segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Trotsky / Stalin, cinema & literatura





Aproveito o período de festas e relaxamento para pôr em dia algumas leituras.
Resolvi reler O Homem Que Amava os Cachorros, de Leonardo Padura, de 2009 e que acaba de ser lançado pela Boitempo. Quando o li a primeira vez, fiquei sensibilizado e fui arrastado por sua trama. É um livro muito bom e interessante, que mistura história e ficção em torno de um dos personagens mais emblemáticos do século XX, Leon Trotsky.
Duas ou três coisas chamam atenção, à medida que avanço na leitura. Uma delas é o subtexto de Padura, que o mostra bem crítico ao regime cubano, e não só porque, como na maioria dos lugares em que houve comunismo, o regime reescreveu a história, pintando Trotsky como demônio e Stalin como santo. O Iván do livro, narrador da trama, verbaliza seu desencanto e suas preocupações com o clima disciplinador e fechado reinante na ilha. Deixa o leitor, no mínimo, com a pulga atrás da orelha.
Outra coisa é o modo como a errância de Trotsky no exílio revela um personagem perdido, e consciente disso. Protegido por admiradores passionais, sem conseguir dar um rumo a sua oposição, assistindo aos processos de expurgo movidos por Stalin contra velhos bolcheviques, vai mostrando sua fragilidade na medida em que a trama avança para o crime de Ramón Mercader.
Mercader, por sua vez, é tratado no livro como oscilando entre o mocinho e o bandido, produto de uma época de fanatismo e boçalidade ideológica que o convenceu de que tinha um papel de herói a desempenhar para garantir o avanço da revolução bolchevique.
Tocado pelo livro, fui atrás de dois filmes sobre os personagens principais dessa história. O assassinato de Trotsky, de Joseph Losey, no qual Ricard Burton é Trotsky, Alain Delon é Mercader e a maravilhosa Romy Schneider faz a trotskista que introduz o assassino na casa de Trotsky. O filme é meio chato, e mostra um Mercader à beira do desequilíbrio, bem diferente do cara de sangue frio que planeja meticulosamente um crime. Losey não constrói os personagens e deixa o espectador meio desarmado. É interessante, de qualquer modo.
O outro filme é uma produção da HBO (1992), com um excelente Robert Duval dando show na pele de Stalin. Durante 3 horas, Stalin é pintado rigorosamente como "monstro", tendo a voz de sua filha Svetlana como narradora da história. É um filme envolvente, cruel com Stalin. Tem brechas e forte viés ideológico, mas conta muitos detalhes sórdidos daquela que foi uma das grandes desgraças do século XX: a derivação da revolução bolchevique para uma ditadura perversa, que girou em torno da mente perversa e meio demente de Stalin.
Quem assiste ao filme, ou lê o romance de Padura, fica a se perguntar como foi possível que durante tanto tempo tantos tenham se deixado levar pelos relatos fanatizados que centralizavam o camarada Stalin e escamoteavam seus crimes. A história moldada, inventada e feita com golpes de mão e picaretas, foices e martelos.
Numa entrevista que li, Padura afirma que "Trotski era um político, Stalin um psicopata. Trotski poderia ser duro, reprimir, mas não de uma maneira doentia". Sua simpatia por Trotsky é evidente, e se afirma por contraste à monstruosidade de Stalin. Mas nem por isso O homem que amava os cachorros força a barra. Além do mais, tem uma prosa envolvente, com muitos achados preciosos.
O livro de Padura e os filmes sobre Trotsky e Stalin (facilmente encontrados no youtube) nos remetem à história do século XX e em particular à história da esquerda comunista e da União Soviética. Inquietam e convidam à reflexão.

domingo, 8 de dezembro de 2013

A Copa ou a vida - II





Se Copa do Mundo ganhasse eleições e ajudasse a melhorar a avaliação dos governos, talvez a ditadura de 64 não tivesse acontecido ou não teria acabado como acabou.
Futebol não é o ópio do povo, que tem sabido separar bem as coisas: ao povo o que é do povo, aos políticos e governantes, o resto, ou seja, as eleições e o poder. Uma coisa é o jogo, outra coisa é a representação. (Falo assim sabendo que “jogar” se aproxima bastante do “representar”.)
Todos faturam com ele, dos empresários e comerciantes aos políticos, dos petistas e tucanos aos extremistas de esquerda e de direita, passando evidentemente pelos peemedebistas, pelos comunistas, pelos socialistas e pelos liberais. Ativistas ou intelectuais que foram tucanos empedernidos um dia e agora desfilam como petistas apaixonados e sinceros aplaudem as obras da Copa como se fosse o resgate da nação, a definitiva emancipação social dos brasileiros. Do mesmo modo, petistas arrependidos ou desiludidos, ao lado do variado contingente de oposicionistas, vaiam a Copa para pedir mais investimento social ou mais “racionalidade gerencial”.
Em suma, tem pra todos os gostos. E todos sempre quiseram e continuarão a querer tirar sua casquinha.
Precisamente por isso, seria recomendável que os intelectuais, os gestores, os governos, os políticos – especialmente aqueles de melhor qualidade, em quem se depositam as chances do futuro – fossem mais comedidos em suas performances. O ideal seria que falassem menos, limitando-se a tomar providências e decisões, a torcer contra ou a favor, a olhar o jogo quando ele começar.
Encher a boca para falar que o governo fará a melhor de todas as Copas ou que o brasileiro mais uma vez mostrará seu valor é tão fácil quanto espinafrar o Blatter ou zicar os planos da FIFA.
Difícil mesmo é tratar o futebol com a seriedade que ele merece e com a responsabilidade que a política exige. Ou seja, relativizá-lo (it’s just a game, fellows...) e extrair dele o que pode haver de positivo na dimensão lúdica, na publicitária e na econômica. Sem esquecer a dimensão técnica, que entrará em campo e da qual dependerá boa parte do almejado sucesso do show.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A Copa ou a vida




