quinta-feira, 25 de março de 2010

Uma década que valeu a pena ter vivido


A homenagem prestada pelo Departamento de Ciência Política da USP a Gildo Marçal Brandão foi emocionante. À altura do personagem.

Centenas de pessoas se aglomeraram no anfiteatro da História, na tarde do dia 19 de março, para recordar o colega, amigo e companheiro. A banca que o examinaria no concurso de Professor Titular estava presente e pela palavra de Gabriel Cohn, seu porta-voz, tornou público o que todos esperavam: “Entende esta comissão que, por sobrados méritos, cabe a Gildo Marçal a condição de professor titular da USP, e que, doravante, toda referência a esse nosso muitíssimo prezado e saudoso colega deverá ser como titular, que ele aqui passa a ser, por méritos substantivos ainda quando não por designação formal”.

Na ocasião, ao lado de outros, fiz um pequeno depoimento, que reproduzo abaixo.

Não sabemos bem de que modo nascem e crescem as amizades.

Sabemos que partem de pequenas e sucessivas aproximações, afinidades e contrastes que se atraem. Depois, ganham vida própria. Um belo dia, certas pessoas se convertem em parceiras do destino de outras. Incorporam-se à experiência delas.

São famosas as duplas, ou trios, ou quartetos, de amigos que se completam, se complementam e se negam a vida inteira.

Amizades também são feitas de silêncios, hiatos, distâncias, crises, brigas e esquecimentos. São humanas, dinâmicas, contraditórias, imperfeitas. Carregamos muitas culpas por falhas ou desatenções nesse terreno.

Há amigos de diferentes tipos, gêneros e graus. Amigos de parte da vida e amigos da vida inteira. Alguns que colam em nossa trajetória e com ela se confundem, e amigos que a acompanham mas não se envolvem. Há amigos e conhecidos. Todos nos causam sentimentos de afeição, ternura ou simpatia, sua presença ou lembrança nos agradam, ainda que possam também nos irritar em um ou outro momento. Muitos se tornam tão presentes e entranhados em nossa marcha que muitas vezes nem percebemos direito que eles existem, como se fossem uma paisagem especial ou um dado da natureza. Esquecemos algumas pequenas cortesias e certos gestos mais prosaicos de afeto e gentileza, por exemplo.

Tive a sorte e a felicidade de ter amigos desse tipo especial. Gildo Marçal Bezerra Brandão, professor do Departamento de Ciência Política da USP, foi um deles, especialíssimo. Éramos tão amigos e fizemos tantas coisas em conjunto – coisas que se misturaram umas nas outras – que me sinto estranho ao tentar homenageá-lo nesse momento.

Gildo foi um intelectual e um militante da grande política que nunca torceu o nariz para a pequena política.

Houve uma década em nosso relacionamento que certamente valeu a pena ter vivido. Creio que Gildo pensava do mesmo modo, tantas foram as vezes que conversamos a respeito.

Foi a década entre 1974 e 1983.

Nós nos conhecemos na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na Rua General Jardim, Vila Buarque, centro da cidade. Dois jovens recém-diplomados, de esquerda. Gildo vindo do nordeste, com a cuia, uma mala cheia de livros e muitas idéias na cabeça. Era formado em filosofia, admirador de Hegel e do Padre Henrique de Lima Vaz. Eu acabara de me bacharelar em Ciências Sociais e estava aberto a todas as influências. Queria ser marxista, como ele. Queríamos ambos ser comunistas.

Depois de alguns anos de muitas bebedeiras e conversas – como bebemos naqueles anos! –, participamos juntos da criação em 1976-1977 da revista Temas de Ciências Humanas, patrocinada pela editora de Raul Mateos Castell. Era um projeto ambicioso: organizar um espaço para a intervenção teórica dos marxistas, em plena ditadura. O conselho editorial era composto por nós dois, mais José Chasin e Nelson Werneck Sodré, com Raul Mateos onipresente.

Mas a revista tinha uma alma e um motor. Talvez Gildo fosse a alma e eu, o motor. Fazíamos de tudo, da redação aos contatos, à divulgação e à agitação. Publicamos coisas importantes, e acredito que a revista representou algo de relevante naquele contexto.

Houve algum sectarismo nela, também, certo distanciamento presunçoso em relação à política. Durante os primeiros anos, para nós, a frente de batalha era metodológica, filosófica. A unidade não se fazia na política, mas na teoria, ou melhor, no terreno doutrinário.

Havia uma questão subjacente: o partido comunista. Ele não estava na revista, mas de certo modo fazia sentir sua presença. Era uma espécie de referência para nós. O que fazer para ajudá-lo a resistir, a sobreviver, a voltar a ter atuação na política nacional? Acreditávamos que ao menos parte daquele movimento dependia do alcance de uma teoria social competente, rigorosa, capaz de fazer frente às teorizações “apolíticas” e “acadêmicas” que circulavam então, e cujo centro gerador achávamos que estava na USP.

A partir do seu quinto número – que publica em separata um artigo de Marcelo Gato, então deputado e sindicalista vinculado ao PCB – a revista começa a se abrir para a política. Gildo teve papel decisivo nisso, imprimiu um ritmo firme, impulsionou a revista para a frente democrática que então se constituía e crescia.

