer com que ela caminhe além da consolidação de pactos e acordos de cooperação comercial? Se a política eventualmente está falhando, isso se deve a um problema imediatamente político (relacionado, por exemplo, à qualidade dos diferentes sistemas e atores nacionais) ou é um desdobramento da reorganização por que passam as sociedades, refletindo assim o modo mesmo como elas estão se transformando e/ou reagindo às novas circunstâncias histórico-universais?

As propostas devem ter entre meia e uma lauda, espaço 1.5 e incluir dados curriculares, vinculação institucional e e-mail, além de indicarem o número e o título do GT a que se dirigem. Devem ser enviadas até o dia 15 de junho para os e-mails viifomerco@pti.org.br, marcoscostalima@terra.com.br e ingrid.sarti@ufrj.br

O FOMERCO é uma rede acadêmica de universidades sul-americanas que se reúne anualmente para discutir e analisar as implicações, as trajetórias, os problemas e os avanços relativos ao processo de integração do Mercosul. Seu atual presidente é o cientista político Marcos Costa Lima, da UFPE.

sábado, 23 de maio de 2009

Para compreender o mundo


Muitos jovens universitários e pré-universitários – assim como muitos não tão jovens profissionais já inseridos no mercado de trabalho – talvez se surpreendam com o presente texto. Ele se dedica a fazer o elogio das Ciências Humanas, esse amplo e controvertido conjunto de conhecimentos com os quais as sociedades têm procurado se conhecer ao longo do tempo.

A surpresa poderá existir, antes de tudo, porque o conceito mesmo de Ciências Humanas é relativamente impreciso, dado não existir consenso estabelecido a respeito de quais ciências devam ser incluídas no conjunto. Tome-se a economia, por exemplo. Numa visão abertamente econometrista, ela poderia ser vista como sintonizada com as matemáticas. Se o foco for o universo financeiro, ela se associaria unilateralmente aos negócios. Mas a grande economia – a Economia Política – é bem diferente disso. Tem lugar cativo entre as Humanas, e somente se realiza como ciência se interagir com os conhecimentos que se interrogam a respeito do homem em sociedade.

Dar-se-ia o mesmo com a Administração, a Psicologia e as Letras, que muitas vezes terminam por ser postas à meia-distância daquele conjunto a que pertencem no mínimo por exclusão.

O segundo motivo tem que ver com o primeiro. É que vivemos de modo tão pragmático, veloz e utilitarista, numa estrutura em que a luta pela vida é incerta e competitiva ao extremo, que as pessoas passaram a desconfiar das Ciências Humanas. Tendem a achar que elas – a Filosofia, a Ciência Política, a Sociologia, a Antropologia e a História, que formam o esteio de sustentação do bloco – estão incapacitadas para garantir um nicho consistente em termos de emprego ou pavimentar o caminho para aquilo que se considera “sucesso profissional”. Teriam pouca utilidade, já que seriam ciências mais “negativas” e reflexivas que “positivas” e aplicadas. O Mercado – esse semideus da modernidade globalizada – tomou o lugar do Homem, da Sociedade e do Estado, a ponto de fazer com que as pessoas percam a vontade de se conhecer a si próprias.

Sabe-se que a modernidade não é somente empenho cego para maximizar a racionalidade e a produtividade. É também disseminação de espírito crítico, incremento comunicativo e esforço para que se viva de maneira mais justa e sábia. Hoje, porém, o lado mais instrumental e perverso do moderno prevalece. Vivemos sobrecarregados por ele e acabamos por deixá-lo modelar muitos de nossos cálculos, expectativas e projetos.

Tal prevalência está na base da má-vontade que se tem com as Humanas. Pensa-se que elas atrapalhariam, pois convidariam as pessoas a um exercício intelectual supérfluo, meio romântico e “subversivo”. Acredita-se, além do mais, que todos seriam naturalmente capazes de entender a sociedade e a época em que vivem, mas nem todos conseguiriam atingir as esferas mais elevadas do pensamento técnico-científico. Acha-se que para dominar os fundamentos das Exatas ou das Biológicas é necessário muito estudo e inteligência, ao passo que a assimilação das Humanas seria tarefa fácil, quase uma extensão da alfabetização.

A partir daí, se cria uma muralha separando as Humanas das demais ciências. Os estratégicos conhecimentos produzidos pelas primeiras ficam assim fechados em si, em vez de serem incorporados pelas outras, que se especializam cada vez mais. As próprias universidades ignoram a relevância e as vantagens da integração disciplinar. São poucas, se é que existem, as faculdades de Exatas ou Biológicas que incluem matérias de Humanas em seus currículos. A recíproca, claro, é igualmente verdadeira.

