terça-feira, 24 de junho de 2014

De um junho a outro



  

Para Luiz Werneck Vianna, cujas
análises sempre iluminam

De junho de 2013 a junho de 2014, cristalizou-se no Brasil a convicção de que manifestações por direitos, políticas e salários são uma das condições da vida democrática. Passou-se um ano, chegamos à Copa, o processo eleitoral se configurou com maior clareza e os manifestantes não saíram das ruas.
Já não exibem a mesma vitalidade de antes, o mesmo magnetismo surpreendente e cheio de promessas que levou, de um jato, milhões de pessoas às ruas em junho de 2013. Também seus protagonistas mudaram, ou se ampliaram. Não são mais, tipicamente, jovens das camadas médias, desejosos de ver atendidas suas postulações por melhores políticas e por governos mais atentos ao que ocorre nas grandes cidades, aos transportes, à mobilidade, à segurança e às possibilidades de usufruto pleno da vida urbana. Aqueles manifestantes, que permanecem ainda que em menor número, fixaram uma pauta e permitiram, entre outras coisas, que se tomasse consciência do custo da democracia e do despreparo das forças policiais. Como se sabe, parte do combustível que levou as massas às ruas em junho de 2013 veio do repúdio ao modo como a polícia manejou e reprimiu as manifestações.
Por terem tido caráter explosivo e espasmódico, por sua natureza “horizontal” e refratária à política institucionalizada, as ruas de junho refluíram. Não conseguiram manter o pique. Passaram para um estado mais latente, uma espécie de stand by no qual os fatores que as movimentaram hibernam, sem perder potência e sem serem devidamente processados. Neste refluxo, produziram dois efeitos.
Por um lado, deixaram evidente o despreparo do mundo político e dos governos para dialogar com a pauta posta em 2013. Pouco foi feito para inseri-la nas políticas praticadas. Sequer o discurso governamental foi expressivamente reciclado. Os partidos permanecem surdos e mudos. Uma ou outra iniciativa reflete algum esforço para incorporar os novos termos do jogo político e social, caso, por exemplo, das reuniões promovidas pelo PT com blogueiros e ativistas das redes sociais.
Pode-se dizer o mesmo da decisão do governo federal de incrementar sua política de “participação social” com a criação de um novo conselho destinado a fornecer mais voz às entidades da sociedade civil. Participação é sempre bom, mas sua força somente pode vir da luta. É uma conquista, não uma concessão. A sociedade civil integra o Estado e deve buscar invadi-lo sempre, mas não é subalterna a governos e não deveria seguir seus comandos, suas agendas ou seus interesses, por mais progressistas que possam ser. Quando assim faz, é cooptada e deixa de ser sociedade civil, convertendo-se em “terceiro setor”: algo estéril, destinado muito mais a prestar serviços do que a encaminhar contestações e novas agendas ou a exercer e ampliar controles sociais.
Seja como for, tudo isso é muito pouco: são iniciativas cortadas pelo interesse eleitoral e pela busca de hegemonia. Fazem parte do jogo político, mas é preciso que se reconheça bem o terreno em que estão postas.
Por outro lado, o refluxo trouxe consigo uma espécie de substituição: os jovens das camadas médias, com suas ações “horizontais” e suas pautas múltiplas, cederam o espaço a setores mais organizados, com suas pautas simplificadas e suas ações “verticais”, ou seja, coordenadas por entidades à moda antiga, com chefes, bureaux políticos, comandos e ferramentas de ativação. Voltaram à cena os sindicatos, as greves, as lutas por salários e por demandas materiais específicas (moradias, por exemplo).