Pagamos certo preço por essa inflexão. Temas aproximou-se da vida partidária e não teve como escapar da luta interna que atravessou o PCB por volta de 1980. Sobreviveu até 1981. Dez belos números. Em seus anos finais, porém, eu e Gildo já não estávamos mais tão presentes. Fomos fazer outras coisas.

Outras coisas não, uma só coisa, absorvente: o jornal Voz da Unidade, que teve em Gildo um de seus organizadores e seu primeiro editor-chefe, entre 1980 e 1981.

A possibilidade de fazer um jornal comunista explícito, legalizado, foi uma experiência que ninguém esquece. Para o bem e para o mal. Não foi uma experiência com certeza uma experiência doce e tranquila. Houve muita briga, muita tensão, rupturas e divergências. Mas o saldo foi positivo, valeu por uma década inteira de formação política e intelectual.

Quando Gildo saiu da chefia, eu o substituí. Não estávamos propriamente com as mesmas posições. Ficamos um tempo com as relações esfriadas, deixamos de nos freqüentar. Mais um ano e eu também saí do jornal, que em boa medida passou para o controle estrito das direções do PCB.

A Voz da Unidade foi uma tentativa de oxigenar o universo comunista brasileiro. Não é o caso de fazer o balanço da experiência aqui, mas diria que parte do programa que tínhamos para o jornal foi alcançada. Muitos jovens comunistas fizeram a cabeça lendo e distribuindo o jornal. Mas o comunismo brasileiro como um todo não se oxigenou, não passou para outro patamar cultural, não melhorou sua performance organizacional, teórica e política. Perdeu-se nas entranhas e nos desdobramentos da redemocratização.

O que se seguiu depois é o que nos reúne aqui hoje. Gildo perambulou como free-lancer e em 1989 ingressou como professor no DCP da USP. Tornou-se um scholar, um pesquisador, uma referência em sua área de trabalho. Nossa amizade se refez e se ampliou, ficou consolidada, virou história.

Gildo percorreu um périplo rico, que o engrandeceu e o satisfez. Nunca se trancafiou em torres de marfim, não deixou de olhar para a política cotidiana, a pequena política, a que move as pessoas em seu dia-a-dia. Viveu a vida intensa e generosamente.

Perdeu algumas batalhas, mas nenhuma guerra.

terça-feira, 16 de março de 2010

A força do voto feminino

Participei domingo passado, dia 14 de março, do programa Em questão, na TV Gazeta, coordenado pela jornalista Maria Lydia Flandoli. Discussão interessante.
Maria Lydia convidou Marta Suplicy e a mim para pensarmos um pouco sobre a força do voto feminino. Está no YouTube, prá quem se interessar. O assunto é quente, não somente porque as mulheres representam hoje a maioria do eleitorado brasileiro, mas também porque as próximas eleições terão, salvo acidentes de percurso, ao menos duas mulheres postulando a Presidência da República.
O programa explorou a questão sobre diferentes ângulos. Está a sociedade brasileira preparada para ser governada por uma mulher? O eleitor ainda resiste a votar numa política? Que impacto a maior presença das mulheres terá nos discursos de campanha e nas estratégias dos candidatos?
Vale a pena ver os vídeos, que estão divididos em 5 partes, correspondentes ao conjunto do programa.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Gildo Marçal Brandão: itinerário(s)

Na sexta-feira dia 19 de março, o Departamento de Ciência Política da USP prestará uma homenagem ao professor Gildo Marçal Brandão, recentemente falecido. A data coincide com a que estava previamente marcada para ser a defesa final do concurso para Professor Titular que Gildo prestaria.

Será uma excelente oportunidade para manifestarmos nosso reconhecimento pelo trabalho de Gildo e por sua contribuição para o desenvolvimento dos estudos sobre idéias políticas no Brasil, entre outros campos a que ele se dedicou.

Aos que com ele puderam conviver e dele se tornaram amigos, como é o meu caso, será um momento para recordar os bons e velhos tempos de sempre, que não voltarão, mas também não serão esquecidos.

A programação e demais detalhes são os seguintes:

Gildo Marçal Brandão: itinerário(s)

19 de março, 14.00
Anfiteatro de História – USP
(Av. Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária)

I ° momento (14.00 - 14.45)
Abertura
Leitura das notas da aula
Comentário de um representante da banca

II ° momento (14.45 – 15.00)
Vídeo sobre Gildo Marçal Brandão

III ° momento (15.00 – 16.00)
Depoimentos

IV ° momento (16.00 – 16.30)
Manifestações de alguns dos presentes na homenagem.

Participantes
Bernardo Ricupero (USP)
Brasílio Sallum Jr. (USP)
Denis Bernardes (UFPE)
Élide Rugai Bastos (UNICAMP)
Francisco Weffort (USP/IEPES)
Gabriel Cohn (USP)
Gabriela Nunes Ferreira (UNIFESP)
Lucas Coelho Brandão (USP)
Luiz Eduardo Soares (UERJ)
Marco Aurélio Nogueira (UNESP)
Maria Alice Rezende de Carvalho (ANPOCS/PUC-Rio)
Maria Hermínia Tavares de Almeida (USP)
Otávio Velho (UFRJ)
Renato Lessa (UFF)
Rossana Rocha Reis (USP)
Vera Alves Cepêda (UFSCAR)

sábado, 13 de março de 2010

Entrevista: O encontro de Nabuco com a política


Devo ao jornalista Miguel Conde, do Caderno Prosa & Verso, de O Globo, a excelente entrevista publicada na edição de 13/03/2010 do jornal. Vou reproduzi-la abaixo, na expectativa de que isso ajude a fazê-la circular.