Mas a questão vai além do universo acadêmico. Tanto que se tornou usual, entre pais e alunos, distinguir as escolas do ensino médio em “fortes” – que reforçam os conteúdos, dão destaque às Exatas e se dedicam a fazer com que os alunos cheguem à universidade – e “fracas”, quase sempre identificadas com orientações de tipo humanista e voltadas para a formação de um aluno mais crítico e criativo. Dada a competição entre elas, aos poucos todas vão se convencendo de que precisam ser “fortes”. Vão assim se deixando seduzir pela preocupação de funcionarem como preparatórios para o vestibular, em vez de se dedicarem à formação integral dos estudantes.

Acontece que o mundo é complicado demais para ser vivido e especialmente para ser compreendido. Ele não se revela de imediato, desafia-nos e nos confunde, chega mesmo a atemorizar. Precisa ser pensado, analisado em seus ritmos e determinações para poder ser concebido como um todo e não apenas como um amontoado de fragmentos desconexos.

Isso não é possível sem as Humanas. Sempre foi assim, aliás. Não é por outro motivo que a idéia moderna de universidade tem no seu coração uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, entendida como espaço onde os saberes e as especialidades encontram condições para superar suas estreitezas. Sem esse coração, a universidade não se completa.

Precisamente porque vivemos em ambientes complexos, dinâmicos e fragmentados, as Ciências Humanas tornaram-se estratégicas. A razão crítica por elas cultivada deveria ser amplamente disseminada, de modo a ajudar a que cidadãos e profissionais sejam mais do que meros receptores ou aplicadores de conhecimentos e adquiram recursos intelectuais abrangentes.

Fazer a defesa das Humanas não é somente defender os cursos e faculdades de Humanas, que certamente necessitam de maior valorização. É também defender a perspectiva de que bons profissionais – sejam eles quais forem – se caracterizam pela posse de uma visão coerente do mundo e por saberem articular saberes. São intelectuais, pessoas capazes de compreender o mundo em que vivem, traduzi-lo em termos compreensíveis para todos e organizá-lo tendo em vista uma idéia de comunidade política democrática. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 23/05/2009, p. A2].

domingo, 3 de maio de 2009

E a magnética agradecida sempre canta


Foi mais um domingo de paixão e luta. O empate deu o título paulista ao Corinthians, time mais bem estruturado, equilibrado da defesa ao ataque, com auto-estima sob medida e um elenco bem servido de peças de reposição. Ao Santos restou a constatação de ter uma equipe brigadora e bem armada, que renasceu depois de um início de ano desanimador.

Como futebol também é política, Maquiavel esteve em campo com seu realismo e sagacidade. Os técnicos se destacaram como estrategistas, mas o centauro maquiavélico foi coletivo: força e tirocínio prá valer só puderam ser encontrados dentro das quatro linhas. E lá, meus amigos, quem age e faz com que as coisas aconteçam são os jogadores, verdadeiros heróis de todas as partidas. Eles são a espinha dorsal, a chave, o eixo de um conjunto magnético que se completa na torcida, na massa de milhões de pessoas que não medem esforços para apoiar o time, sofrem e vibram com ele, passando-lhe as referências fundamentais.

Já é hora de parar de inflar o ego e superestimar o papel dos técnicos. Dada a complexidade operacional adquirida pelo futebol, os técnicos são peças fundamentais, indispensáveis sob muitos aspectos. São os "professores", "comandantes" de jogadores muitas vezes frágeis diante da glória, imaturos frente aos desafios e tensões, depressivos ou maníacos conforme o momento, que necessitam de suportes existenciais, fontes de autoridade e disciplina, conselhos e apoios afetivos. Recebem isso em doses adequadas dos bons técnicos, com suas comissões bem aparelhadas. Sem elas, os jogadores rendem menos, naufragam nos momentos decisivos, pisam na bola, derrapam e mergulham em crises muitas vezes profundas. Há uma complementaridade forte aí.

