domingo, 27 de outubro de 2013

Repercussões, expectativas e incertezas



By William Medeiros

Outubro ganhou especial significado com a filiação de Marina Silva ao PSB e o anúncio de que se estava ali a celebrar uma aliança política de novo tipo, com a qual se alteraria o rumo da política nacional. Por agregar duas personalidades crescidas no perímetro desenhado pelo PT ao longo das últimas décadas, a anunciada aliança pareceu prejudicar mais a candidatura governista que a oposicionista. Lula, com sua conhecida sagacidade, referendou a impressão, ao dizer que recebia o anúncio da nova chapa como se fosse “um golpe no fígado” – frase que expressou uma decepção e uma confissão de que algo abalara o equilíbrio do lutador.
Os dias que se seguiram, porém, mostrariam que tudo ficaria desequilibrado. A aliança inesperada desorganizou o que parecia organizado e cercou de incertezas a disputa eleitoral de 2014. As pesquisas seguiram iguais, mas cálculos e discursos foram calibrados, especulações passaram a privilegiar outros cenários. Uma pergunta ganhou o palco: terá a aliança Eduardo/Marina gás, conteúdo e envergadura suficientes para mudar um jogo que parecia pré-definido e assentado na polarização PT vs. PSDB?
A nova coligação pegou os políticos de calças curtas, desinteressados de buscar novos recursos programáticos e retóricos de campanha, acomodados no velho ramerrame de uma polarização que soa para a opinião pública como eco antecipado daquilo que já se conhece: a mesmice, o artificialismo e a inocuidade de um discurso político saturado. Diante de uma proposição que fala em “terceira via” e em “despolarizar” o ambiente, todos tiveram de retocar a maquiagem e a se preocupar com o que dirão daqui para frente.
Esse o principal efeito, que se afirmará mesmo que Eduardo/Marina não digam nada de especial e venham a naufragar amanhã. Se, antes, ambos surgiam como coadjuvantes de uma nova corrida entre PT e PSDB, agora, unidos, invertem a situação: tornam-se protagonistas com razoável poder de fogo, seja para incomodar, forçar um distinto desfecho para o embate ou oferecer aos eleitores uma perspectiva de futuro.
O PSDB vem perdendo força e vigor já faz tempo. Tem pouca voz, quando comparado com anos anteriores. Pode ser recriado e readquirir vitalidade? Pode, mas não será fácil, pois a dinâmica eleitoral e as disputas que ela criará não favorecerão isso no curto prazo. Há excesso de espuma no partido, muitos atritos e desentendimentos, que travam uma retomada vencedora e a incorporação de ideário mais progressista, mais afinado com a socialdemocracia.
Um segundo mandato de Dilma, por sua vez, tenderá a abrir em Brasília uma estrada de acomodação em direção ao centro, seja porque o arsenal de ideias do PT está com estoque baixo, seja porque o preço que terá de ser pago para garantir Dilma II travará qualquer reformismo que vier a ser cogitado.
Ambos os partidos – carne da mesma carne, em boa medida – estão a pagar um preço alto pela teimosia em se hostilizarem reciprocamente. Funcionam como espelhos um do outro. Compõem-se com o que há de mais atrasado na cena política e, ao fazerem isso, deixam de combater o arcaísmo sociocultural que em princípio deveria ser seu pior pesadelo.
Eduardo/Marina terão de mostrar nos próximos meses que podem ser um vetor alternativo. Terão de explicitar ideias, propostas e projeto. E, sobretudo, terão de convencer o eleitor de que um novo modo de fazer política e governar é de fato possível, mantidas as atuais regras do jogo. Ocuparão espaço crescente se conseguirem demonstrar que os governos anteriores (FHC, Lula, Dilma) – sem consciência de que faziam isso e sem qualquer articulação entre eles – cumpriram um roteiro de realizações que precisam ser preservadas e que modelaram uma sociedade mais complexa e exigente, a qual deseja política e políticos melhores.
O surgimento de um terceiro polo de postulação democrática poderá ajudar a que emerja um debate mais qualificado e sereno entre vertentes de esquerda moderada, cada uma das quais com sua marca, suas virtudes, seus pecados e seus compromissos. Encerrará um ciclo em que o neoliberalismo funcionava, na retórica política, como um bicho-papão, o metro que se empregava ou para justificar opções “modernas” favoráveis ao mercado, ou para atacar os adversários de uma esquerda autoconcebida como imune ao mercado. Por ter sido assim tratado no plano discursivo, o neoliberalismo não pôde ser enfrentado e derrotado na prática, dificultando a superação dialética das conquistas do período Lula e FHC.
Resta saber como o sistema assimilará a novidade. Depois da “minirreforma eleitoral”, o cenário é desolador.
Para Marina, Eduardo, PSB e Rede, há riscos e perigos no horizonte.  Terão de mostrar que estão à altura da situação que criaram, aparar suas diferenças e avançar de fato em termos de definição programática. Precisarão modular as tentações personalistas e messiânicas, fazer com que suas diferenças ajudem a fortalecer a unidade pretendida. Somente assim conseguirão atrair, por exemplo, os 20 milhões de votos obtidos por Marina em 2010.
E há, por fim, o perigo maior, o da aliança não se traduzir institucionalmente, isto é, não ganhar densidade como ator político qualificado para vencer e governar. Nesse caso, flutuará como folha ao vento, atrairá eventuais desgarrados políticos sem encarnar numa criatura confiável, que traga consigo uma pedagogia democrática, desative a descrença na política, interpele o fascínio juvenil pela violência e cimente outro patamar de políticas públicas.
Se tais riscos forem contornados, a aliança tenderá a galvanizar parte importante do eleitorado. Poderá articular as elites políticas e as correntes democráticas mais expressivas em torno de um projeto de país, dando agenda e representação às ruas.
Porque as ruas não estão em silêncio, não deixaram de se movimentar e deverão fazer ouvir sua voz mais à frente. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 26/10/2013, p. A2].