A entrevista, concedida por e-mail, foi feita tendo por base a segunda edição do meu livro sobre Nabuco: O Encontro de Joaquim Nabuco com a política: as desventuras do liberalismo, Ed. Paz e Terra, que acaba de chegar às livrarias.


“Apresentado originalmente como tese de doutorado na USP e publicado pela primeira vez em 1984, o livro de Marco Aurélio Nogueira é um marco nos estudos sobre a atuação política de Joaquim Nabuco e a configuração do liberalismo na sociedade brasileira. No livro, publicado agora em nova edição com um prefácio escrito por Cristovam Buarque, Nogueira mostra como o liberalismo é adaptado pelas elites políticas brasileiras para acomodar-se ao sistema escravista do país, e assinala a originalidade do abolicionismo de Nabuco dentro desse contexto.


Em que contexto e por que motivos o senhor decidiu estudar a relação de Nabuco com a política de seu tempo?

O estudo foi feito na primeira metade dos anos 1980, e desde então nunca mais deixei de me interessar pelo tema. Naquela época, era importante saber de que modo os liberais brasileiros participariam das lutas democráticas que se anunciavam no país, em oposição à ditadura. E um recuo no tempo mostrava-se sugestivo para compreender a questão em termos mais amplos.

Por sua vez, Nabuco era um personagem ainda não muito abordado pela pesquisa universitária, ainda que já gozasse de justa fama como intelectual e tribuno liberal. Valia a pena (como continua valendo ainda hoje) procurar compreendê-lo criticamente, vendo seus limites, suas virtudes, suas contradições – coisa que só poderia ser feita se se privilegiasse a relação dele com o seu tempo e as suas circunstâncias.

Havia também a campanha abolicionista – feita por ele e vários outros –, que foi um momento marcante na história brasileira, seja pelo que conteve de impulso reformador no plano social, seja pelo papel que desempenhou em nossa revolução burguesa, quer dizer, no processo que preparou o país para o capitalismo industrial do século XX. Talvez tenha sido o movimento que mais longe levou a promessa democrática e republicana de uma sociedade integrada por iguais cidadãos. Fracassou, ou não cumpriu todas as suas promessas, mas deixou uma marca no país. Era importante ver em que medida a luta pela redemocratização dos anos 1980 deitava raízes em outros momentos “épicos” da política brasileira.


Há uma constância das posições políticas de Joaquim Nabuco durante sua atuação pública? Como defini-las?

Nabuco foi liberal radical no abolicionismo. Pôs-se na “vanguarda da revolução burguesa” que se anunciava naqueles anos, como digo no livro. Mas ele era monarquista e, com a atenuação drástica das promessas da abolição e depois com a implantação da República, foi projetado para a margem da vida política. Talvez não tenha sabido lidar bem com isso, ele que se acostumara a ocupar o primeiro plano; recolhe-se e hiberna por uma década, período em que revê algumas de suas opções e reformula seu liberalismo. Torna-se mais conservador e é com essa bagagem que volta à diplomacia, no final do século.

Há uma sinuosidade evidente em sua trajetória, uma oscilação entre um liberalismo mais social, radical, e um liberalismo mais conservador. Mas não há dois ou mais Nabucos. O personagem manteve-se apoiado em eixos doutrinários consistentes, que lhe deram unidade e personalidade própria. Suas posições políticas acompanharam a sinuosidade da sociedade, tentaram traduzi-la, refletiram a preocupação de interferir nela, direcioná-la. Tanto que, após a abolição, Nabuco procurará fazer da política externa (o pan-americanismo) a sua principal trava de sustentação. Foi como se percebesse que o processo de construção do Estado, que passara pela reforma social, necessitava também de um reposicionamento do país na arena internacional.

A personalidade multifacetada de Nabuco jamais esteve solta no ar, arrastada pelas circunstâncias históricas ou por seus dilemas pessoais. Ela refletiu por certo tais dilemas e circunstâncias, mas esteve animada por um mesmo tipo de relação com o mundo e por uma mesma concepção ideal, que deram unidade e articulação à sua biografia. Existiu sempre um mesmo e único personagem, portador de um liberalismo suficientemente elástico para acompanhar as mudanças históricas sem perder coerência. Se houve radicalismo na primeira fase e conservadorismo na última, isso se deveu ao próprio padrão do liberalismo brasileiro, aos ritmos do processo social e aos desafios que se impuseram aos intelectuais e políticos do país.


Qual foi o significado, para Nabuco, da proclamação da República em 1889?

A República foi um jato de água fria em Nabuco. Ele acreditou até o fim que a abolição dos escravos carrearia largo apoio popular para a Monarquia. Não percebeu que os escravos estavam impossibilitados de agir para sustentar regimes, e que aqueles que podiam fazer isso eram precisamente os proprietários de escravos, que apoiaram a República para se “vingar” da Monarquia. Além disso, a Monarquia chegou exaurida a 1889, sem agilidade para acompanhar as mudanças sociais. Foi engolida pela dinâmica da vida, e Nabuco não conseguiu compreender direito isso.