Mas o espetáculo, o desfecho dos jogos, a tradução material das "leituras" que os técnicos fazem dos esquemas adversários – o sangue, o suor, as lágrimas, a determinação, a inteligência, o que mais se quiser – tudo isso é obra dos atletas, impulsionados e energizados pelos fiéis torcedores. Talvez, no fundo, seja obra da torcida, essa "magnética" que, agradecida, sempre canta. Jorge Benjor sacou tudo.

domingo, 26 de abril de 2009

A República em questão


Dever-se-ia analisar com mais atenção o II Pacto Republicano de Estado por um Sistema de Justiça Mais Acessível, Ágil e Efetivo, recentemente assinado pelos representantes dos três poderes da República brasileira. Os presidentes do Supremo Tribunal Federal, da Câmara dos Deputados e do Senado, ao lado do presidente Luís Inácio Lula da Silva, num documento de seis páginas, comprometeram-se a empreender esforços para conseguir a aprovação de projetos sobre acesso universal à Justiça, agilidade na prestação jurisdicional e proteção aos direitos humanos fundamentais.

Curiosamente, o assunto não despertou emoção, nem entrou na pauta política.

Um pacto é tanto uma suspensão de litígios quanto um compromisso de defesa, algo que duas ou mais partes que não pensam obrigatoriamente do mesmo modo nem têm os mesmos interesses particulares propõem-se a fazer em nome de uma meta comum, valiosa para todos e que se encontra ameaçada. Também exige cooperação e implica uma resolução de se manter fiel a uma causa, um princípio ou uma instituição.

O gesto mesmo intriga. Se se faz um pacto republicano é porque se supõe que a República esteja a correr algum risco, não necessariamente de soçobrar, mas, por exemplo, de não estar sendo adequadamente valorizada. Se tal pacto tem no centro o sistema de justiça é porque o que existe é ruim, funciona mal ou não cumpre o que promete à sociedade. Se o compromisso é tornar mais acessível, ágil e efetivo o sistema, é porque se supõe que ele não está ao alcance dos cidadãos, é lerdo e produz poucos resultados.

É de fato o que se passa? Temos indícios de uma crise dessa magnitude, que mexe com os fundamentos éticos e a base institucional do Estado brasileiro e está a ameaçar o coração do sistema republicano, que pulsa, como se sabe, ao ritmo dos direitos humanos fundamentais, da lei e da justiça igual para todos?

A lista dos pontos estabelecidos como prioritários pelos signatários do pacto é grave. Inclui, por exemplo, a preocupação com a legislação penal e confere grande atenção à investigação criminal, aos recursos, à prisão processual, à liberdade provisória e aos critérios para a interceptação telefônica e o uso da informática em investigações. Tudo para evitar excessos e proteger a dignidade da pessoa humana. São previstas alterações no Código Penal para dispor sobre os crimes praticados por grupos de extermínio ou milícias privadas, assim como na legislação sobre crime organizado e lavagem de dinheiro. Há preocupação também com a questão do abuso de autoridade e com a responsabilização dos agentes e servidores públicos em eventuais violações aos direitos fundamentais. Pensa-se em aperfeiçoar o Programa de Proteção à Vítima e Testemunha, do Ministério da Justiça, e a legislação trabalhista, com o objetivo de ampliar as tutelas de proteção das relações de trabalho.

A se considerar o teor do documento, a situação é calamitosa. O compromisso entre os três poderes estaria, nesse caso, a endossar a tese do presidente do STF, Gilmar Mendes, de que convivemos com um “Estado policialesco”, que ele tem associado aos excessos que estariam sendo cometidos pela Polícia Federal em operações como a Castelo de Areia e Satiagraha, envolvendo banqueiros, empresários, delegados, políticos e funcionários públicos.

Seria, portanto, um cenário de horror.

Mas, e se o pacto não for um jogo de efeito mais do que algo para valer?

Como, em política, não há fumaça sem fogo, daria para vê-lo como instrumento de um “ajuste de contas” entre as instâncias superiores do Estado. Dizem, por exemplo, que há muitas arestas no interior da Polícia Federal. Mesmo as relações entre o Executivo e o Legislativo não são as melhores, com o segundo se mostrando muito subserviente ao primeiro. Poderia ser visto como palco para que se defenda a supremacia do Estado Judicial sobre o Administrativo ou o Político, ou para que alguém exiba seu amor aos ritos da Justiça. Tais coisas, diga-se de passagem, não seriam estranhas nessa nossa época em que conflitos, tensões e divergências políticas transbordam a esfera política para cair no terreno do julgamento espetacular, tido como mais rigoroso e imparcial. Judicialização da política, costuma-se dizer.

Outra maneira de analisar o pacto é lembrando que operações destinadas a defender e valorizar uma República não podem se limitar ao protagonismo dos Poderes. Um modo republicano de governar e organizar o Estado é aquele em que o interesse público se distingue dos interesses dos particulares, o direito e a lei preponderam e os cidadãos escolhem livremente seus dirigentes. Ele exige Poderes alertas e legitimados, mas só faz sentido e sobrevive se contar com bons políticos e estiver embebido de cima a baixo de educação cívica.