Como escreveu Luiz Werneck Vianna, com a costumeira argúcia, “desde junho de 2013 as ruas não têm dado tréguas em suas manifestações, primeiramente sob as bandeiras dos direitos, como os de acesso à saúde, à educação e à mobilidade urbana, e, nesta segunda onda dos dias presentes, com o claro registro da dimensão dos interesses. Em poucos meses, mudaram os temas e os personagens. As camadas médias, antes com massiva participação, cederam lugar a categorias de trabalhadores demandantes de melhorias salariais, por vezes à margem da orientação dos seus sindicatos, e a movimentos sociais de extração social difusa, como os do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), boa parte deles sob a influência de partidos da esquerda radicalizada”. [, Estadão, 22/06/2014, p. A2].
A troca dos direitos pelos interesses não foi, claro, radical nem completa. As duas dimensões continuam a interagir. Mas a inflexão foi importante e representou uma mudança de qualidade. Se velhos e novos personagens vierem a caminhar de modo mais articulado, a contestação será potencializada. Não é esse, porém, o cenário provável, ao menos no curto prazo. Por enquanto, o único elo que entre eles se estabeleceu teve a ver com o idêntico reconhecimento de que o fator que os impulsiona é um gigantesco mal-estar social – ora expresso na má qualidade de vida, ora no medo da inflação – e a recusa da política. Nos termos de Werneck Vianna, ambos os atores “guardam em comum o mesmo viés economicista e a mesma distância quanto à política”.
A explosão de junho de 2013 não caiu do céu. Surpreendeu pela força, mas estava em preparação desde bem antes. Há mais de uma década o país vinha se contorcendo, como se estivesse a sentir as dores de um crescimento. O lento crescimento econômico não impediu que se processasse um importante processo de inclusão social, turbinado por políticas governamentais que jogaram para cima alguns milhões de brasileiros que estavam estacionados na linha da pobreza e geraram uma forte mobilidade social. A sociedade se recompôs. Mas fez isso de maneira típica: o deslocamento para cima foi impulsionado pelo consumo, não tanto por direitos. A cidadania se dilatou pela via do consumo, fazendo com que entrassem no circuito milhões de indivíduos soltos demandando melhores serviços públicos e maior poder de consumo.
A mola disso tudo foi, portanto, economicista: a mola do interesse e da defesa das posições conseguidas.
O processo, além do mais, não foi acompanhado de nenhum projeto de sociedade. Os mais ricos – as “elites” das velhas classes médias – reagiram como se estivessem a ser ameaçados por “emergentes” interessados em ocupar lugares e espaços antes tidos como invioláveis (shoppings, aeroportos, bairros). A reação foi regra geral de desconforto e mal-estar, mas algumas vezes se fez acompanhar de agressividade e histeria, desvelando traços de uma mentalidade senhorial e estamental ainda presente na sociedade.