Ele, no entanto, percebia com clareza que a República não poderia neutralizar o germe da fragmentação que atacava a sociedade, espalhada por um território muito grande e sem muitos pontos de coordenação e articulação. O novo regime, na verdade, para ele, seguiria o exemplo das demais repúblicas latino-americanas: acabaria por se oligarquizar. A história da Primeira República brasileira, de resto, não desmente isso, como sabemos.


De que maneira a figura de Joaquim Nabuco permite estudar o modo como se configurou o liberalismo no Brasil?

O abolicionista Nabuco tem muito que dizer sobre as questões e os dilemas com que nos debatemos hoje, em nossa República consolidada, antes de tudo sobre o modo como temos praticado a reforma social, e buscado construir uma sociedade que inclua de fato todos os seus integrantes. Ele foi abolicionista sem deixar de ser liberal, o que demonstra que liberais coerentes podem abraçar a questão social, ou ao menos não se omitirem perante ela. Terá sido Nabuco uma exceção, um liberal atípico, ovelha negra de uma família ideológica inteira que flutuou sobre as questões mais candentes da constituição da nacionalidade ou que as considerou exclusivamente en passant, sem o devido empenho e a necessária radicalidade? Ou sua própria sinuosidade reflete à perfeição as oscilações do liberalismo?

O modo como Nabuco abordou a questão social de seu tempo e buscou teorizá-la projetou-o para além do liberalismo, que sempre foi seu berço e sua estrutura mental. Fez de Nabuco um liberal social, ave rara neste universo tipicamente concentrado na defesa do indivíduo abstrato, de liberdades e direitos concebidos como atributos naturais a-históricos, portanto imprecisamente estabelecidos. Não deixaria de ser liberal, seria somente um liberal diferente, à frente de sua época e de seus companheiros de fé. Um personagem que tenderia a ser tratado como livre-atirador, um outsider, um estranho em sua própria cotterie.

No panteão dos grandes liberais brasileiros, Nabuco não figura com o destaque merecido, a não ser de modo bobamente apologético ou à custa de operações seletivas discutíveis, como a que elege sua trajetória posterior à abolição, seu monarquismo ou mesmo suas convicções pan-americanistas tardias como expressando o “verdadeiro” veio liberal de sua personalidade.


O que há de mais peculiar no liberalismo à brasileira?

Creio que é seu caráter espasmódico, ora sensível à agenda social, ora alheio a ela, uma corrente de idéias e valores inquestionavelmente decisiva na história nacional mas que não teve como desempenhar, entre nós, o mesmo papel revolucionário – forjador de um Estado aberto para a democracia e de uma comunidade composta por homens e mulheres iguais, livres e fraternos – que o projetou como verdadeiro esteio cultural da humanidade moderna. Nosso liberalismo, deste ponto de vista, é desventurado.


O senhor concorda com a noção de Roberto Schwarz de que no Brasil da época de Nabuco o liberalismo era uma "ideia fora do lugar"?

A expressão de Schwarz está consagrada, mas ainda comporta contínuas discussões. Não há, a rigor, ideias “fora de lugar”, e não creio que Schwarz tenha querido dizer isso com sua metáfora. O que há são ideias que, elaboradas num patamar específico da histórica universal (como o liberalismo), são obrigadas a sofrer ajustes e adaptações para continuar dialogando com os contextos particulares em que se busca adotá-las. O liberalismo teve de conviver com a escravidão no Brasil, fato que agredia um de seus principais preceitos. Como foi possível isso? Sacrificando parte da coerência da doutrina, que de certo modo terminou por ficar falseada. Poder-se-ia dizer que os liberais fingiram não ver aquilo que contradizia suas convicções ou que racionalizaram tais contradições, redefinindo seu peso relativo.


Essa configuração particular do liberalismo se mantém importante para pensarmos a política atual? De que maneira?

Mantém-se importantíssima, talvez até mais do que antes. A política brasileira atual não poderá prescindir dos liberais, mas não avançará se os liberais não ganharem vigor e coerência doutrinária. Se simplesmente continuar se reproduzindo o liberalismo espasmódico que tem prevalecido na história – ora impetuoso e reformista, ora indiferente e antidemocrático, em alguns momentos traduzido como liberalismo político, em outros aprisionado pelo laissez-faire –, a política como um todo sairá perdendo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Uma vida inteira de amizade


Não sabemos bem de que modo nascem e crescem as amizades.

Sabemos que partem de pequenas e sucessivas aproximações, afinidades e contrastes que se atraem. Depois, ganham vida própria. Um belo dia, certas pessoas se convertem em parceiras do destino de outras. Incorporam-se à experiência delas.

São famosas as duplas, ou trios, ou quartetos, de amigos que se completam, se complementam e se negam a vida inteira.

Amizades também são feitas de silêncios, hiatos, distâncias, crises, brigas e esquecimentos. São humanas, dinâmicas, contraditórias, imperfeitas. Carregamos muitas culpas por falhas ou desatenções nesse terreno.

Há amigos de diferentes tipos, gêneros e graus. Amigos de parte da vida e amigos da vida inteira. Alguns que colam em nossa trajetória e com ela se confundem, e amigos que a acompanham mas não se envolvem. Há amigos e conhecidos. Todos nos causam sentimentos de afeição, ternura ou simpatia, sua presença ou lembrança nos agradam, ainda que possam também nos irritar em um ou outro momento. Muitos se tornam tão presentes e entranhados em nossa marcha que muitas vezes nem percebemos direito que eles existem, como se fossem uma paisagem especial ou um dado da natureza. Esquecemos algumas pequenas cortesias e certos gestos mais prosaicos de afeto e gentileza, por exemplo.