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O destino de cada um




Não tenho talento nem conhecimento para fazer crítica literária. Até tentei, muito tempo atrás. Foi um fiasco.
Leio muita literatura, creio que hoje em dia até mais do que livros científicos. Para mim, é impossível entender o mundo sem literatura, sem música e sem cinema. A arte nos ensina coisas indispensáveis, que não podem ser encontradas na ciência, na filosofia ou na religião. Além disso, é menos chata.
Para mim, um bom romance não se filia a gêneros, escolas ou autores. É um texto que pega pela emoção, que envolve e faz fantasiar, refletir, pensar na vida, além de apresentar o leitor a personagens emblemáticos, singulares, com os quais estabeleço um relacionamento e entabulo uma conversação.
É assim com todo mundo que gosta de ler. Mergulhar no terreno sensível e explorá-lo de modo a ultrapassá-lo.
Acabei de ler Confinados, de meu amigo João Batista de Andrade, publicado recentemente numa bela edição da Prumo, de São Paulo.
O livro faz exatamente o que escrevi acima. Pegou-me pela emoção (que aumentou porque conheço o autor e compartilhei algumas coisas com ele). Ofereceu-me um relato pungente da vida como ela é e me pôs em contato com uma galeria de personagens densos, expressivos, fascinantes. Traficantes, gente comum, intelectuais. Sua trama é paulistana – a cidade tomada pela violência, um enredo que de certo modo nos remete às ações do PCC que sitiaram a cidade em 2006. Mas o que o enredo revela é universal e flui de maneira explosiva, às vezes delirante: confusões mentais, angústia, solidão, dúvidas, medos, a luta diária pela sobrevivência e pela vida, que pulsa mais forte.
Como é cineasta e documentarista militante – autor de tantos belos filmes com a marca do “cinema de intervenção” (Doramundo, O homem que virou suco, Vlado) –, João Batista constrói sua história como um mosaico de pequenas cenas plásticas, caprichosamente costuradas entre si. Lança-nos num redemoinho de labirintos e encruzilhadas.
Seus personagens estão confinados nessa trama diabólica que não controlam nem conhecem. Vivem. Batalham. Matam, amam e morrem. Confinam-nos com eles. E ao fazerem isso nos libertam.
O final aberto do livro sugere que o destino de cada um não está pré-determinado nem pode ser escolhido unilateralmente. Chances, desvios, riscos, circunstâncias e oportunidades estão o tempo todo redefinindo rumos que pareciam definitivos. É uma aposta na liberdade. E na capacidade humana de refletir sobre a própria experiência.
Tá na abertura do livro: "Você, como um leitor especial deste romance, pode mudar tudo. Proponha, mude, mesmo para que seja para que tudo continue como está. Pois se uma pessoa pode mudar uma história, abre-se uma nova chance para a vida. Quem sabe uma pessoa possa, com um gesto, uma opinião, mudar o mundo?”.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Tendências e alternativas