Sem projeto de país, as medidas de inclusão não tiveram como preparar a sociedade: não incluíram os que já estavam incluídos, dispensando-se de educá-los. Boa parte da disputa política que corta o país nos últimos anos – expressa nas tensões entre PT e PSDB – tem a ver com isso. A sociedade não mais se reconhece a si própria, não sabe bem a direção a tomar e o que esperar, e passa a se defender com os recursos de que dispõe. Invariavelmente, projeta sua agressividade para o campo político, contaminando-o. Como os partidos não são civilizadores, como não existem propostas claras para ninguém e como as instituições de intermediação social funcionam muito precariamente, tudo fica solto no ar, meio desconjuntado, fora de controle e sem eixo.
O clima eleitoral potencializa isso tudo. O baixo nível prevalece em todos os níveis, como se não houvesse espaço para a sensatez, a serenidade e a ponderação. O maniqueísmo grosseiro e rasteiro dá o tom: existiram sempre santos e demônios, massas e elites, pobres e ricos, farsantes e autênticos, numa falsificação grosseira da vida brasileira como ela é e numa deturpação do conflito democrático. De intransigência em intransigência, de ódio em ódio, de polarização em polarização, a política vai sendo rebaixada, coberta por uma nuvem de adjetivos, impropérios e simplificações. Trata-se o país como se ele estivesse em guerra civil. Perdem-se oportunidades preciosas para consolidar a democracia e construir um futuro mais consistente.
Não pode espantar, assim, que entre junho de 2013 e junho de 2014, não se tenha avançado. Também não surpreende que atitudes violentas e selvagens continuem a proliferar nas manifestações, a provar que a falta de coordenação, de centros diretivos e de estruturas organizacionais mínimas termina por expor as manifestações a muitas intempéries.
A violência que atrapalha e desgasta as manifestações também é de um tipo novo. Sua persistência mostra que não há política capaz de incorporar e direcionar (portanto, educar e civilizar) os diferentes setores sociais revoltados.
Não se trata de black blocs, de quem se pode discordar mas que carregam consigo um “ódio” direcionado ao sistema. Os que, ultimamente, têm quebrado, batido e incendiado são personagens que se põem abertamente fora da política, fora da massa e da luta pela conquista do que quer que seja. São simulacros de cavaleiros do apocalipse, interessados em fazer não com que o mundo se reorganize, mas sim que se desfaça numa grande explosão final. Não têm qualquer ideologia, não são anticapitalistas nem radicais da democracia. Não são anarquistas. Nada representam, portanto. Somente conseguem aparecer, causando caos e balbúrdia entre manifestantes com causas, porque estes últimos não têm estruturas de segurança e proteção, porque a polícia não sabe como agir e porque há, em parte da sociedade, uma dose alta de conivência, movida pelo fascínio do espetáculo da violência, pela passividade e pela confusão ideológica.
Os arruaceiros nem sequer são provocadores. Sua função é servir como porta de entrada para todos os que desejam se infiltrar, provocar e desmoralizar as manifestações pacíficas e combativas das ruas. Não são inimigos da ordem, mas da democracia e da mudança social.
De um junho a outro não houve avanços, mas as coisas ficaram mais claras. Não a ponto de levarem à convicção de que alguma unidade de pensamento e ação deve vigorar entre as forças políticas democráticas e reformadoras – que ainda permanecem dedicadas à destruição recíproca em nome da conquista do poder. As coisas ficaram mais claras para os cidadãos, que passaram a compreender que a luta das ruas pode lhes prestar um importante serviço: na medida em que encontrar ritmo e molejo políticos, renovará a política como um todo e funcionará como efetivo fator de progresso social. 