Possui virtude republicana uma comunidade que se organiza e se governa com instituições e hábitos públicos que são compreendidos e defendidos pelos cidadãos, que sabem valorizar a redução dos privilégios pessoais e das condições de possibilidade de imposição de um grupo ou classe sobre outros.

Atos de corrupção, abusos de autoridade ou defeitos da Justiça não podem ser vistos apenas como um problema de servidores, juízes ou políticos. Não estão associados a uma degradação da moralidade – daquilo que se refere ao homem moral, que responde por seus atos tendo em vista a própria consciência individual –, mas sim a um padrão de eticidade, referida ao homem ético, que define seus atos tendo em vista os outros homens. Têm tem muito mais a ver com vida intersubjetiva e organização social que com caráter pessoal ou força institucional.

Sem repercutir nesse terreno e envolver os atores sociais de modo amplo, qualquer pacto republicano que se propuser será limitado e poucos efeitos virtuosos produzirá. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 25/04/2009, p. A2].

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A gastronomia como prazer e política


Se futebol também é política, como se tem sustentado nesse espaço, o que dizer da gastronomia?

Não vou me estender no assunto, que foge do meu conhecimento. Mas todo mundo sabe que comer é historicamente um ato social, ao menos entre os humanos. Elaborar pratos com mais ou menos requinte, servi-los com algum cuidado estético e reunir os amigos em torno deles é uma das mais antigas tradições, creio que todos os povos e civilizações. Tem sido em torno de mesas, bares e restaurantes, nas salas ou cozinhas domésticas, que muitos problemas e negociações são resolvidos. Pactos, armistícios, planos revolucionários, conspirações e estratégias de ataque ou defesa nasceram e estão sempre a renascer em almoços e jantares públicos ou privados, ostensivos ou clandestinos. Não precisaríamos sequer recorrer a exemplos como a Santa Ceia ou os banquetes que prepararam a Revolução Francesa para atestar isso.

Não é que o ato de comer seja imediatamente político no sentido mais simples da palavra política: disputa pelo poder. Mas é certamente político naquela dimensão da política como polis, vida civilizada, disposição para conviver e divergir mediante diálogos reflexivos.

Tudo isso para informar que Senhor Prendado agora virou um sítio, ganhando mais densidade e beleza. Bolado e alimentado pelo designer gráfico João Baptista da Costa Aguiar – um cobra na área, autor de algumas das mais belas capas de livros que conheço –, o espaço é gastronômico, mas enche os olhos e aguça os sentidos. Informa, ensina, incentiva a que se cozinhe e a que os amigos se reúnam. O Baptista se diverte, como ele mesmo diz, e ao fazer isso abre o apetite de todos os que gostam de comer e, vá lá, fazer política!

Visitem e aproveitem. Se possível, sem moderação.

domingo, 19 de abril de 2009

Um domingo de política e paixão

Em campo, não houve guerra, mas tensão e conflito. protagonizado por militantes aguerridos de uma causa: levar o time às finais. Arrastaram multidões. À beira do campo, antes da partida começar e durante ela, houve muita estratégia, tática, simulações e dissimulações. Os técnicos analisaram o jogo, buscaram conhecer o adversário e orientar os jogadores. No conjunto, foi um diálogo de tipo especial, mas nem por isso desprezível como arte política. Menor, dirão muitos. Tenho minhas dúvidas.

Um personagem meio gordo, já com alguns cabelos brancos, mostrou que clássicos de futebol também precisam de heróis. Não que tenha resolvido a partida, que terminou 2 a 0, com direito a um golaço dele. Mas foi o coadjuvante magnético de um coletivo bem organizado e determinado, que não tremeu e soube se impor.

domingo, 12 de abril de 2009

Lealdade e paixão


Depois da espetacular vitória do Corinthians contra o São Paulo, no domingo de Páscoa de 2009, com direito a gol de placa aos 47 minutos do segundo tempo, não há como não falar no assunto que freqüentou os jornais nos últimos dias e provocou filas enormes em muitos cinemas. Estive com meu filho na primeira sessão, logo na estréia, dia 10 de abril.

Todos os times de futebol têm uma torcida, mas com o Corinthians ocorre algo diferente: é a torcida que tem um time.

A frase frequenta o vocabulário do futebol. Principalmente dos corinthianos, claro, que são, como poucos no mundo, torcedores que admiram e sentem orgulho de sua torcida.