O PSDB parece estar deixando de ser uma alternativa efetiva na política brasileira, seja em termos de poder e disputa eleitoral, seja em termos de projeto. Vem perdendo força e vigor já faz tempo. Pode ser recriado? Pode, mas não será fácil, pois a dinâmica eleitoral e as disputas que ela criará não favorecerão isso no curto prazo. Há muita espuma dentro do partido, muitos atritos e desentendimentos, que travam uma retomada vencedora e a recuperação ou incorporação de ideário mais progressista, mais afinado com a socialdemocracia.
Um segundo mandato de Dilma, por sua vez, tenderá a abrir em Brasília uma estrada de acomodação em direção ao centro, seja porque o arsenal de ideias do PT parece enfraquecido e sem novidades consistentes, seja porque o preço que terá de ser pago para garantir Dilma II travará qualquer reformismo que eventualmente vier a ser cogitado.
Eduardo/Marina pode ser uma alternativa? Pode, mas terá de mostrar isso nos próximos meses. Terá de por para fora o que tem de ideias, propostas e projeto. E, sobretudo, terá de demonstrar que um novo modo de fazer política e governar é de fato possível, mantidas as atuais regras do jogo.  
Os últimos 25-30 anos foram de bonança e renovação no Brasil. Nossas três décadas gloriosas, como diz meu amigo William Sodré, com uma pitada de ironia mas com o foco preciso. Avançamos, seja porque pudemos contar com governos melhores do que o padrão (FHC, Lula, Dilma), seja porque esses governos – sem nenhum consciência de que faziam isso e sem nenhuma articulação entre eles – cumpriram um roteiro de realizações que acabaram por se compor e modelar outra sociedade. A economia internacional também ajudou, diga-se de passagem. Assim como a força que o capitalismo ganhou no país, por mais paradoxal que isso possa ser.
O problema é que, apesar de todos esses avanços, a política ficou travada, em boa medida controlada pelo baronato tradicional (Sarney, ACM, Collor, PMDB) e pela indigência política e intelectual  da classe política, a velha e a nova. As regras do sistema refletiram isso, mantidas que vem sendo sem maior oxigenação. Mas as regras não mudam a qualidade da política: ela foi piorando porque os políticos e os partidos pioraram, e muito. Foram abandonados pelos cidadãos, e com isso passaram a se reportar e a se medir por seus próprios interesses como partidos e não pelos interesses de seus representados, ou da sociedade. Essa, por sua vez, se afastou da política porque a “vida líquida” criou novas dinâmicas, novas atrações e novas demandas, que o sistema não consegue decifrar.
De qualquer modo, o deslocamento do eixo para uma maior polarização entre Dilma e Eduardo/Marina poderá significar três coisas: (1) um debate mais qualificado e sereno entre duas vertentes de esquerda moderada, cada uma das quais com sua marca, suas virtudes, seus pecados e seus compromissos. (2) o encerramento de um ciclo em que o neoliberalismo funcionava como o bicho-papão da competição democrática, o parâmetro empregado ou para justificar opções  “modernas” favoráveis ao mercado, ou para atacar os adversários de uma esquerda autoconcebida como imune ao mercado. (3) a projeção para outro patamar (superação) das conquistas do período Lula e FHC.
Resta saber se haverá gás e discernimento para que o sistema assimile e aproveite essa oportunidade.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Voto facultativo e vida líquida