sábado, 14 de junho de 2014

As vaias, as ofensas e as vozes dos estádios




A presidente Dilma agiu bem ao reagir às vaias e aos xingamentos que recebeu na abertura da Copa. Poderia ter deixado prá lá, mas achou melhor responder. Foi imperativa como sempre, mas mostrou firmeza. Disse que não são palavrões toscos que farão com que se intimide ou desista. Em lembrou que os brasileiros são um povo “generoso e educado”.
Já Lula, fiel a seu estilo provocador mas sempre calculado, chutou o pau da barraca: para ele, “a parte bonita da sociedade” mostrou que não tem educação e está conseguindo “o que nunca conseguimos: despertar ódio de classes”.
Para ambos, a vingança virá nas urnas, com a consagração do longo período petista no governo.
Dilma não foi o primeiro nem será o último governante a ser vaiado em praça pública. Só para ficar no âmbito dos estádios, aconteceu o mesmo com Aécio Neves no Mineirão, anos atrás. Quem hoje deplora as agressões verbais a Dilma deve ter aplaudido quando elas se dirigiram ao ex-governador mineiro. Vaias fazem parte da democracia. Xingamentos e palavrões pesados, não. São ofensas, puras e simples, pouco simbolizam em termos democráticos. Mas dizem alguma coisa e precisam ser decodificados. No mínimo, devem ser contextualizados.
As vozes brasileiras dos estádios não são generosas nem educadas. Não deveríamos sobrecarregá-las de expectativas. Uma coisa é o caráter do povo, tido como “cordial” (o que não é totalmente verdade, se se tomar a palavra pelo seu sentido mais próximo da ideia de lhaneza e da gentileza), outra coisa, bem diferente, é o povo convertido em torcedor. Aí não há visão romântica que sobreviva aos fatos. As mães dos juízes que o digam, assim como os próprios jogadores, muitas vezes difamados, agredidos e ofendidos pelos torcedores. A banana jogada para Daniel Alves mostra, aliás, que o problema não é só brasileiro. Torcidas organizadas, hooligans e brucutus existem em toda parte.
Há quem pense que não se deveria esperar isso da “parte bonita da sociedade”. É um preconceito às avessas. Por que não? Acaso ela seria melhor ou pior do que as partes mais “feias” da sociedade? Seria verdade que o povo brasileiro, na sua multiplicidade de tipos, seria no todo marcado pela generosidade, este é de fato um traço eloquente de nosso identidade nacional? Sei não, desconfio... Aqueles que vaiaram são os mesmos que se opõem às políticas sociais e àquilo que se considera os acertos dos governos petistas? Não se sabe. Talvez sim. Mas ali, dentro de um estádio de futebol? Impossível estabelecer com clareza. Portanto, valeria a pena ir mais devagar na associação das vaias ao padrão cívico das diferentes classes da sociedade ou mesmo ao teor daquilo que opõe os agressores à presidente.
Os que xingaram a presidente devem ser criticados, porque se valeram de uma forma de expressão que não integra o universo da política. O que teriam querido dizer? Não ficou claro, e também por isso as ofensas caíram no vazio. Poder-se-ia pensar que foram um espasmo de mau-humor diante de tanto oba-oba em torno da Copa, de descontentamento com a inflação ou de decepção com o montão de dinheiro gasto no Mundial. Pode ter sido manifestação de uma antipatia pessoal. Pode até ser que os caras fossem ódio puro e se sentissem mesmo como a “elite branca” que tanto incomoda ao PT. Dá prá pensar, ainda, que as ofensas nasceram de uma combinação de tudo isso.
Jamais saberemos com precisão.
No entanto, dá para afirmar que as ofensas foram improdutivas. Tiveram efeito bumerang: voltaram-se contra quem as praticaram. Além disso, vitimizaram a presidente, gerando uma corrente de solidariedade a ela.
Pode ser que tenham tentado copiar as vozes rotineiras dos estádios, usando palavrões comuns nas disputas futebolísticas mais acerbas. Como a Copa foi excessiva e indevidamente politizada, futebol e política se misturaram na cabeça das pessoas. Hoje, além do mais, a intolerância e a agressão verbal fazem parte de todos os ambientes e são compartilhados por todas as classes e segmentos sociais. A baixaria é geral. Os palavrões estão presentes na vida cotidiana: às vezes como palavrões mesmo, às vezes como grosseria verbal tida como “adequada”, tipo a daqueles que para te contestarem procuram te estigmatizar, que dizem, por exemplo, que tuas posições são "estúpidas" ou que não aceitam o teu direito de argumentar.
Os xingamentos do dia 12 de junho vieram evidentemente de oposicionistas, de pessoas que talvez não entendam direito as regras da democracia, que talvez sejam egoístas e queiram ver sangue, ou que brinquem com coisa séria. Mas não representam as vozes da oposição política. A tentativa de associá-las ao PSDB ou ao PSB é malandragem pura, pior que o pênalti cavado pelo Fred.
Reagir com discernimento e critério aos xingamentos, responder a eles de modo elevado, com firmeza e sem eleitoralismo, é a melhor forma de mostrar a ineficácia daquela manifestação. Fazer o contrário é colocar mais lenha na fogueira, explorar uma divisão de classes que Lula diz repudiar e pavimentar a estrada para uma disputa eleitoral de baixo nível. Que nada agrega de bom e tensiona artificialmente a sociedade.
O Brasil não é hoje um país dividido entre uma “elite” branca e rica contrária ao Estado e uma “massa” de miseráveis explorados dependente dos governos. Não há dois blocos desse tipo, até porque nas ações políticas e governamentais concretas está tudo bem misturado. Os blocos que se opõem na atual política brasileira são diferentes: têm componentes de classe, com certeza, mas eles não são os únicos nem são os predominantes. E não serão eles a determinar o resultado das urnas ou os debates que se farão durante o processo eleitoral.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