Tive a sorte e a oportunidade de ter amigos desse tipo especial. No dia 15 de fevereiro de 2010, morreu um deles, especialíssimo: Gildo Marçal Bezerra Brandão, professor do Departamento de Ciência Política da USP. Éramos tão amigos e fizemos tantas coisas em conjunto – coisas que se misturaram umas nas outras – que me sinto estranho ao tentar homenageá-lo nesse momento de tristeza e consternação.

Escrevi o artigo que aparece no post anterior para O Estado de S. Paulo. Gildo foi um intelectual e um militante da grande política que nunca torceu o nariz para a pequena política. Esse texto servirá de base para outro, que sairá na Revista Brasileira de Ciências Sociais, da qual Gildo foi diretor por 4 anos. Preparei também um pequeno artigo para a revista Lua Nova, do CEDEC, instituição em que Gildo jogava suas energias nos últimos tempos.

Somados, os textos terão algumas repetições, que espero possam ser relevadas. Foram escritos com a intenção de destacar uma trajetória de vida e uma obra que merecem ser conhecidas e preservadas.

No próximo 19 de março, sexta-feira, dia reservado para a conclusão das provas que dariam a Gildo o título de Professor Titular de Ciência Política da USP, haverá uma homenagem a ele, feita pelo Departamento de Ciência Política. Será no Anfiteatro da História, na FFLCH, a partir das 14 horas. Darei mais detalhes nos próximos dias.


sábado, 27 de fevereiro de 2010

No coração da grande política


À memória de Gildo Marçal Brandão (1949-2010), cuja fibra generosa e combativa fazia com que rompesse fronteiras.


Quem se interessa pelas coisas associadas ao poder e à comunidade humana costuma distinguir duas formas dominantes de política.

A pequena política expressaria um lado mais demoníaco e mesquinho, concentrado no interesse imediato, na artimanha e no uso intensivo dos recursos de poder. Seria o reino dos políticos com “p” minúsculo, onde preponderariam a simulação e a dissimulação, a frieza, o cinismo e a manipulação.

A grande política, por sua vez, refletiria o lado nobre, grandioso e coletivo da política, focado na convivência e na busca de soluções para os problemas comunitários. Seria o reino dos políticos com “p” maiúsculo, onde o privilégio repousaria na construção do Estado e da vida coletiva, na aproximação, inclusão e agregação de iguais e diferentes.

A grande política sempre carregou as melhores esperanças e expectativas sociais. Não seria exagero dizer que os avanços históricos estiveram na dependência da ação de grandes políticos, de estadistas, e da prevalência de perspectivas capazes de fazer com que frutificassem projetos abrangentes de organização social. Sem pontes para unir os territórios e fronteiras em que vivem homens e mulheres – com seus problemas, idéias, sentimentos e interesses –, o futuro fica turvo demais, entregue ao imponderável.

Mas a grande política não é o oposto da pequena, nem tem potência para eliminá-la. De certo modo, é seu complemento necessário, que a impede de produzir somente o mal ou o inútil, aquele que lhe empresta utilidade e serventia. Toda operação de grande política traz em si um pouco de pequena política, que ela tenta domar e direcionar. Não há muralhas separando um tipo do outro, que se retro-alimentam. O estadista nem sempre veste luvas de pelica.

Há momentos em que a pequena política parece tomar conta de tudo. Em que faltam perspectivas e o chão duro dos interesses se distancia uma enormidade do céu dos princípios e valores que enriquecem e dão sentido à vida. Nesses momentos, a pequena política desloca a grande para a margem. Cai então sobre as sociedades uma névoa de pessimismo e desesperança, que se materializa ou numa adesão unilateral aos assuntos de cada um, ou no reaparecimento de uma fé fanática na ação providencial de algum herói. Os políticos – grandes ou pequenos que sejam – terminam assim por ser execrados e empurrados para a vala comum que deveria acomodar os dejetos sociais.

Existem também os que pensam e estudam a política. Hoje, costumamos chamá-los de cientistas políticos, abusando de um vocábulo, a ciência, que nos convida a eliminar o que existe de paixão e fantasia na explicação do mundo. Alguns desses cientistas, radicalizando o significado intrínseco da palavra, acreditam que só podem “fazer ciência” à custa do sacrifício da história, das circunstâncias, das ideologias, da própria política, e por extensão das pessoas apaixonadas, cheias de dúvidas e motivos não propriamente racionais. Fecham-se numa bolha e cortam a comunicação com o mundo, enredando-se numa fraseologia despojada de qualquer efeito magnético.

Muitas vezes, de tanto se concentrar em seu objeto, tentar recortá-lo e isolá-lo da vida social, os cientistas políticos se banalizam. Perdem o interesse em ligar a grande e a pequena política, por exemplo. Dividem-se em grupamentos mais especializados na dimensão sistêmica do Estado – competições eleitorais, governabilidade, reformas institucionais – ou mais dedicados a articular Estado e sociedade, ou seja, a encontrar as raízes sociais dos fenômenos do poder. Não são tribos estanques, e invariavelmente combinam-se entre si. Mas distinguem-se pelas apostas que fazem. Ao passo que uns investem tudo na lógica institucional, outros se inquietam na busca dos nexos mais explosivos e substantivos, que explicam porque as coisas são como são e como poderiam ser diferentes.