Vida líquida é assim: não há nada fixo, tudo está posto em xeque e é pressionado à revisão. As pessoas “pensam demais”, no sentido de que reformulam incessantemente suas convicções, muitas vezes sem pensar de fato. Todos têm opiniões e as manifestam aos jorros, em cascata e eventualmente de modo concatenado. Quanto às instituições, tendem a virar pó ou a flutuar.

Agora pode ser a vez do voto obrigatório. Parece estar encorpando uma onda favorável a sua extinção. A proposta de emenda do senador Ferraço (PMDB-ES) é somente a ponta do iceberg. Ela foi derrotada hoje na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), mas voltará à tona logo, logo.  Até mesmo porque está pipocando por aí há tempo.

Sou simpático à ideia de se acabar com ele, o voto obrigatório. Se se trata de um direito, não faz muito sentido que seja uma imposição. E se o cidadão não quiser se valer desse direito? Não tem o direito? E se quiser fazê-lo por uma via alternativa, pela qual participaria sem participar, proclamaria seu direito de não participar e, com isso, manifestaria seu repúdio ao processo? Usar o voto facultativo para não votar é parecido com o voto nulo ou em branco, mas é bem mais contundente.

Como a época líquida é também o império (efêmero?) do indivíduo e da individualização, e em boa medida do individualismo,  o voto facultativo cai com uma luva nela. Especialmente em países como o Brasil, que seguiram um caminho estatal-autoritário para o moderno, caminho, aliás, do qual ainda não se livrou.

A vida líquida também é hostil à política dos políticos, à política institucionalizada, a leis e ordens fixas, a tradições. Mais incentivos a que tudo seja facultativo, condicionado à vontade de cada um, que deveria ser livre de qualquer obrigação, menos aquelas derivadas de algum contrato comercial, digamos assim.

Por tudo isso, tenho para mim que o voto facultativo virá, cedo ou tarde. E aí pagaremos para ver qual será seu real efeito sobre a política e a democracia, sobre o Estado, a comunidade e a sociedade civil. 

Dos argumentos que conheço para defender a obrigatoriedade do voto, um merece consideração. Não sendo mais forçado a votar, o eleitor poderá ser mais facilmente seduzido a ir às urnas por pressão de alguém ou mediante pagamento. O velho e bom curral, agora potencializado. Pague-me que irei votar. Ouvi, há pouco, jornalistas da CBN dizerem: “ora, ora, isso já acontece, o eleitor vai somente subir o preço”. Falaram assim, como se isso fosse pouco. É verdade que já acontece, mas não é verdade que o eleitor ficará com mais poder a ponto de influenciar mais ou de “subir o preço” de seu voto. Ninguém sabe. Pode ser que aconteça o contrário, e nessa medida o voto facultativo trará consigo um aumento da mercantilização do voto.

No fundo, tudo dependerá da educação política dos cidadãos.

Isso significa, a meu ver, que se deveria pensar numa forma de se transitar do voto obrigatório para o facultativo. Algo que prepare os espíritos e, no mínimo, apresente os desdobramentos possíveis, as medidas atenuantes, os mecanismos de fiscalização.
Sem isso, a proposta poderá ser inócua e até mesmo produzir o contrário do que se imagina. Aparecerá montada no cavalo da demagogia, mas vestida com o manto das melhores intenções.