PMDB, o partido subalterno




O apoio oficial do PMDB à candidatura de Dilma Rousseff, decidido em convenção realizada no último dia 10 de junho, não causou surpresa nem impacto particular. Estava escrito nas estrelas. Mas, seja pela margem estreita dos votos (398 a favor e 275 contrários, 59% a 41%), seja por tudo o que ocorreu nos últimos quatro anos, a decisão sugere alguma consideração.
Ela mostra a dificuldade que têm os políticos brasileiros de inovar suas agendas e rever seus procedimentos. Ao menos desde junho de 2013 ficou evidente que há um flagrante mal-estar social com o modo como se faz política e se governa no país. Os políticos teriam a obrigação de agir para corrigir as coisas. O problema não é de sistema – o tão falado “presidencialismo de coalizão” –, mas de estilo, pensamento e ação. Abraçados sem coerência programática ou ideológica, os partidos governam aos trancos e barrancos. Celebram alianças que, além do mais, sobrecarregam os custos das operações governamentais e administrativas, dadas as pesadas exigências que delas derivam.
O apoio peemedebista tem motivação eleitoral. Mas seu efeito político efetivo é uma incógnita e pode conter até mesmo um componente. Não foi por acaso que Michel Temer, antes da apuração dos votos, declarou que a confirmação da aliança com o PT abriria “portas para que um dia o PMDB ocupe todos os espaços políticos desse país, para o bem dos brasileiros". Falou, mas não disse tudo. Ocupar “todos os espaços políticos”? Papo para agradar os descontentes, mas que deixa evidente as reais intenções do partido e o que o levou de fato a reiterar a aliança.
O apoio é certamente favorável ao PT e a Dilma. Dá-lhe 2,5 minutos preciosos de rádio e TV, além de palanques em várias regiões, desde que se enquadrem os dissidentes. Ajuda a amortecer críticas e desgastes, assim como a disseminar a propaganda com que disputará as eleições.
Ao PMDB, fornece oxigênio para que siga na estrada como partido subalterno, sem pretensões ousadas, ideal ou programa. Abre-lhe a perspectiva de mais uma temporada de proximidade com o poder, mas o impede de sacudir seus andrajos e se renovar.
O PT ganha, mas pode perder mais à frente, caso vença as eleições. É que a aliança o amarra e condiciona, forçando-o a um jogo que garante certa governabilidade mas impede qualquer reforma digna do nome, o que é péssimo para um partido que se deseja transformador. Não é porque o PMDB assim o queira. É porque há coisas, em política, que estão inscritas no DNA dos atores: manifestam-se mesmo quando são outras as intenções e mais complexas as circunstâncias.
O PMDB foi o principal esteio da redemocratização, responsável maior pela estratégia de encurralamento progressivo e por via eleitoral do regime militar. Foi de fato uma grande frente, o “partido-ônibus”, que aceitava a todos mas tinha metas claras, ideias e programa, além de conseguir reunir políticos de estatura, intelectuais e expressivas lideranças associativas. Fez parte de uma época. Sobreviveu a ela, mas se descaracterizou. Tornou-se fisiológico, trocando o protagonismo político pela conquista de posições próximas ao poder. Aceitou papel secundário nos governos de FHC, de Lula e de Dilma, sempre passando a imagem de indispensável. Viu crescer sua divisão interna, invariavelmente centrada na questão de apresentar ou não candidatos próprios às eleições mas impulsionada por diferenças regionais importantes. Jamais chegou a ser propriamente coeso, como se houvesse em seu interior uma espécie de ambiguidade programada pronta para ser amplificada sempre que fosse preciso melhorar a posição relativa do partido na repartição de cargos ministeriais ou vantagens políticas.
Precisamente por isso, e levando em conta o tamanho da dissidência na convenção oficial (41%), não será surpresa se o PMDB mudar de ares caso algo venha a se modificar mais à frente.
O PMDB continuará vivo, desempenhando papel de peso no desfecho de vários impasses políticos e contribuindo para a formação de maiorias parlamentares. Perdeu a pegada oposicionista que havia em sua origem. Ajudará a todos os que se dispuserem a aceitar seus termos. Nessa toada, permanecerá também atrapalhando, ao engessar a política nacional mediante um jogo de apoios e trocas de favores que condiciona a democracia e freia o reformismo.