Nos momentos em que a pequena política prepondera, multiplicam-se os que se ocupam da dimensão sistêmica. Embalados pelos ventos a favor, tornam-se especialistas em soluções técnicas, quase indiferentes à opinião e à sorte das maiorias. Suas soluções, porém, não resolvem os problemas das pessoas. E como, além do mais, não se preocupam em construir pontes de aproximação ou romper fronteiras que separam e afastam, deixam de contribuir para que se afirmem diretrizes capazes de fornecer novo sentido ao convívio social.

Um belo dia, aqueles que vêem a política sistêmica como a quintessência da política esgotam seus arsenais. Tropeçam diante da abissal complexidade da vida, que escapa das fórmulas mais engenhosas. Nesse momento, as atenções se voltam para os que pensam a grande política. Que são capazes de injetar idéias e perspectivas à política, retirá-la da rotina e da mesmice, fazê-la falar a linguagem dos muitos, projetá-la para além de fronteiras e interesses parciais enrijecidos.

Um círculo então se fecha e a política se mostra por inteiro. Na face menor, revela a pequenez, a malícia e a vocação egoística de tantos que se aproximam do poder para usá-lo sem causas maiores. Na face grande, resplandece o ideal de que o futuro, por estar sempre em aberto, pode ser construído com ideais, instituições democráticas, bons governos e cidadãos ativos, dando expressão igualitária a desejos, esperanças e convicções de pessoas dispostas a viver coletivamente.

O cientista político surge então de corpo e alma. Sem olhar com desprezo para o pequeno mundo da política miúda, que ele sabe ser parte da vida, mas sem perder de vista o valor da grande política, que exige idéias e doses expressivas de criatividade e desprendimento.

Quando ele falta, ou desaparece, um vazio se abre. E fica mais difícil de ser preenchido. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 27/02/2010. p. A2.]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Um gramsciano a serviço da união dos povos


Demorei uns dias para escrever esse texto. Sem demagogia. Fiquei um tempo em estado de choque, sem ânimo para definir o que dizer.

Quarta-feira, 20 de janeiro, soube da morte de Giorgio Baratta. Poucos brasileiros sabem quem foi ele. Era conhecido e admirado por marxistas gramscianos, com quem mantinha relações estreitas, aqui no Brasil e em diversas partes do mundo. A todos encantava com sua ironia fina, seu conhecimento enciclopédico, sua admiração incondicional por Gramsci – uma admiração que não o cegava nem o fechava em tolos dogmatismos. O seu sempre foi um Gramsci aberto, plural, em busca de atualização, condição indispensável para que continuasse a ser útil para o esforço de compreensão do mundo. “O mundo grande, terrível e complicado”, como costumava falar Giorgio, exige muita tenacidade, muito empenho e muita flexibilidade. Gramsci era, para ele, o principal marxista equipado para este movimento de compreensão.

Giorgio morreu aos 72 anos, de câncer, contra o qual lutou obstinadamente nos últimos meses. Estive com ele em janeiro de 2009, em Roma, data da foto reproduzida acima. Depois, conversamos por e-mail algumas vezes. Nunca me passou pela cabeça que poderia estar doente, depois daquela tarde fria em que passeamos pelas ruelas do Trastevere. Na ocasião, Giorgio me pediu para lhe enviar um exemplar do meu livro sobre Joaquim Nabuco, As desventuras do liberalismo, porque achava que se o lesse iria conhecer melhor o Brasil. Meses depois, numa troca de e-mails, ele me lembrou do pedido. Respondi que enviaria o livro com enorme prazer, assim que saísse a segunda edição, revisada e atualizada, prometida pela Paz e Terra para fevereiro de 2010. Se eu soubesse...

Ele amava o Brasil. Com sinceridade. Vivia em busca de pontes que ligassem italianos e brasileiros, Nápoles e Bahia, Itália, África e Brasil. Seu livro Le rose e i quaderni (2000) foi traduzido e publicado no Brasil (As roas e os cadernos (RJ, DP&A, 2007). É uma excelente amostra do programa teórico, político e cultural a que se dedicou Baratta.

Em agosto de 2008, publiquei neste blog um texto sobre ele, tentando resumir sua vasta atividade cultural e sua rica personalidade intelectual.

Giorgio ensina filosofia na Universidade de Urbino, Itália. Marxista erudito, de imaginação larga e fôlego inesgotável, dedicou-se a uma batalha incansável para agitar idéias, unir povos e experiências e produzir cultura de esquerda. Sua relação com o pensamento de Gramsci foi intensa e original. Ele não era um estudioso em busca do verdadeiro Gramsci, mas sim um teórico que desejava usar Gramsci para interpretar as urgências do presente.

Esteve entre os fundadores da International Gramsci Society e era presidente da IGS Itália. Fundou e dirigiu a network Immaginare l’Europa e a associação cultural Terra Gramsci, na Sardenha. Foi um organizador cultural ativo e também um artista, que se envolveu com a música, o teatro e o cinema. Concebeu, produziu e/ou dirigiu dois filmes: Gramsci l’ho visto cosí, direção de Gianni Amico, e New York e il mistero di Napoli. Viaggio nel mondo di Gramsci raccontato da Dario Fo.