É preciso ter estômago forte e muita paciência para aguentar o oba-oba ufanista em torno da Copa do Mundo padrão Fifa-Brasil.
Brasil-sil-sil prá tudo que é lado, olhos fechados para a mediocridade técnica e gerencial do futebol brasileiro atual, aquele papo de país-celeiro-de-craques que oculta a ruindade do que se faz em campo, seleção incluída. Fala-se em brasileiro povo cordial que dará uma lição de receptividade e organização ao mundo ao mesmo tempo em que todo mundo vê o despreparo do país para gerenciar o espetáculo que a Copa é. Claro, ao final, dirão que tudo fluiu a mil maravilhas, que foi um sucesso, que a contabilidade geral foi amplamente favorável ao país.
A presidente teve a desfaçatez de dizer que "essa será a Copa das Copas", indiferente aos gravíssimos problemas de infraestrutura que ameaçam fazer da festa uma tragédia de desmoralização e inépcia. Joseph Blatter pedindo para o povo brasileiro caprichar na união e evitar protestos é uma afronta e um gesto patético, equivalente ao de Pelé dizendo que não quer que seus filhos o vejam chorando por ter a seleção perdido a Copa. E Felipão? Para ele, a sequencia de jogos da primeira fase é ótima para a família Scolari. Alguém pode me dizer o que  significa isso?
Galvão Bueno ainda nem começou a irradiar em verde-e-amarelo, mas Lula, Dilma, Alckmin, os governantes todos, os candidatos e os políticos já estão em campo, falando pelos cotovelos. Todos certos de que o país fará bela figura e honrará suas tradições. São secundados por parte do povo, ingênuo em suas convicções. E pelos nacionalistas da pátria em chuteiras, inflamados com mais uma conquista que se avizinha e incapazes de ouvir qualquer crítica ou qualquer observação que não seja a do aplauso subserviente aos valores majestáticos do futebol canarinho com sua mística camisa.
É tudo de uma falsidade tão grande, tão obscena, tão ridícula, que até parece provocação para que o povo volte a se manifestar com fúria em 2014. Coisa que, aliás, torço para que aconteça. Quanto maior for o fracasso, maior será a chance de aprendermos algo com que avançar para o futuro. Há horas em que o quanto pior é melhor mesmo.
Da minha parte, estou procurando um jeito de sair do país em maio e só voltar em agosto. Sempre torci pela Holanda, a maior injustiçada de todas as copas. Sou sagitariano e me guio pelo que é justo, mesmo quando (vá lá, em menor dose...) a questão é o Corinthians, porque paixão futebolística só se pode ter pelo time do coração, não por uma seleção sem identidade ou marca própria. Ultimamente, morro de amores pela Espanha e pela Alemanha, que souberam reformular o jeito de jogar e organizar o futebol. Gosto dos ingleses também, que não fazem firula e buscam o gol. Não me emociona o papo nacionalista de que quem é brasileiro deve torcer pela seleção brasileira, ainda que respeite quem pense assim. Cada um é patriota como pode e quer. Mas confundir futebol (que é um esporte e uma competição) com política, bater palmas acriticamente, oferecendo os préstimos à propaganda oficial e à Fifa, com seu cortejo de multinacionais e gangsteres, é um mau passo. Um país que adora o futebol deveria ser poupado dessa babaquice, que nada tem a ver com futebol.
Mas devemos ir com calma na crítica. O ufanismo limitado ao futebol dá prá entender, é razoável. Quem gosta da seleção tem todo direito de torcer e se emocionar até às lágrimas. O problema é quando o ufanismo ultrapassa esse terreno e entra no campo do nunca antes se viu uma copa como essa... Aí é empurrar a sujeira prá baixo do tapete, inverter prioridades, jogar para a plateia, iludir e fingir que tudo está indo bem, é fazer o elogio do improviso e do descaso pelas agruras do cotidiano.
Vou devagar até mesmo nesse terreno. Afinal, a política anda tão ruim (aqui e no mundo todo) que os governantes se agarram no que podem prá tentar conseguir aplausos e legitimidade. Como não têm o que oferecer de palpável e concreto, oferecem uma festa, discursos motivacionais e uma carga dobrada de simbolismo. Se a seleção for bem, viva o governo. Se for mal, culpa dos jogadores, dos juízes ou do destino ingrato. (Olhando com frieza, o jogo brasileiro está bem abaixo do alemão, do espanhol, do português. Mas o futebol não tem lógica férrea, e jogando em casa, com o calor da torcida e o calor de algumas regiões, a seleção pode muito bem vencer. Mesmo sem merecer.)
Por isso, e também para zoar um pouco com os patriotas mais inflamados, abaixo a Copa! Entre ela e a vida, entre os estádios e as ruas, não deveria haver dúvidas sobre o lado a se escolher.