Não há como ficar indiferente à sua força e ao seu magnetismo quando se vai ao estádio. A torcida faz a diferença, seja ela a dos Gaviões, a de uma outra uniformizada ou a dos torcedores anônimos, “desorganizados”. Faz a diferença para o time: aplaude, vaia, incentiva, cobra, contagia. E faz a diferença para os próprios torcedores, que saem do estádio com a sensação de terem participado de uma experiência coletiva única, meio mística, meio política, meio artística. Quem já viu não esquece jamais.

Fiel, o Filme é sobre a torcida corinthiana. Uma homenagem mais que merecida, pungente, que envolve e contagia. Deve ser visto pelos que gostam de futebol ou pelos que se interessam pela sociologia das paixões nacionais. Não é sobre jogos, campeonatos ou jogadores, nem sobre a história do clube. Nunca um filme sobre futebol se concentrou tanto nos personagens que dão sentido e alma a um time.

É um ótimo documentário. Bem bolado, com uma câmera ágil, aguda e inteligente que mapeia a massa corinthiana e a individualiza, escolhendo com sensibilidade alguns torcedores típico-ideais, desses que vestem incondicionalmente a camisa. Por meio de suas imagens e entrevistas, vê-se como aquela massa social e culturalmente múltipla se une como por mágica em torno de uma única paixão, que apaga e dilui abismos sociais.

Há uma parcialidade futebolística explícita no filme. Não se trata de obra neutra, objetivista, mas de um documentário engajado, de corinthianos sobre corinthianos e para corinthianos. A direção e o roteiro (e é de se imaginar que também a equipe toda!) couberam a “fiéis” militantes (Andréa Pasquini, Serginho Groissman e Marcelo Rubens Paiva).

Sua tese é conhecida: o corinthiano típico é alguém acostumado a sofrer. A história do clube está embebida de episódios de dor, sangue, lágrimas. Nada jamais foi fácil, nenhum título foi conquistado por antecipação, mas sempre arrancado à beira do precipício. Como diz meu amigo João Batista da Costa Aguiar – designer gráfico dos maiores e cozinheiro de mão cheio (ver seu blog Senhor Prendado) –, o Corinthians é um time grego, forjado na tragédia.

Sua trajetória é vivida pelos torcedores como uma metáfora da vida, duríssima para a maioria deles, que não desistem nem esmorecem mesmo quando o time fraqueja e decepciona, como em 2007, quando foi rebaixado para a série B. Não por acaso, este é o ano-base do filme, em torno do qual se estrutura a epopéia do retorno à série A, no ano seguinte.

Fundado por um grupo de operários no dia 1º de setembro de 1910, no bairro do Bom Retiro, na capital paulista, o clube atravessou o século furando os bloqueios que elitizavam o futebol, vencendo preconceitos e incorporando seguidores dos grupos subalternos, das periferias e dos bairros pobres da capital. A paixão foi passando de pais para filhos, das cidades para os campos, dos operários para a classe média, dos pobres para os mais ricos, agregando migrantes (baianos, pernambucanos, cearenses, “caipiras” do interior de São Paulo) e imigrantes (espanhóis, italianos, árabes, japoneses), que se encantavam com aqueles jogadores que nunca desistiam de tentar a vitória, mesmo quando ela parecia impossível.

Nascida na luta e no sofrimento, a torcida só fez crescer nos anos em que o time ficou sem títulos ou conquistas, como aconteceu entre 1954 e 1977. Passou assim a fornecer parâmetros existenciais e identidade para muita gente. A partir da mística do “Todo-poderoso Timão”, construiu-se um imaginário: o Corinhians-nação, um povo, uma família.

Fiel, o Filme é sobre paixão pelo futebol, entregas e lealdades. Chega até a surpreender quando se pensa no mundo atual, tão vazio de vínculos de pertencimento e fidelidades. Não é à toa que o futebol cresce no mundo atual. Talvez esteja nele – ou em experiências como a dos fiéis corinthianos – a única lealdade coletiva a permanecer de pé nestes tempos estranhos de vida líquida e crise de identidade. Uma lealdade sólida, humildemente estampada no slogan que se cristalizou em 2008: “Nunca vou te abandonar!”.

Vejam o filme, vale a pena. E os que quiserem conhecer o Hino do Corinthians, o mais belo, conhecido e cantado do Brasil, acessem o blog Timão no Ar.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Partidos vazios


Se prestarem atenção nos dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) semana passada, os partidos políticos têm bons motivos para se preocupar.