Além de As Rosas e os Cadernos, seus últimos livros foram Antonio Gramsci in contrappunto (2007) e Leonardo tra noi (2007), ambos publicados por Carocci editore. Colaborou com vários verbetes no Dizionario gramsciano 1926-1937, que acaba de ser publicado na Itália.

No site da IGS Itália, podem ser vistas as dezenas de manifestações de pesar que foram feitas por ocasião de sua morte.

Giorgio Baratta deixará saudade.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Para entender a derrota da esquerda no Chile


Ainda que fossem muitos os indícios de que o candidato direitista Sebastián Piñera – misto de senador, empresário e ricaço de hábitos extravagantes – poderia vencer o segundo turno das eleições chilenas realizado no último dia 17 de janeiro, a derrota de Eduardo Frei, da coalização de centro-esquerda Concertación, surpreendeu e causou grande comoção nos ambientes democráticos do mundo todo.

O que se passou com aquela coalizão, há 20 anos no poder e que contava com o engajamento da atual presidente Michele Bachelet, detentora de enorme popularidade entre os chilenos? Cansaço do eleitor, depois de tantos anos de continuísmo? Ou falhas políticas na condução do processo eleitoral? Teria sido consequencia da divisão entre os parceiros da Concertación? Ou a direita chilena, envolta pela sombra negra do pinochetismo, teria voltado a respirar com folga e a encurralar a esquerda, como nos velhos tempos da ditadura militar, uma das mais violentas da América Latina entre 1970 e 1990?

Entre os vários artigos e depoimentos que enfrentaram o desafio de entender o resultado eleitoral e de pensar seus desdobramentos, destacou-se a entrevista concedida pelo cientista político chileno Manuel Antonio Garreton à jornalista Laura Greenhalg, de O Estado de S. Paulo, edição do caderno Aliás de 24/01/2010. Profundo conhecedor da história política de seu país e atento analista das eleições, Garreton passa em revista os antecedentes da disputa presidencial e oferece um rico quadro da interrupção do projeto de poder da Concertación. Para ele, “não foi Piñera quem ganhou, mas a Concertación que perdeu”. Fala de cátedra: além de Professor Titular da Universidade do Chile, ele é também autor de vários livros, entre os quais Pós-Pinochetismo na Sociedade Democrática.

Vale a pena ler a entrevista.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A cidade inclemente


Em entrevista concedida ao Estado de S. Paulo no último dia de 2009, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), de São Paulo, declarou que a cidade estava melhor do que a encontrada no início de seu mandato, um ano atrás.

“A cidade avançou em diversas áreas, principalmente em saúde e educação, pilares da gestão”, além de ter ganhado em transparência no plano administrativo. Seu primeiro ano como prefeito estaria terminando “sem nenhum problema na cidade”. O prefeito manifestava-se plenamente convencido de que ele, “eleito para fazer o que é correto e importante”, estava “zelando pelos interesses da cidade”.

Menos de trinta dias depois, o Movimento Nossa São Paulo divulgou pesquisa realizada pelo Ibope no mesmo mês de dezembro, ouvindo 1.512 pessoas com mais de 16 anos. Os resultados não foram somente contrastantes com a avaliação do prefeito: foram impressionantes. A avaliação positiva do governo Kassab caiu de 46% para 28%, impulsionada pela insatisfação manifestada pela população, que atribuiu nota média de 4,8 para a qualidade de vida na cidade, numa escala de 1 a 10. Nada menos do que 57% dos paulistanos mudariam da cidade se pudessem.

São números eloqüentes, que falam por si e desafiam a todos, não somente ao prefeito. Desanimam, quando lembrados no aniversário de 456 anos de São Paulo. E intrigam, quando confrontados com o dinamismo, a pujança, a ampla oferta cultural e o pluralismo da cidade. Mas são inteiramente compreensíveis, quando se considera a vida cotidiana real da maioria dos moradores.

No último dia 21, por exemplo, as chuvas da madrugada causaram congestionamento recorde e deixaram São Paulo praticamente ilhada. O prefeito atribuiu o estrago ao “crescimento desordenado e à impermeabilização excessiva da cidade”, isentando a administração municipal de falhas ou responsabilidades. Garantiu que “a população pode ficar tranquila, pois os investimentos continuarão acontecendo”.

No transporte público e no trânsito, o desgaste, a poluição e o desperdício são a regra, para todos. Calcula-se que a cidade jogue fora cerca de R$ 33 bilhões pelo que se deixa de produzir em decorrência das horas intermináveis que muitos gastam para ir de um lugar a outro. Há muito tempo a cidade deixou de ter contato com o silêncio como experiência cívica, vital para a formação de uma cidadania crítica e reflexiva. O caos e o desassossego parecem explodir em todos os cantos.

A visão dos gestores não encontra respaldo na percepção dos habitantes, porque os primeiros tendem a se ver como racionalizadores bem-intencionados e os segundos experimentam na pele tudo o que a cidade produz de pior. O que o prefeito considera sucesso e realização, a população vive como problema e decepção, quase com raiva.

A sensação é que São Paulo está a um passo de perder a lealdade de seus moradores, que estão decepcionados com ela e sofrem para viver nela.