Em janeiro de 2008, cerca de 90% dos eleitores brasileiros não pertenciam a nenhuma legenda. Um ano depois, esse índice subiu para 91,6%. São 119,7 milhões de eleitores sem vínculos partidários. A comparação chama ainda mais atenção quando se vê que o colégio eleitoral cresceu cerca de 2,9 milhões neste período, ao passo que o número de não-filiados aumentou 4,3 milhões.

A tendência é consistente. Afeta todas as legendas e ocorre em todas as unidades da federação. A única exceção foi o PRB, partido próximo à Igreja Universal do Reino de Deus, que conseguiu passar de 121 mil para 157 mil filiados. Só o PMDB, maior partido do país, perdeu 14% de seus aderentes (cerca de 300 mil), percentagem próxima à do PSDB, do DEM e do PT. Mesmo os micro-partidos ideológicos, tipo PSTU e PCO, retrocederam cerca de 3%.

Como explicar isso? Estarão os partidos decepcionando os eleitores ou são estes que encontraram outra maneira de encaminhar suas reivindicações? O problema é institucional, pode ser resolvido com uma legislação eleitoral e partidária mais justa e adequada? Ou é de ordem moral, derivado do “excesso de corrupção” e dos “altos salários” que desgastariam a imagem dos políticos entre a população, como alega uma complicada corrente de opinião que vai da direita ultraconservadora à extrema-esquerda “revolucionária”?

Não há resposta cabal para o fato, mas é fácil visualizar suas consequências. O enfraquecimento da relação entre partidos e eleitores é um indício de que se afrouxaram os laços entre a sociedade e o sistema político. Pode ser que os cidadãos já não se importem tanto com o modo como são governados e prefiram se distanciar da democracia representativa. Sem eles, no entanto, a representação soluça e termina sob monopólio dos partidos, que se tornam seus únicos protagonistas, “donos” de suas regras e de seus resultados. Com isso, a política representativa se converte em atividade de profissionais que não são “vistos” pela sociedade e não se importam em trazê-la para o centro do palco.

A questão é delicada porque a democracia representativa continua sempre mais vital em sociedades complexas e multiétnicas como são as nossas. Nela, o fundamental papel de dar operacionalidade à política, às reivindicações sociais e às decisões de governo tem cabido aos partidos, que foram inventados precisamente para isso.

Os partidos se dedicam a organizar a chegada ao governo ou a oposição ao governo. Encarregam-se de criar condições para que os interesses parciais desta ou daquela classe evoluam, se encontrem com os interesses parciais de outras classes e dêem origem a algum denominador comum que represente mais fielmente o conjunto. Mesmo as organizações de esquerda, que sempre se recusaram a limitar sua ação ao plano estrito do parlamento, representam grupos sociais, dão voz a eles e podem agir como construtores de hegemonia, de novas orientações culturais. São os partidos e a luta entre eles dentro e fora do parlamento que possibilitam o processamento democrático das demandas e a estruturação de uma agenda de políticas.

Se os cidadãos os ignoram, temos um sinal de alerta. Que soa forte quando percebemos que são ralas as chances da sociedade se auto-representar ou de resolver seus problemas pela via da “participação direta”.

Para entender melhor a questão, temos de olhar para o modo como se vive. O esvaziamento dos partidos tem a ver com uma mudança profunda que está abalando a ordem social. Alguns sociólogos costumam usar a metáfora da “vida líquida” para se referir a isso, salientando a exacerbação de um antigo processo de “derretimento” que estaria a afetar tudo aquilo que há de “sólido” e instituído. Em decorrência, a incerteza e a insegurança tenderiam a amortecer o desejo de participação política dos cidadãos. Outros falam de “sociedade em rede” e dão destaque às tecnologias de informação que, ao se tornarem experiência cotidiana, alteram a comunicação, o trabalho e a formação da consciência. Embaralhando os fluxos de decisão, numa dinâmica em que o econômico se sobrepõe ao político, a “sociedade em rede” faz com que os centros (os governos, os Estados, os partidos) percam potência e não consigam mais controlar espaços e pessoas, que frustradas deles se desinteressam.

Tais configurações casam com a individualização e a democratização típicas da nossa época, que “soltam” os indivíduos de seus grupos de referência e os incentivam a “pensar com a própria cabeça”, ou seja, a agir e a decidir autonomamente, mesmo que segundo padrões definidos pela mídia ou pelo mercado. Perversas e sutis formas de controle se generalizam em um ambiente onde tudo parece fora de controle. A obsessão por controlar (das pessoas à própria vida) convive paradoxalmente com o desejo ilimitado de liberdade.