Se for assim, teremos problemas pela frente. Será difícil, por exemplo, contar com apoios sociais para as operações que precisarão ser feitas para que a cidade volte a ser um ambiente apreciado por seus habitantes. Porque é evidente que a cidade não será modificada pela ação unilateral ou pela vontade política da prefeitura, por mais que ela possa ser indispensável. Uma cidade muda quando uma população chama para si a tarefa de mudá-la. Mudanças urbanas profundas resultam tanto de obras e planos de governo quanto especialmente de modificações de hábitos e comportamentos. São ações que implicam algum tipo de “sacrifício” e que não podem ser vitoriosas sem certo grau de adesão, ainda que tardia.

Porém, se uma população acha que seus políticos são desonestos e as instituições públicas não são confiáveis, de que modo poderá aderir à cidade e aos planos que eventualmente vierem a lhe ser apresentados? Na pesquisa mencionada, a maioria da população (61%) não confia na prefeitura e 74% suspeitam dos vereadores paulistanos, que receberam nota 2,3 em termos de honestidade. Foi a avaliação mais baixa entre todas as instituições públicas analisadas. Mais de 60% acreditam que não há democracia na educação e 71% acham que o serviço para agendar consultas, exames e resultados nos sistemas de saúde está bem abaixo do razoável. A honestidade dos governantes foi avaliada por 92% dos entrevistados como ruim ou péssima.

Tal manifestação sobre a qualidade de vida na cidade está indicando a possibilidade de que se forme uma onda de descolamento entre o morador e o espaço urbano. Se tudo está ruim e é percebido pelas pessoas como péssimo, a probabilidade maior é que as coisas continuem a piorar. Se os ônibus são o que são – latas velhas, barulhentas e sem conforto, para levar gente como gado –, por que os usuários cuidarão deles? Por acaso não ficarão tentados a arruiná-los ainda mais?

Mas é preciso reconhecer, também, que a mesma população que se mostra decepcionada com a cidade dá um crédito de confiança a ela. Fala em ir embora, mas permanece, até porque não tem para onde ir. E continua, dia após dia, a buscar seus sonhos nas ruas esburacadas e inseguras da metrópole, sinal de que essas são ruas ainda carregadas de promessas.

São Paulo tem certamente virtudes reconhecidas por seus moradores. Mas é vista e sentida como inclemente, um ambiente que exige muito e concede pouco. Fazer com que a cidade virtuosa prevaleça sobre a cidade que não perdoa é o desafio dos próximos anos. Para ser vencido, ele exige uma bússola democraticamente definida e recepcionada. O Plano Diretor Estratégico do município foi aprovado em 2002 e faz parte do caminho, mas é desconhecido da população e não conta com ela em sua aplicação. Poderá até produzir bons resultados, mas estará sempre um passo aquém do necessário.

Uma megalópole como São Paulo, afinal, não é um corpo domesticável ou que se possa modelar sem um forte e permanente envolvimento da população. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 23/01/2010, p. A2].

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Uma transexual na Casa Branca


Desde o último dia 4 de janeiro, Amanda Simpson, de 48 anos, é conselheira técnica sênior do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, um alto cargo na Casa Branca, nomeada pelo presidente Barack Obama. O Departamento tem como tarefa proteger a segurança nacional mediante a gestão do comércio internacional, a aplicação dos tratados e a promoção da segurança econômica, cibernética e interna.

Até 2002, Amanda era Mitch Simpson, e trabalhava numa empresa de segurança. Naquele ano, submeteu-se a seis cirurgias para mudar de sexo. Em 2006, passou a integrar a diretoria do Centro Nacional pela Igualdade dos Trânsgeneros.

"Estou verdadeiramente honrada com a nomeação e ansiosa e entusiasmada com esta oportunidade", ela declarou no website do Centro. "E ao mesmo tempo, como um dos primeiros transexuais indicados pelo presidente, espero que em breve o governo federal tenha centena deles, e que minha nomeação abra futuras oportunidades para muitas pessoas”.

Fui procurado pela Folha OnLine para analisar o fato. "Obama está fazendo uma escolha muito mais orientada pelos direitos humanos do que pelo impacto político que isso possa ter na comunidade como um todo", disse então. Trata-se de uma escolha meritória em si mesma, mas cercada de algum risco político. Prova de coragem e coerência.

A decisão de Obama tende a repercutir e a exercer alguma influência em outros países. No caso do Brasil, a questão está aberta. A sociedade atual emite sinais claros nessa direção. Resta saber se políticos e governantes conseguirão decifrá-los.

Ouça as declarações no podcast da Folha OnLine.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A tragédia das águas

André Henrique, que foi meu aluno na Unesp em Araraquara, faz um blog muito legal e dinâmico. Chama-se Via Política. Sua galera de amigos está sempre por lá, comentando e criticando as postagens.

Ontem, o André abriu um debate sobre as chuvas de verão. Ou melhor, sobre a tragédia das chuvas, em Angra dos Reis, em outras áreas da região e em muitas cidades do sul e sudeste. É um problema que se repete ano após ano, a um ponto que parece não ter mais solução. Desequilíbrio ambiental, aquecimento global e agressões à natureza se somam à ocupação irregular do solo, à voragem da especulação imobiliária, ao descaso governamental e às dificuldades reais que os gestores têm de lidar com a situação. O verão perde boa parte de seu encanto. Mortes, cidades submersas, patrimônios históricos e vidas destruídas, caos por todo lado.

As vítimas se acumulam, entristecem a todos, causam pasmo e horror. Quase sempre no silêncio de seu lamento pungente, impõem uma agenda para o país. Até quando teremos de conviver com isso?

Vale a pena visitar o blog do André.