As sociedades deixam assim de produzir adesões e lealdades simples, automáticas, tumultuando as identidades. Dá para imaginar como isso rebate na política.

Não precisamos levar essas hipóteses ao pé da letra, pois as mudanças sociais são assimétricas, espalham-se por tempos longos e demoram a ser captadas pelas instituições. Mas se tais explicações têm alguma serventia, é a de nos alertar para o que ocorre nos rios profundos que movem as sociedades. Servem para nos dizer que as instituições precisam mudar, que as práticas não podem permanecer rotinizadas, que a linguagem política têm de ser renovada dia-a-dia, independentemente de credos, livros ou heróis.

Ou a política democrática honra seu compromisso com a secularização e abandona os deuses que porventura já não falam a língua do tempo, ou arrisca-se a perder valor inapelavelmente. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 28/03/2009].

domingo, 29 de março de 2009

Entrevista: A direita se une na Itália


Força Itália, partido do presidente italiano Silvio Berlusconi, e a Aliança Nacional dirigida por Gianfranco Fini, decidiram formalmente, dias atrás, dar curso a uma nova organização, o Partido do Povo da Liberdade (PDL). Os dois braços do novo partido já estão juntos, como aliados, no governo Berlusconi.

Em termos eleitorais, o PDL herdará algo em torno de 43% do eleitorado, índice não desprezível num país como a Itália, que nas últimas décadas assistiu a um crescimento vigoroso da direita (abertamente fascista, ou não) e a uma igualmente vigorosa fragmentação da esquerda. O PCI, herdeiro de muitas tradições democráticas e reformistas, não conseguiu dar origem a uma organização política forte e estável. O Partido Democrático (PD), sua criação atual, ainda enfrenta dificuldades para decolar. A Rifondazione Comunista, que com ele rompeu em nome de uma esquerda revolucionária em 1991, nunca chegou a ter peso expressivo, e para complicar se fracionou no início de 2009.

O novo partido de direita nasce com a intenção de se desfazer das sombras do fascismo que sobre ele ainda pesam. Afinal, a Aliança Nacional originou-se do ventre mesmo do Movimento Social Italiano (MSI), fundado em 1946 com a pretensão de manter viva a chama do movimento derrotado com a deposição e a morte de Mussolini, ao final da segunda grande guerra. Foi formalmente constituída em 1993 e com o nome de MSI-AN disputou as eleições de 1994 já sob a direção de Fini e em aliança com Força Itália.

Desde então, Fini procurou construir para a AN uma imagem progressivamente distanciada do fascismo, de modo a inseri-la no cenário político italiano como expressão de uma direita conservadora mas democrática, ou seja, que aceita as regras do jogo e rejeita o extremismo reacionário e violento de antes. Com o novo partido agora criado, dá mais um passo nesta direção.

Não se trata de uma novidade qualquer, mas de um fato que merece análise e reflexão. Terá ele impacto sobre as diferentes expressões da direita nos diferentes países do mundo? Qual peso real terá na democracia italiana? Como estão reagindo a ele as organizações de esquerda? O que esperar dos desdobramentos?

Posto diante destas questões em uma entrevista concedida ao jornal comunista Liberazione no último dia 25 de março de 2009, o professor Guido Liguori – da Universidade da Calábria e vice-presidente da International Gramsci Society-IGS – buscou partir de uma síntese que iluminasse o conjunto e captasse o significado mesmo do fato:

“Antes de tudo, é preciso dizer que tinha razão quem levou a sério a mudança que nos últimos anos foi empreendida pela direita italiana. Se é verdade que Berlusconi ‘comprou’ a direita italiana do mesmo modo que procura comprar a democracia italiana, é de fato surpreendente como a direita se deixou absorver pelo novo partido sem se ferir ou se dividir. Trata-se de mais um grande exemplo de transformismo italiano. Evidentemente, tudo isso foi possível a partir da adesão da direita ao neoliberalismo, ocorrida no último decênio. Mas também é verdade que existem elementos muito inquietantes no ‘berlusconismo’ que explicam como as coisas chegaram a este ponto”.

Na entrevista, Liguori deteve-se com atenção na polêmica que vem acompanhando a tentativa de conversão da direita italiana: ainda faz sentido manter vivo o antifascismo ou o melhor é virar a página e seguir em frente?

Liguori é um estudioso de Gramsci. Dele, pode-se ler em português Roteiros para Gramsci (Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2007). Sua entrevista a Liberazione nos ajuda entender a nova e tumultuada fase da política italiana. Ela está traduzida abaixo.


É lícito pensar numa superação do antifascismo depois do desaparecimento da AN?

Não, e por várias razões. Em primeiro lugar porque o fascismo é uma tendência recorrente na política moderna e assume várias feições. Não é por acaso que se deve falar de fascismos, mais que de fascismo. Alguns de seus traços mais inquietantes estão hoje em plena luz do dia na sociedade italiana: a intolerância com o estrangeiro, o racismo latente, o personalismo autoritário traduzido em ‘liderismo’ populista, aspecto da política que, sob formas diversas, infelizmente também contagiou a esquerda. Deve-se mencionar ainda a construção frenética do consenso, que hoje se beneficia do protagonismo dos mass media. E mais: o irracionalismo vitalista, a divisão em bandos, em tribos (nos estádios de futebol, pelas ruas), o desejo de fazer justiça com as próprias mãos, mediante o uso de porretes e cassetetes, a torto e a direito (às vezes inclusive de modo legal, como ocorre com certas rondas policiais noturnas, que fazem recordar as ‘esquadras’ fascistas). Vão na mesma direção o ataque insensato contra a universidade e a escola, o desprezo pelos professores, pelos intelectuais, pela cultura não imediatamente ligada à produção. Contra tudo isso, ser e proclamar-se antifascista ainda é uma barreira inteiramente válida.

O antifascismo também tem sentido porque é um elemento que integra e sustenta a Constituição italiana, que vive continuamente sob ataque. O que você pensa disso?

Estou de acordo. Um outro ótimo motivo para proclamar-se antifascista é precisamente a defesa da Constituição democrática, que tem seu principal alicerce no nexo entre vocação antifascista e vontade de instituir uma República baseada no trabalho. Se tirarmos um destes elementos, desmontamos tudo. E se a Constituição de 1948 é menosprezada, o risco de darmos um enorme passo para trás é mais real do que nunca.

O filósofo Niccola Tranfaglia, numa entrevista que publicamos dias atrás, salientou o paradoxo de um Fini que adere ao antifascismo e de muitos ex-seguidores do PCI – hoje Partido Democrático – que, ao contrário, falam do antifascismo com embaraço. Que está ocorrendo?

Fini, como foi bem observado, disputa sua partida no longo prazo. Berlusconi gostaria de ser eterno, mas até mesmo os seus sabem que ele não estará disponível para sempre. Quanto ao PD, à parte os inúmeros erros e certas atitudes execráveis cometidas por alguns de seus líderes, penso que deva ser pressionado e posto diante de suas próprias contradições: não pode deixar de se proclamar antifascista, boa parte da sua base não aceitaria isso.

Os chefões da AN, ao contrário, parecem mais dóceis...

Há muitas diferenças entre eles. Fini tem em mente a grande direita francesa e deu passos significativos em direção ao ‘gaullismo’. Outros pareciam mais conservadores mas se submeteram completamente aos apelos do poder. É preciso ver como reagirá a base militante da AN. Pode ocorrer que depois de algum tempo uma parte reflua para a direita mais tradicional e militante. Mas há outro perigo, ainda mais grave: que a cultura fascista ou fascistóide acabe por permear em sentido autoritário o novo partido de Berlusconi, marginalizando os componentes que se dizem liberais. Aqui, precisamos ser muito capazes de ‘fazer política’, de atentar para todos os sinais de desagregação do bloco berlusconiano, proceder com o método da ‘análise diferenciada’, sem misturar caoticamente coisas que são distintas e diferentes. Ainda precisamos recordar que Gramsci quis se encontrar com Gabriele D’Annunzio [literato e político direitista italiano] para impedir a aliança de seus seguidores com os fascistas?

A vulgata anti-século XX que não poupou sequer a esquerda parece hoje se articular com o desejo de que não se ouça mais falar de antifascismo. O que você pensa disso?

É um risco real. Quando, à esquerda e mesmo entre esquerdas diversas, não se faz outra coisa que falar de ‘novidade’ ou de ‘inovação’, o risco é o de que se perca de vista a grande lição da história e as nossas raízes históricas. Não devemos evidentemente ser dogmáticos e livrescos, precisamos fazer sempre a ‘análise concreta da situação concreta’, como se dizia. Mas ter obsessão pela novidade pode significar que se está renunciando às próprias coordenadas interpretativas da realidade e se submetendo à hegemonia do adversário. O século XX ainda está sob muitos aspectos conosco, mesmo que os dias atuais sejam plenos de fatos novos e parcialmente novos que precisam ser compreendidos sem antolhos.